
Por Orlando Pontes—"ÔÔÔÔ, v..."! É com este brado que o Monge, com voz de locutor, dá a senha para a abertura dos trabalhos. O ecoar do inusitado cumprimento — eventualmente substituído por um "ÔÔÔÔ, Bebê Reborn" — é a senha para o Barbeiro encostar no balcão e mandar o Serjão descer a primeira gelada do dia.
Isto quando o Flamengo não joga. Se o "Mais Querido" for entrar em campo, Serjão já engatou a segunda antes mesmo de abrir as portas do estabelecimento.
Flamenguista doente (uma redundância!), Serjão, o proprietário do Bar dos Amigos, adotou o churrasco comunitário em dias de jogos de seu time. Ele compra a carne e entrega aos frequentadores os cuidados com os temperos e o preparo da comida. Nesses dias, toma a primeira antes de todo mundo e só para depois da última saideira do último cliente.
Sempre atrasado, Paquito chega pedindo o "traçado" de conhaque com Paratudo. Antes de se sentar à sua mesa para se atualizar pelo celular das fofocas da internet, dá o abraço no mascarado Barbeiro (desde a pandemia da covid-19, ele não dispensa o equipamento, que só levanta no momento de sorver a cerveja). Isto em dias úteis. Nos fins de semana e feriados, ele dispensa o cuidado, sob a justificativa de que nesses dias o vírus está de folga.
A nova geração de frequentadores rebatizou o lugar de Bar dos Velhos. Naquele ambiente familiar, os jovens
aprendem, também, a fazer a fezinha no jogo do bicho. O apontador monta ali a sua banca, onde qualquer um pode receber uma aula da diferença entre apostar na dezena, no grupo ou na cabeça, entre outras modalidades previstas no regulamento da contravenção originária do Rio de Janeiro.
A galera tá ligada de que o melhor cardápio da casa é o delivery. Quando a fome aperta, é só ligar para o garçom da Destilaria e pedir os bolinhos fritos, ou para o Bar das Meninas, que assa espetinhos para todos os gostos — queijos, carnes de gado, suínas ou de frango. Serjão dá de ombros: "O importante é beberem a nossa cerveja", desdenha, sem arredar um milímetro do sistema self-service de cerveja: o cliente vai enfileirando as garrafas no pé da parede. Ao final, é feita a contagem para encerrar a conta. "Comanda é para os fracos", completa Serjão.
Pouco aconselhável é usar o banheiro masculino. Embora não seja dos piores das redondezas, está longe de ter o mesmo capricho do toalhete feminino, mantido literalmente fechado a sete chaves. Serjão só libera para as clientes, e se orgulha de jamais ter recebido sequer uma reclamação pelo estado de conservação. "Mulher, aqui, é tratada como rainha", exagera.
Velho, novo, mascarado ou de cara limpa, apreciador dos destilados ou apenas de uma cerva estupidamente gelada, o certo é que a tradição do "pé sujo" está mais viva do que nunca em Taguatinga. E para quem está longe da CSB 7, há opções como o Bar do Roberto, na CSA 2; o Bar do Tatu, na Praça do DI; o Bar dos Pescadores, na QNA 5. Eles não envergonham lembranças de antecessores memoráveis, como os bares do Primo, do Santana, ou as casas mais sofisticadas pilotadas pelo Lourival Menezes e seu irmão Célio.
(*) Orlando Pontes é jornalista
