
Depois de uma pausa na carreira e anos de atuação em direção criativa e audiovisual, o Medulla retorna à música com uma proposta que amplia as fronteiras do duo formado pelos irmãos gêmeos Keops e Raony. Em No Dia Que Tudo Mudou, resultado de dois anos de trabalho em estúdio, a dupla transforma experiências acumuladas ao longo da trajetória em um álbum marcado pela experimentação, pela brasilidade e pelo diálogo com linguagens contemporâneas.
O novo trabalho também representa uma mudança na maneira como o Medulla se relaciona com sua própria criação. Beatbox, vozes, instrumentos, referências de jazz e R&B e uma concepção visual que acompanha a narrativa das músicas fazem parte de um projeto que não se limita às oito faixas. As experiências de audição realizadas em uma lavanderia, um escritório e uma casa transformada cenograficamente reforçam a intenção de aproximar novamente a banda do público de maneira presencial.
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Ao Correio Braziliense, Keops e Raony falam sobre o processo de construção do álbum, a participação de nomes como Los Brasileros, Marcelinho Ferraz e Daniel Pampuri, a influência de Recife e do Rio de Janeiro na sonoridade e o desejo de incorporar cada vez mais linguagens ao Medulla.
Entre música, imagem e experiências, a dupla apresenta um trabalho que olha para a própria história sem deixar de experimentar novos caminhos.
O Medulla sempre transitou por diferentes linguagens.
A gente ficou dois anos em estúdio, experimentando, e foi a primeira vez que pudemos descartar ideias. Nesse álbum, muitas ideias vieram a partir da boca e do corpo.
O álbum foi produzido ao longo de dois anos.
Primeiro, a gente montou o arquétipo de cada música. Quando gravamos os instrumentos, já tínhamos muita noção de como ia ficar. Então, quando entramos na fase de gravar as vozes, aí sim já dava para ter uma data ou um plano para lançar.
Como foi dividir a produção com Los Brasileros e encontrar uma sonoridade capaz de conectar as composições antigas ao artista que vocês são hoje?
Incrível!
A brasilidade aparece no disco sem necessariamente seguir uma fórmula tradicional.
Nós somos de Recife e passamos a adolescência no Rio. Então, sempre bebemos dessa música moderna que vem desses lugares, e esses artistas criaram a linguagem do que é o Brasil futurista. Isso sempre esteve dentro da gente, mas sempre sem ser caricato. A gente é de uma geração impactada pelos artistas dos anos 90: O Rappa, Chico Science, Carlinhos Brown, Marisa Monte.
O trabalho também dialoga com a cena contemporânea de jazz e R&B.
Em tempos de músicas de IA e de um boom de músicas que são loops, é muito bom ter uma experiência jazzy. A gente entendeu o jazz nesse álbum como um espírito, no geral, esse ambiente que foge do loop e prioriza a autenticidade do sentimento e da experimentação.
Nós fomos ao show do Yousef Dayes no Blue Note, em São Paulo, e deu muita vontade de pisar mais fundo e viver isso ainda mais intenso no palco.
Marcelinho Ferraz e Daniel Pampuri, vencedores do Grammy, assinam a mixagem.
Trabalhar com esses caras é a maior preciosidade desse álbum, porque eles são ourives, e eu não consigo descrever ou explicar como eles fazem a mágica que fazem. Eles estavam juntos em Los Angeles no dia em que receberam as tracks de bateria que a gente tinha gravado no estúdio com o pai do Marcelo, o Santiago Ferraz.
Era tarde da noite e o Marcelinho me liga de vídeo.
Os vídeos foram gravados em apenas dois dias e transformam pequenas cenas urbanas em poesia visual.
Nós montamos um storyboard com cenas que contassem a narrativa de um único personagem em conversa com ele mesmo. A ideia é o encontro do consciente com o subconsciente, nesse diálogo que precede ou que percebe a mudança.
Dividimos em cenas que são mais atribuídas às sensações da narrativa, e não necessariamente relacionadas à letra da música.
Vocês também assinam a direção criativa dos visuais.
Nós começamos esse processo a partir do Medulla, lá no início, quando já pensávamos em estratégia criativa para além da música.
As audições do álbum aconteceram em lugares pouco convencionais, como uma lavanderia, um escritório e uma casa transformada cenograficamente.
A relação com a nossa comunidade sempre foi muito importante para a gente. A ideia era trazer a visão de design de experiência, proporcionar um reencontro massa com a nossa comunidade e poder ouvir offline o álbum antes de ir para as plataformas. A lavanderia, a cenografia e a corrida faziam parte da ideia de encontrar em horários e ambientes cotidianos, porque é muito a atmosfera do álbum: ouvir para correr, para inspirar, para meditar, porque é imersivo, é um pouco trilha sonora do dia a dia.
Foram encontros em que a gente podia olhar olho no olho, também trocar ideia, se conectar de verdade com as pessoas. Foi bem exclusivo, com poucos ingressos que se esgotaram rápido. Então, também era quem queria muito estar ali.
O conceito de encontro aparece tanto nas participações musicais quanto nessas experiências presenciais.
Eu gosto dessa visão. Acho que a vida é feita desses encontros e de como nós atravessamos a vida um do outro. Acho que isso está de maneira intrínseca no trabalho.
Depois do lançamento e dos shows de 2026, existe algum território artístico que vocês ainda querem explorar seja na música, no audiovisual ou em outras linguagens?
Cada vez mais vamos expondo esses braços criativos nas plataformas do Medulla: a direção criativa, o design de experiência, o teatro, a direção de arte.
Confira: