Crítica // Cara-de-Barro ★★
Sem muito carisma, mas com plausível tom de desespero, Tom Rhys Harries interpreta o vilão do título do Universo da DC, com uma ambígua chave de sofrimento. Sob efeitos, que, ao fim, resvalam para a lembrança de Homem-Aranha 3 (com o vilão Sandman, de 2007), e a falta de acabamento dos primeiros exemplares da franquia Quarteto Fantástico, Cara-de-Barro investe na figura central de Matt Hagen. Sob roteiro de Hossein Amini (Boneco de Neve, Drive e Branca de Neve e o Caçador) e Mike Flanagan (de Doutor Sono), Matt é um ator que desponta para o estrelato, mas que começa a perder tudo, diante da modificação abrupta de sua aparência. Decadente e tido como uma aberração, Matt sofrerá o castigo de embarcar na adúltera aventura com a aspirante a atriz Mia Torrez (a bela portuguesa Joana Ribeiro), pretendente do chefão do crime Markus Szabo (David Dencik).
Com produção de Peter Safran e James Gunn, o filme — que mescla características das versões dos anos 1960 e 1940 do protagonista — tem direção do inglês James Watkins (de A mulher de preto, de 2012). O design de produção é de James Price (dos exagerados visuais de Pobres criaturas e Bugônia), que novamente perde a mão. Cara-de-Barro a dado momento lembra O homem sem sombra (baseado em livro de H.G. Wells), quando desponta a personagem cientista de Naomi Ackie (de I e Mickey 17), Caitlyn Corr, vista como latente solução para o recortado rosto de Matt, e ainda, como um interesse romântico dele.
Namorada do agente de polícia de Gotham City John Borrelli (Max Minghella), Caitlyn traz a carga de empatia, além de recursos de Inteligência Artificial e de nanomoléculas, que recupera o aturdido Matt. Cara-de-Barro, vale o alerta, tem cenas fortes de rosto derretido e de automutilação, junto com imagens perturbadoras, como a do avião em turbulência que difculta o manejo de uma tesoura perto do olho do protagonista.
Grotesco e inquietante, como nas cenas das mutações inexplicáveis sofridas por Matt, durante uma noite de sono, Cara-de-Barro se esbalda num clima soturno, aos moldes do novo clássico A substância. A capacidade de regeneração de Matt avança para uso de recursos ridículos como quando ele passa a contar com escamas cortantes nos braços. Também é vergonhosa a corrente de confusões empilhadas numa pista de dança de boate. No filme que trata indiretamente de codependência (há, inclusive, uma fusão de seres em cena), evidenciado ainda pelo uso de If you leave me now, na trilha sonora, o que bastante convence é o comportamento advindo em camadas e atropelos de Matt ao lado da "brutalmente sincera" Caitlyn. A premissa saborosa do ator que, na vida real, não consegue se expressar, se esvai pelo ralo, diante de alguns efeitos canhestros e por bizarras decisões na conclusão de algumas das sequências de ação.
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