
Por Roberto Seabra—Uma cidade que não apenas é a capital de um grande país como é o Brasil, mas também símbolo do modernismo e patrimônio cultural da humanidade necessita ter uma arte que faça justiça a todos esses títulos. Imaginem Nova York sem os teatros da Broadway, Buenos Aires sem suas livrarias ou Paris sem seus museus?
Brasília, ao se aproximar dos 66 anos, já pode se vangloriar de alguns títulos. De berço do renascimento do choro, nos anos 1970, a capital do rock, nos anos 1990, passando por sua vocação ao cinema de arte, ou documental de um Vladimir Carvalho, e desaguando na sua arquitetura única e ainda preservada, apesar das tentativas de "atualizá-la" pelo mau gosto da negligência estética da voracidade imobiliária.
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Ao lado dessa arquitetura que ainda sobrevive está a arte urbana, que em Brasília iniciou-se ainda nos primeiros anos da cidade, portanto, antes do grafite e das performances de rua de outros grande centros, pois aqui foi uma arte de rua também planejada, como de resto quase tudo na cidade.
Começou pelos jardins de Burle Marx (que transformou a paisagem em monumento) e os trabalhos de Alfredo Ceschiatti e Marianne Peretti (que transformaram os monumentos em paisagens). Passou pela criatividade candanga de um Athos Bulcão e, hoje, se esparrama por ruas e viadutos de todo o Distrito Federal pelas mãos de poetas gráficos e as vozes de cantores que declamam a realidade em impressionantes e pacíficas batalhas sonoras, pois a arte urbana não é apenas visual.
Em meio a tudo isso, a capital federal foi ocupada por artistas plásticos que nas últimas décadas povoaram espaços públicos e privados com centenas de esculturas, pinturas e outras formas de manifestações, transformando o Distrito Federal numa das maiores concentrações de arte urbana do mundo. Não estou exagerando. A arte aqui não está restrita aos grandes museus, em geral caros e pouco acessíveis, mas se espraia por ruas, jardins, sedes dos poderes, shopping centers, universidades, praças e centros culturais.
Um exemplo é a arte feita por Darlan Rosa, mineiro radicado em Brasília desde 1967 e que aqui construiu uma carreira múltipla e articulada. Basta dizer que um desenho feito por Darlan, que também é publicitário, ultrapassou os limites da arte e virou símbolo da saúde pública no Brasil e ganhou o mundo. Estamos falando, claro, do Zé Gotinha, que ele criou quando trabalhava no Ministério da Saúde, durante campanha contra a poliomielite encabeçada pelo Unicef. Isso aconteceu em 1986.
Nos anos seguintes Darlan Rosa não deixou mais de desenhar, pintar e esculpir. O resultado é que até janeiro de 2026, quando ele completou 79 anos, o artista plástico já havia contabilizado cerca de 500 obras arte espalhadas por Brasília, pelo Brasil e pelo mundo. Recentemente, uma escultura sua foi inaugurada no Japão, para celebrar os 130 anos da migração japonesa para o Brasil, completada em 2025.
A arte urbana de Brasília deveria ser tombada, como foram seu projeto urbanístico e seu complexo arquitetônico. As futuras gerações nos agradecerão.
