Especial

Barro e tempo: a cerâmica como pausa para a rotina

Da terra ao forno, ceramistas de Brasília revelam como a criação manual virou antídoto contra a pressa e a rotina digital

 29/09/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF -   Trabalho de ceramista em Brasília. Felipe Laraia. -  (crédito:  Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
29/09/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF - Trabalho de ceramista em Brasília. Felipe Laraia. - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Em uma época dominada por telas, velocidade e produção industrial em massa, o ato de sujar as mãos na argila tem se tornado um refúgio cada vez mais procurado. Longe de ser apenas um passatempo casual, a cerâmica autoral vive um momento de forte valorização. Isso, sobretudo, pensando na importância do trabalho manual e da busca por uma forma de reinventar a própria vida nessa pressa contemporânea. Entre desafios e encantos, transformar o barro em arte é mais do que um ofício: é também sobreviver.

Para muitos profissionais, a cerâmica não foi a primeira escolha de carreira, mas surgiu como uma busca por liberdade criativa e respiro diante de mercados corporativos engessados. É o caso do designer Felipe Laraia, 40 anos, fundador da marca Seu Barromeu (@seubarromeu). Formado em design de interiores, ele trabalhava com mobiliário corporativo, mas sentia que sua capacidade criativa era limitada pelas diretrizes empresariais.

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Mais do que isso, queria a chance de desenvolver as próprias ideias sozinho. "Eu sou designer de formação, aí eu trabalhava com mobiliário, mas fiquei insatisfeito com o mercado, e eu não tinha tanta autonomia de exercer a minha criatividade dentro da profissão, porque era muito fechado no que a empresa queria", conta Felipe.

Em 2014, ele fez um curso básico no Museu Vivo da Memória Candanga e enxergou ali a oportunidade de aplicar o design de forma autoral, para entrar de uma vez por todas nesse universo. A transição definitiva, contudo, demandou planejamento, paciência e persistência. Em 2018, tomou a tão aguardada decisão, passando um ano inteiro estudando e testando técnicas por conta própria até lançar suas peças comercialmente. O início, certamente, foi difícil, especialmente pensando nos custos que demandam os materiais. Mesmo assim, não se arrepende.

"A cerâmica tem um custo elevado de equipamentos, por exemplo, para queima. Mas, de ferramentas, você não precisa de muita coisa. Às vezes, só a mão, você já é sua maior ferramenta de trabalho. Eu não trabalho com aquele torno de oleiro do filme Ghost. O meu trabalho é manual. O meu maior investimento mesmo foi o forno. Na época, já tinha muita gente fazendo cerâmica em Brasília, mas não tinha o boom que tem hoje, então não tinha tantos fornos acessíveis", explica Felipe Laraia.

O resultado do investimento veio logo na primeira feira, em 2019, quando vendeu 80% do seu acervo nas duas primeiras horas. Hoje, Felipe trabalha focado em utilitários de mesa, como copos, xícaras e pratos, e desenvolve suas próprias fórmulas de porcelana e esmaltes. Morando na Asa Norte, o ateliê para os projetos fica em um refúgio ao redor da natureza, no Lago Oeste. 

A união dos elementos

Caminho semelhante trilhou Henrique Ervilha Filippelli, 45, fundador do Ateliê Soma Cerâmica (@somaceramica), localizado na 216 Norte. O encontro com a cerâmica aconteceu por acaso, enquanto procurava um espaço de modelo vivo para exercitar o desenho. "Entrei na cerâmica quando estava procurando um modelo vivo para praticar. Acabei encontrando, por acaso, o ateliê do Paulo de Paula, que, hoje, é um grande amigo e foi quem me apresentou às possibilidades da cerâmica. Até então, não sabia que a escultura, que era um universo que eu já conhecia, poderia ser queimada e se transformar em uma peça de cerâmica", relembra Henrique.

