CRÔNICA DA CIDADE

Crônica: Zuenir Ventura, mais que exemplo, lição

Zuenir não devia estar muito orgulhoso da nossa capacidade de debater atualmente. Como ele já havia notado, as gerações que seguiram, e a própria de 1968, perderam-se diante da falta de bússola

 01/08/2006. Crédito: Paulo de Araújo/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF. Escritor e jornalista Zuenir Ventura, no Centro Cultural Banco do Brasil.
      Caption  -  (crédito:  Paulo de Araújo/CB/D.A Press)
01/08/2006. Crédito: Paulo de Araújo/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF. Escritor e jornalista Zuenir Ventura, no Centro Cultural Banco do Brasil. Caption - (crédito: Paulo de Araújo/CB/D.A Press)

Já se passaram quase 20 anos desde que li pela primeira vez a obra-prima de Zuenir Ventura. Em 1968: O ano que não terminou, o jornalista e escritor traça uma linha do tempo precisa e analítica dos acontecimentos daquele ano que ecoaram por gerações. O livro foi escrito 20 anos depois daquele período de revoluções que escreveram a história mundial, ganhou uma reedição em 2008 pela Editora Planeta do Brasil e, em 2009, chegou às minhas mãos com a sua dupla, a continuação 1968: O que fizemos de nós. Uma edição belíssima, em cinza-escuro e verde-limão, intercalando nas capas um grande Z e um V enorme, iniciais do nome que dispensa apresentações.

As obras me fascinaram pelo caráter visceral, como bem descreve Heloisa Buarque de Holanda na apresentação desta terceira edição. "A entrevista aqui não parece dirigida tão somente para o levantamento preciso de dados e fatos. Pelo menos, esse não é seu maior resultado. Zu ouve um pouco mais. Descobre, na inflexão inevitavelmente ficcionalizada da memória, nostalgias, ressentimentos, desejos, sonhos, frustrações. Essa é a verdadeira matéria-prima que estrutura o trabalho de reconstituição do ano histórico de 1968 feita por Zuenir, autor e personagem. Trabalho de mestre", escreveu.

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E isso, de fato, ele era. Mesmo sem a intenção. Ali aprendi muito sobre um tanto de coisas. Cidadania, política, vieses e jornalismo. O ano que não terminou deveria ser leitura obrigatória nas aulas de história das escolas brasileiras. Zuenir conecta as tentativas de enfrentamento à ditadura militar no Brasil com os movimentos revolucionários difundidos pela Europa. Logo na citação inicial, porém, avisa, ao lembrar a frase de Mário de Andrade: "Não devemos servir de exemplo a ninguém. Mas podemos servir de lição". E se, parafraseando outro mestre polêmico, toda unanimidade é burra, nada mais óbvio do que entender cada linha da história — contada ou vivida — como uma chance para aprender com erros e acertos, sem dividir o mundo entre heróis e vilões.

É dessa humanidade que Zuenir se vestia ao escrever. "Era difícil ser indiferente naqueles tempos apaixonados. Também, havia muito o que discutir. Discutia-se nas universidades, nas assembleias, nas passeatas, nos bares, nas praias: a altura das saias, o caráter socialista da revolução brasileira, o tamanho dos cabelos, os efeitos da pílula anticoncepcional, as teorias inovadoras de Marcuse, as ideias de Lukács, o revisionismo de Althusser. Os temas eram infindáveis, tanto quanto a duração dos debates."

Zuenir não devia estar muito orgulhoso da nossa capacidade de debater atualmente. Como ele já havia notado, as gerações que seguiram, e a própria de 1968, perderam-se diante da falta de bússola. "Em que medida a 'geração do milênio', aquela que nasceu próximo à virada dos séculos, significa ruptura ou continuidade em relação à geração de 68? Ou nem uma coisa nem outra, mas um pouco de cada uma? De qualquer jeito, esses 40 anos estabeleceram notáveis diferenças entre os que sonhavam com a Era de Aquário e os que vivem hoje o pesadelo do aquecimento global. Aqueles que olhavam para o futuro procurando mudá-lo, enquanto esses preferem pensar no presente, no aqui e agora, até porque nada mais incerto hoje do que o porvir", resumiu em seu 1968: O que fizemos de nós, publicado em 2008.

Faz tempo que debrucei sobre as duas obras, mas revisitá-las sempre me traz uma dose de lucidez necessária à vida diária, e aumenta minha admiração pela obra do tão nobre colega de profissão. Espero ter aprendido as lições para seguir os passos do mestre.

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postado em 11/10/2026 16:35 / atualizado em 11/10/2026 16:41
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