Cinema

Dor sonora: confira papo com Giulia Be e Any Gabrielly de 'Dez vantagens'

Amizade, luto, sororidade e redescoberta pelo gosto de viver estão em evidência na trama do novo filme de Diego Freitas, que vem de adaptação de obra de Fernanda de Castro Lima

Tratar o espectador jovem com responsabilidade e respeito são algumas das metas do cineasta Diego Freitas, à frente do recém-lançado As dez vantagens de morrer depois de você,  animado pelo desejo de não subestimar a lida com temas difíceis. "Falar sobre luto é muito importante porque é algo inerente da nossa vida, da nossa experiência na Terra — a gente vai passar por isso ou já passou. O luto não escolhe a idade ou classe social. É um assunto a ser tratado. O cuidado foi da proposição de conversa realista com os jovens, realmente entender os seus sentimentos, o que passa na cabeça deles, e assim conseguir fazer uma ponte com o filme", comenta o diretor, em entrevista ao Correio. Apostar na exploração de um tema que encampa saúde mental, "mas de maneira leve", sem optar por maniqueísmo brotou com naturalidade. Música e um espírito de narrativa lúdica lideram os atrativos do filme presente em circuito robusto: são 828 salas de cinemas localizadas em 336 cidades. Tudo versa sobre a grande perda vivida pela protagonista, e também muito é modificado pela chegada de uma nova amiga para ela, num papel encarado pela atriz brasiliense Pâmela Germano.

Feito a partir de livro de Fernanda de Castro Lima, o filme veio com promessa de total autonomia, na adaptação. "Fiquei muito feliz com a brecha de colocar um pouquinho da minha história, das coisas que eu vivi quando eu perdi um melhor amigo na minha infância, na personagem Gabi (papel de Any Gabrielly). A gente também mudou o perfil de alguns personagens, juntamos outros, mudamos a sexualidade. Acho que o filme ficou moderno", explica o cineasta. A atriz Giulia Be, no papel de Júlia, surrupiada da trama de modo abrupto, contribui para o sentimento de vazio que toma conta da rotina de Gabi.

Em cena, Any Gabrielly surpreendeu o diretor, declarado fã de músicas e de trilhas sonoras. "Any é uma atriz muito instintiva e também muito técnica. Ela, que é apaixonante, tem uma história muito forte com teatro, com a dança, com a música, ela é uma pop star. Então, ela tem um controle muito forte e absoluto dos movimentos do seu corpo. Fora isso, ela se mostrou muito vulnerável nas cenas, se deixou atravessar pela história da Gabi, uma guerreira", conta Diego Freitas. "O público que consome minha música está testemunhando uma jornada minha que está bem no começo. Ainda tem muito espaço para se transformar, mas já vejo que tem muita gente parecida comigo", conta Any em entrevista ao Correio.

Um norte nas telas também tem sido desvendado, uma vez que "quantidade ínfima" de filmes moldou, ou melhor, influenciou a juventude de Any. "Confesso que as séries tomaram quase todo o espaço. Gossip Girl e Glee são as que mais se destacam das memórias. Além disso, tem as sagas americanas como Divergente, Harry Potter e Jogos Vorazes que me fisgaram também. De certo modo, até me enxergava em alguns", conta a atriz, que agora aderiu com mais firmeza perspectivas nacionais. 

Any Gabrielly crê ter havido uma massificação de imaginário internacional na juventude, e isso "há muito tempo". "Existe essa carência dentro do mercado brasileiro: não nos comunicamos com certos nichos tão bem, sendo a juventude um deles. Mas, ao mesmo tempo, sinto que começou uma certa mudança. A retomada gradual do orgulho de ser brasileiro nos fez querer produzir de nós e para nós! Dar o nosso próprio ponto de vista para nós mesmos, e para o mundo", celebra. Any e o filme não vêm só: recentemente, o nacional Minha melhor amiga, sobre a amizade entre duas adultas, alcançou resultado de fôlego: é a segunda produção nacional mais vista desde a reabertura dos cinemas, pós-pandemia. Com quase 6 milhões de público, aquele filme nacional superou a bilheteria do fenômeno Ainda estou aqui, por exemplo. 

