Crônica

Para ler a Divina Comédia

Florença era dividida em dois grandes grupos políticos e quando aquele ao qual Dante fazia oposição chegou ao poder, apoiado por ninguém menos que o Papa, Dante e outros partidários foram acusados de corrupção e expulsos da cidade

cronica ddiv maais -  (crédito: kleber sales)
cronica ddiv maais - (crédito: kleber sales)

Por Beto Seabra—Tempos atrás encarei a tarefa de ler A Divina Comédia, de Dante Alighieri, obra clássica da literatura universal que ainda não havia me fisgado. Tomei a decisão graças ao crítico Otto Maria Carpeaux. Para ele, A Divina Comédia é a única das epopeias clássicas que pode ser lida como se lê uma obra da literatura viva. Ou seja, é possível ler o grande poema de Dante como uma obra do nosso tempo.

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Dante nasceu em Florença em 1265, e morreu em Ravena, em 1321, em um tempo em que a Itália ainda não existia como país. Florença era uma das cidades-estados mais importantes da península itálica e o poeta era uma pessoa influente em seu tempo.

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Florença era dividida em dois grandes grupos políticos e quando aquele ao qual Dante fazia oposição chegou ao poder, apoiado por ninguém menos que o Papa, Dante e outros partidários foram acusados de corrupção e expulsos da cidade. Foi no exílio que ele escreveu sua grande obra, inclusive para se vingar de seus adversários. A Comédia é, também, um grande libelo político, além de lírico, épico e religioso.

Dante é considerado o fundador da língua italiana, pois enquanto todas as grandes obras literárias eram escritas em latim, ele usou a língua vulgar, falada nas ruas de Florença. Para muitos, isso foi o nascimento do italiano moderno.

É preciso dizer, ainda, que ele nutriu a vida inteira uma paixão de infância por Beatriz Portinari, que seria imortalizada em sua Divina Comédia pela Beatrice. Os dois se conheceram quando crianças e se reencontraram anos depois. Aos 20 anos, Dante se casou com Gemma Donati, num casamento arranjado pelas famílias.

Beatriz morreria sete anos depois daquele reencontro, deixando Dante para sempre inconsolável. A musa foi tema de outra obra dele, o grande poema Vita Nuova é totalmente dedicado à mulher amada.

Mas voltemos ao livro de Dante, tema desta crônica. O poema é dividido em três grandes partes: Inferno, Purgatório e Paraíso. Em sua viagem pelo mundo inferior e pelo Purgatório, Dante será guiado pelo poeta Virgílio, autor do grande poema épico Eneida. O verso mais famoso da Comédia, que aparece no Canto III do Inferno, muitos conhecem: "Deixai toda esperança, ó vós que entrais".

Trata-se de trecho da inscrição que aparece no portal do Inferno. Assombrado com o que lê, Dante, ele próprio personagem de sua Divina Comédia, é confortado por Virgílio. E o poema segue com o poeta em busca de sua Beatrice, que o esperaria no Paraíso, destino da obra. A Divina Comédia é uma leitura difícil, mas também esplêndida. Me pergunto por que não somos apresentados à obra mais cedo, no Ensino Médio, por exemplo.

A escritora Ana Maria Machado disse, certa vez, que conhecer os clássicos é um direito das pessoas. Elas não podem ser privadas disso. Afinal, a humanidade criou uma obra literária maravilhosa e é papel da escola e dos meios de comunicação mostrarem isso aos jovens.

Em 2021, durante as comemorações dos 700 anos de Dante, a TV italiana apresentou diariamente, durante todo o mês de março, leituras dramatizadas de trechos de A Divina Comédia.

É melhor conhecer parte de uma obra clássica do que não conhecer nada. Então, que tal aproveitar o fim da folia para começar a ler um clássico da literatura? Fica a dica.

 

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postado em 20/02/2026 06:00
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