
Crítica // Dentro da baleia ★★★★
Uma jornada de crise interior, elevada ao cubo do interior: assim pode ser descrito o drama do jovem Jay (Austin Abrams, de filmes como A hora do mal e Resident evil), que, no título autoexplicativo, se vê preso dentro de (uma) baleia. Que se trate de um cachalote, na verdade, pouco importa — baseado em livro de Daniel Kraus, o filme examina os traumas decorrentes inerentes ao mergulhador Jay, cria de um pai de criação pra lá de rígida (o tosco personagem Mitt, feito por Josh Brolin).
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Um dos produtores do inventivo O urso do pó branco (2023), o diretor Brian Duffield registra, com o novo filme, um título sobre isolamento, a exemplo do que fez em Ninguém vai te salvar (2023). Mais do que consciente dos conceitos por trás de predadores e presas, Jay se verá "trancado por dentro" ao tentar preencher o caixão de madeira vazio, diante da morte em alto-mar do pai.
Um dos produtores de A forma da água (2017), Daniel Kraus apresenta uma trama em que, mortificado, Jay se vê preso a delírios, a testes de seus "pulmões fracos", ao estouro de seus tímpanos, e a outros detalhes de uma jornada infernal, em que se verá pequenino frente à dimensão sobrenatural da natureza, em que "sobreviventes sobrevivem", como ressalta o tirânico pai (presente em flashbacks, com ensinamentos persistentes).
No limiar da vida, Jay sobrevive entre fendas (dentro da baleia), esbaldado em agonia, numa realidade claustrofóbica que em muito lembra o drama 127 horas estrelado por James Franco. Depois do impedimento de interação saudável com o pai vem a falta de relação com a baleia, um abrigo de ampla supremacia em relação ao ínfimo humano, que se rende a barulhos assemelhado aos de um asno e convive com gases, gosmas, ferimentos, respiração controlada e ar limitado a 40 minutos.
Junto ao enervante convívio com os tentáculos de um polvo, Jay se rende a exaustivos abstrações quase lunáticas (em que ressonam os desafios sentidos em O quarto de Jack, filme de 2015). Alguns exageros cênicos — como a dependência da água viva, com quê da estrelinha Luma do longa Super Mario — quase botam o filme a perder; mas impossível não agir com empatia e quase simbiose, diante da desestabilizada "realidade" de Jay.
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Revista do Correio