
O longa Sabes de mim, agora esqueça, de Denise Vieira, começou a ser idealizado em 2015, após o encontro da diretora com uma profissional do sexo em um bar de Ceilândia. "Ela me ofereceu trabalho, queria alguém para substituí-la num ponto. Uma oferta de trabalho como qualquer outra, que mexeu muito comigo", conta Denise. O corpo das personagens e a relação delas com o espaço do bordel, além da capacidade do público de fantasiar dentro dele, ganharam protagonismo.
A diretora passou a trabalhar, então, com as atrizes Cida Souza (Margô) e Pietra Sousa (Rúbia) a partir da imagem de profissionais do sexo na época da construção de Brasília. Rúbia se transformou em uma delas: com vida eterna, percorre décadas de existência de uma cidade distópica e faz desaparecer os homens que a contrataram. Margô, dona de um cabaré que sobrevive à repressão, aparece como uma figura materna.
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Sabes de mim, agora esqueça é o destaque de hoje na Mostra Competitiva do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, com exibição a partir de 21h. Ao Correio, Denise Vieira fala sobre a construção do longa e como retratar o protagonismo feminino.
ENTREVISTA // Denise Vieira
As atrizes levaram os desejos e experiências pessoais para as personagens. Como isso influenciou o resultado final?
Minha proposta era de que improvisaríamos os diálogos, e para isso, era preciso construir uma relação mais profunda com cada personagem para que esse espírito pudesse estar presente conosco no momento de filmar. Antes de todas as cenas, enquanto a equipe se preparava, tínhamos uma conversa sobre o que iríamos filmar. Nesse momento, lançávamos uma ideia de como começavam os diálogos: quais elementos poderiam surgir, tanto de conteúdo, como de ritmo e de clima. Na maioria das vezes, redesenhávamos conforme o desenrolar da cena.
Como você construiu a relação das personagens com o próprio corpo?
Esse filme sempre foi pensado como um filme de muito tesão, suspense e fantasia. Eu queria muito que as atrizes fantasiassem junto comigo e sentissem tesão ao atuar, ao se expor para a câmera, e que a gente tivesse muito tesão em filmar. Mulher é programada para controlar seu prazer, direcionar ou se moldar a partir do prazer do outro. Nesse filme, quem dita as regras somos nós.
Qual é a sua solução para levar o retrato de corpos e desejos para as telas?
Supreendentemente, eu tenho ouvido de muita gente que há hoje em dia um certo incômodo de algumas pessoas, principalmente mais jovens, em assistir cenas de sexo no cinema. Não sei como analisar esse fenômeno, mas eu sinceramente acho que há uma certa hipocrisia nesse pudor em filmar o sexo assim como se filma qualquer outra cena.
Ao delegar esse registro somente à indústria pornográfica, deixamos de falar sobre essa imagem, como se ela fosse sempre questionável em si. O que eu procurei trabalhar com o elenco foi a maior naturalidade possível. É claro que há uma exposição do corpo, é claro que há questões delicadas. Pensamos todo o desenho da produção para proporcionar a maior tranquilidade possível para o elenco nesse sentido.
Na prática, o que fizemos foi elaborar as cenas de sexo da mesma forma que os diálogos. Eu propunha ao elenco mais ou menos o tom da cena, um mote inicial para cada par. Havia uma conversa prévia e privada entre eles, onde definiam o que iriam propor para nós. Uma vez iniciada a cena, íamos acompanhando e resolvendo na hora. Às vezes cortávamos para intervir, às vezes não. Tudo dependia do que sentíamos pulsar da cena.
*Estagiária sob supervisão de Severino Francisco