Henrique Ervilha é fundador do Ateliê Soma Cerâmica
Henrique Filipelli é fundador do Ateliê Soma Cerâmica (foto: Arquivo pessoal)

Contudo, dominar a cerâmica exige respeitar rigorosamente a natureza e a física dos materiais. O ofício depende do equilíbrio harmônico entre quatro elementos primordiais: terra, água, ar e fogo, em um processo rigoroso que não aceita atropelos. A terra fornece a matéria-prima base por meio de massas tratadas e enriquecidas para adquirir resistência, cores específicas e suporte às altas temperaturas. O fogo entra como elemento que consolida a transformação, pois sem a queima planejada e controlada pelo ceramista, a argila jamais se converte em cerâmica.

Essa dependência dos processos químicos e físicos impõe um ritmo próprio de trabalho e exige paciência. Henrique detalha que o percurso da massa crua à peça finalizada envolve preparação, modelagem, acabamento, secagem, primeira queima em biscoito, esmaltação e segunda queima, exigindo, em média, um prazo de 30 dias para a entrega confortavelmente realizada. 

"O que eu tento passar para as pessoas que estão no ateliê é que a relação com o tempo e com a paciência nasce do quanto você gosta do que está fazendo. Se você gosta, entrega-se e não fica esperando apenas pelo resultado final, passa a se concentrar no processo: naquele momento, naquela atividade, naquela ação. A partir daí, você perde um pouco a dimensão do tempo e deixa de precisar ter paciência", avalia Henrique Filippelli.

Para o ceramista, o trabalho manual é um atrativo justamente pelo fato de se estar em uma época tão voltada para a produção em massa e digital. "Quando estamos com as mãos sujas de massa, fica inviável mexer no computador ou tocar no celular. O próprio contato com a massa faz com que a gente se concentre na atividade e se desligue do mundo", completa Henrique.

Antídoto ao digital 

Para a ceramista e professora Sara Adrian Costa (@sari.a09), 27 anos, o trabalho manual sempre esteve no centro de sua trajetória. Ela cursou design gráfico em busca de uma profissão rentável para o seu sonho de criança de viver da arte, mas percebeu que o fazer com as mãos era insubstituível. Há um ano, além de produzir, ela também passou a dar aula em diversos espaços.

"Hoje em dia, minha rotina de ateliê é bem mais curta e inconstante. Eu me tornei professora de cerâmica há um ano, e dividir a atenção entre as aulas e a produção não é fácil; ambas as atividades consomem muito tempo. Normalmente separo pelo menos três a cinco turnos de trabalho na semana para me dedicar às tarefas no ateliê. A produção da cerâmica já é um processo lento por si só, mas, por conta das aulas, minha produção é ainda mais lenta", conta.

Sara acredita que esse universo é um antídoto digital
Sara acredita que esse universo é um antídoto digital (foto: Pedro de Carvalho)

Uma peça de pequena a média complexidade costuma demorar em torno de um a dois meses para ficar pronta, relata Sara, que tem como nome artístico no meio o alter ego Sari. E, mesmo com o tempo corrido, a presença e o contato com os alunos é sempre engrandecedor. Nas aulas, ela percebe que a maioria que chega ao ateliê está buscando respiro e alívio para a saúde emocional. 

"Cada vez mais, recebo alunos que entram na cerâmica por indicação de seus psicólogos e que encontram nela um modo de acalmar a mente, de se reconectar, de pertencer, e de curar aquilo que dói na existência moderna: o esvaziamento de significado de tudo que uma vez já foi físico e material — e hoje não é mais. Nesse momento industrial, em que tudo é copiável e replicável infinitamente, o fazer à mão surge como a única maneira de garantir uma verdadeira autenticidade", afirma a artista.

Na visão de Sara, graças a todas essas questões, a cerâmica manual e autoral nunca esteve tão em alta. Porém, para ela, o mercado de arte brasileiro ainda tem certas limitações e lacunas que dificultam manter essa ocupação como única e principal fonte de renda. "O fazer manual leva tempo e raramente é possível embutir todas horas de trabalho no preço final da peça, por conta da seletividade do público que pode e quer pagar pelo valor real dessas peças, e a eventual dificuldade de conectar esse público com os artistas", complementa.

