Situações muito limítrofes e desafiadoras embalam os temas administrados pelo diretor brasiliense Cristiano Vieira, que conduziu Eu sinto muito e A cisterna. O primeiro examina a falta de harmonia na vida de pessoas cujas ações impulsivas estão caracterizadas dentro do transtorno de borderline; já A cisterna (com Fernanda Vasconcellos) é um suspense que envolve uma jornalista apartada da sociedade e colocada em isolamento involuntário, ao ficar, no meio do nada, sequestrada.
No novo filme de Cristiano Vieira, filmado em Brasília, Letícia, que chega aos cinemas de 19 cidades, o cineasta aborda o que está além da compreensão convencional. Apesar de o título remeter a nome inspirado pela representação de felicidade, alegria e elementos positivos, o enredo vai por outra via. Letícia é o nome da personagem de Sophia Abrahão que tem que confrontar confusos traços de personalidade. Ao se relacionar com Gustavo (Bernardo Felinto), Letícia enredará não apenas o namorado, mas amigos dele, como Pietro (Sérgio Harger) e Flora (Letícia Tomazella) numa trama talhada em impasses e nas consequências de emaranhado de mentiras.
Entrevista // Cristiano Vieira, diretor
Como crê ter enaltecido a fotogenia de Brasília?
Como brasiliense, meu objetivo nem é enaltecer a cidade no aspecto estético, com arquitetura e céu exuberante já bastante publicitado, mas sim contar histórias de personagens que moram aqui e que enfrentam problemas para além da Esplanada dos Ministérios.
Tratar com roteiro e ficção te torna um mitômano até que ponto?
Acho que todo fazer artístico tem um pouco de mitomania. Buscamos inspiração na vida ou nas histórias reais para, a partir daí, construir um produto artístico muitas vezes embalado com a arrogância do ‘original’. O argumento é até inspirado em uma história real, mas o roteiro de Letícia pede muitas licenças para ficar mais interessante, tal qual um mitômano.
Como foi a questão das filmagens e da pandemia? Como desenvolveu as filmagens em meio à tanta tensão?
Eu já vinha de uma experiência de filmar com os protocolos da Covid-19, então, meio que já estava acostumado. Filmamos o Letícia em março de 2022 e no meio das filmagens caiu a obrigatoriedade do uso de máscaras. Lembro que foi um alívio, porque além das máscaras ainda tinham os testes. Como o filme era de baixo orçamento, incluí o contexto pandêmico no roteiro e isso ajudou nas filmagens externas quando a câmera atirava para a rua e, no fundo, poderia alguém aparecer de máscara. Para algumas cenas os próprios personagens usavam máscaras, mas a tensão era constante pelo temor de algum ator ou membro da equipe pegar a covid e sermos obrigados a pausar.
Qual seria um desfecho possível para a trajetória de Letícia, que lida com questão tão particular?
Na minha opinião, para todo mitômano ou pessoa com algum transtorno de personalidade, a saída menos traumática é o autoconhecimento e a aceitação do diagnóstico.
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