
Por Laerte Rimoli—Que som é esse? Eu juro que me transportou para a Pedra do Sal, Morro da Conceição, zona portuária do Rio. Hoje, um dos lugares mais gostosos para se ouvir música na Cidade Maravilhosa. Passei pela Birosca do Conic, aquele insosso conjunto de edifícios que compõe o Setor de Diversões Sul, num domingo nublado, por volta das cinco da tarde. Uma farra federal! Lá já tivemos o "Samba da Passarinha", o "Baile do Cabeça de Gelo" e vem aí a "Criolina da Bahia", um grito de carnaval.
Por um preço justo você se esbalda, esquece que é branquelo e dança ao embalo da raça negra. O contraste do concreto com a genuína música que nasceu nos morros cariocas é maravilhoso. Pretos, brancos, gays, jovens, velhos, mulheres, homens. Só não tem espaço para o preconceito. O ambiente é seguro, o som inebriante.
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Mas se seu caso não é samba, ora, Brasília é referência. Acompanhe a programação do Clube do Choro. Todos os gêneros musicais, artistas brasileiros consagrados, gente da cena candanga, ambiente acolhedor. De quarta a sábado tristeza não tem vez no prédio que fica atrás do Centro de Convenções Ulysses Guimarães, ao lado do Planetário, em frente ao estádio Mané Garrincha. Fátima Guedes, Rosa Passos, Martinha do Cocos (do Paranoá), Zé Renato e Renato Jambeiro. Só uma palinha do que já assisti. Vejam o ecletismo desse lugar mágico. Ai de quem insiste em reproduzir a visão canhestra da cidade fria.
Há uma banquinha na 208 Sul, aos sábados, que é puro encantamento. Chorinho do bom, na veia. O mesmo acontece, aos domingos, no Eixão. Especialmente, na altura da 108 Norte. Música em profusão. Mas se você estiver passeando pelo Parque da Cidade, pode ter o prazer de ouvir o Batalá, conjunto de percussão criado pelo maestro Paulo Garcia, formado apenas por mulheres. São mulheres que brilham, também, no Toque de Salto: Sandra Borges (voz e violão), Silvana Moura (voz e percussão), Marise Pinheiro (surdo e voz) e Amanda Costa (voz e percussão). O grupo é conhecido por tocar samba e MPB.
O carnaval está batendo às nossas portas. Mesmo que você não goste da folia, aproveite o momento para ouvir música, o elixir da felicidade. Nossa Brasília é berço de Ney Matogrosso, Renato Russo, Cássia Eller, Zélia Duncan, Ellen Oléria. Bandas como Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude e Raimundos. Arrisque, vá ao Infinu, na 506 Sul. Sabia que tem um teatrinho por lá? Jazz aos pés do Memorial Tancredo Neves, nos fundos da Praça dos Três Poderes. Os ares candangos estimulam a criação. Junte um grupo de amigos, violão e faça o passeio de barco no Lago Paranoá. Ver Brasília nesta perspectiva te encherá de orgulho. Enfim, mova-se, sambe, baile, chore e ria muita nesta cidade sonora, bem brasileira, herdeira legítima da matriz carioca, do tempero nordestino, do jeitinho mineiro de ser.