Espaços de respiro criativo

Diante da procura por trabalhos manuais, que ajudem a trazer reconexão mental, o espaço Menta (@respiromenta), inaugurado em 2025, traz tendência que une o melhor de vários mundos. Com uma proposta artística e criativa, o ambiente, que fica no Lago Sul, promove um conjunto de vivências que vão da cerâmica à gastronomia. De acordo com a fundadora Juliana Jibran, o projeto nasceu justamente da necessidade de oferecer um refúgio diante de rotinas cada vez mais aceleradas, funcionando não apenas como uma escola técnica tradicional, mas como um ponto de encontros e convivência intergeracional.

"Queríamos criar um lugar acolhedor e acessível para todos: crianças, jovens, adultos e idosos, em que não fosse preciso 'saber fazer' ou ter qualquer experiência anterior. Um local para simplesmente chegar, experimentar, colocar a mão na massa e descobrir o prazer de criar, seja modelando uma peça de cerâmica, pintando, cozinhando, seja participando de outras atividades. A Menta nasceu dessa necessidade que sentimos hoje de ter um respiro no meio de uma rotina tão acelerada, em todas as fases da vida", ressalta Juliana.

A Menta é um espaço para encontros e descobertas criativas
A Menta é um espaço para encontros e descobertas criativas (foto: Arquivo pessoal)

O movimento no espaço reflete como o manuseio da argila tem servido como um antídoto direto ao excesso de telas e ao esgotamento provocado pelo cotidiano digital. Ao lidar com a massa, o ar e os pincéis, os praticantes são convidados a diminuir o ritmo e a concentrar a atenção, exclusivamente, no momento presente. "Temos aulas regulares de cerâmica, tanto de modelagem manual quanto de torno, além de experiências pontuais e workshops. Nas aulas, o aluno acompanha todo o processo de criação de uma peça, desde o contato com a argila e a modelagem até os acabamentos e a queima", completa. 

Além disso, a Menta oferece a possibilidade de pintar as peças de cerâmica, uma etapa que permite explorar ainda mais a criatividade e personalizar cada trabalho com cores, formas e diferentes combinações. O espaço reúne desde pessoas que buscam momentos individuais de pausa e autoconhecimento até mães e filhas, amigos, casais e idosos em busca de rotinas ativas, criando um canal de troca e conexão entre diferentes gerações por meio da arte.

Para conhecer 

Escola de Cerâmica Torno Cerâmico: situada na CLSW 103, é especializada no ensino e na prática do torno elétrico para iniciantes e avançados.

Escola de Escultura Paulo de Paula: localizada na Asa Norte, um dos espaços mais tradicionais da cidade para estudo de escultura em argila e modelagem natural.

Atelier Terra Bela: espaço focado no ensino de técnicas manuais (como placas e rolinhos) e torno elétrico, com acervo e foco na produção autoral.

Centro de Artes de Brasília: oferece turmas de cerâmica com foco em técnicas de acabamento, queima, modelagem e torno.

  •  29/09/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF -   Trabalho de ceramista em Brasília. Felipe Laraia.
    29/09/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF - Trabalho de ceramista em Brasília. Felipe Laraia. Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  •  29/09/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF -   Trabalho de ceramista em Brasília. Felipe Laraia.
    29/09/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF - Trabalho de ceramista em Brasília. Felipe Laraia. Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  •  29/09/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF -   Trabalho de ceramista em Brasília. Felipe Laraia.
    29/09/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF - Trabalho de ceramista em Brasília. Felipe Laraia. Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  • Henrique Filipelli é fundador do Ateliê Soma Cerâmica
    Henrique Filipelli é fundador do Ateliê Soma Cerâmica Foto: Arquivo pessoal
  • O Soma Cerâmica fica localizado na Asa Norte
    O Soma Cerâmica fica localizado na Asa Norte Foto: Arquivo pessoal
  • O espaço conta com uma enorme diversidade de peças
    O espaço conta com uma enorme diversidade de peças Foto: Fotos: Arquivo pessoal
  • Sara acredita que esse universo é um antídoto digital
    Sara acredita que esse universo é um antídoto digital Foto: Pedro de Carvalho
  • A Menta é um espaço para encontros e descobertas criativas
    A Menta é um espaço para encontros e descobertas criativas Foto: Arquivo pessoal
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postado em 04/10/2026 06:00
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