Num percurso acidentado, a personagem Gabi se encontra com a música, algo fundamental ao filme. "Sou apaixonado por música, já fiz muitos videoclipes no começo da minha carreira e sempre me encanta a ideia de ter uma cantora-atriz — isso eu descobri lá em Depois do universo, filme que fiz com a Giulia Be (outra estrela do novo filme). "Com a Any Gabrielly e a Giulia Be, eu consegui realizar um sonho, ter duas mulheres tão fantásticas e talentosas cantando, e colocando a voz para fora", conclui Diego.

Entrevista // Giulia Be, atriz

Você teve alguma perda pessoal que tenha sido reelaborada a partir do processo de realização do filme?

Quando eu era mais nova, tive um tumor raríssimo. Foi o primeiro caso registrado no Brasil e, na época, existiam apenas 30 casos conhecidos no mundo. Antes de descobrirem exatamente o que eu tinha, os médicos chegaram a dizer aos meus pais e à minha família que eu provavelmente não sobreviveria. Minha avó Carmen era muito religiosa e, quando soube do diagnóstico, começou uma novena. Ela rezava ajoelhada ao meu lado e repetia 'Deus, me leva, mas não leva a minha netinha'.

Então, teve muita vivência de você no filme As dez vantagens de morrer depois de você?

Olha, felizmente, conseguiram descobrir o que eu tinha e eu me recuperei. Mas, enquanto aguardava minha cirurgia, minha avó adoeceu e acabou falecendo na noite de Natal. Sempre tive uma conexão muito forte com ela e, de alguma forma, sinto que ela continua comigo. Tenho certeza de que é meu anjo da guarda. Fazer esse filme me fez voltar a essa história e pensar em como algumas experiências nos acompanham e nos transformam para sempre. A perda da minha avó é algo que carrego comigo, mas também aprendi a olhar para essa experiência de outra maneira, com muito amor e gratidão por tudo o que ela representou na minha vida.

Em que você se viu transformada com estas experiências?

Acho que perder alguém, uma fase da vida ou até uma versão de nós mesmos muda a forma como enxergamos o mundo. A dor não deixa simplesmente de existir, mas, com o tempo, conseguimos encontrar novos sentidos para ela. Não acredito que exista uma fórmula para fazer com que uma história toque todo mundo da mesma maneira. Mas acho que a arte tem justamente essa capacidade de nos fazer sentir algo por meio da experiência de outra pessoa. Às vezes, uma cena, um gesto ou uma emoção nos faz lembrar de algo que vivemos e que, talvez, nunca tenhamos conseguido colocar em palavras.

O filme fala de sororidade. Como acredita que a juventude a exerça ou contribua para essa corrente?

Acredito que a sororidade começa quando entendemos que não precisamos enxergar outras mulheres como concorrentes. Durante muito tempo, fomos ensinadas a nos comparar, a disputar espaço e até a acreditar que o sucesso de uma mulher poderia significar menos espaço para outra. Acho que os mais jovens têm um papel muito importante em desconstruir essa ideia, principalmente porque hoje existe uma geração mais aberta a conversar sobre esses assuntos. Na minha vida, tenho a sorte de estar cercada por muitas mulheres incríveis. Minha mãe, Adriana, minhas amigas, que são uma rede de apoio fundamental para mim.

Como vê dividendos que acompanharam a feitura do filme?

Any Gabrielly, por exemplo, com quem tive a oportunidade de dividir não só a experiência de fazer esse filme, mas me rendeu também a construção de uma amizade muito bonita. Ela foi minha madrinha de casamento e passou o próprio aniversário ao meu lado, celebrando um dos dias mais importantes da minha vida. Acho que isso diz muito sobre nossa amizade e sobre como enxergamos as conquistas uma da outra. É muito bom poder celebrar as conquistas de outras mulheres, torcer por elas e saber que elas também estão torcendo por vowcê. Não acho que meninas sejam naturalmente competitivas ou solidárias, isso também é construído pelo ambiente em que crescemos. Mas acredito que, quando entendemos que podemos crescer juntas, em vez de disputar quem chega primeiro, todo mundo ganha.

 

Mais Lidas

Amanda Aguiar/ Divulgação - A atriz Pâmela Germano e o ator Paulo Mendes: dramas da adolescência
Amanda Aguiar/ Divulgação - A atriz Any Gabrielly em cena no filme de Diegos Freitas: a experiência do luto