Preços

Alta dos alimentos não deve contaminar inflação de 2021, acredita BC

O Banco Central elevou a projeção da inflação de 2020 de 1,9% para 2,1%, mas manteve a de 2021 em 3%

Marina Barbosa
postado em 24/09/2020 13:53
 (crédito: Raphael Ribeiro/BCB)
(crédito: Raphael Ribeiro/BCB)

A recente escalada de preços dos alimentos colocou a inflação brasileira em uma verdadeira montanha-russa em 2020. Porém, não deve contaminar o comportamento do nível geral de preços em 2021. A avaliação é do Banco Central (BC), que reviu as projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) nesta quinta-feira (24/09) por meio do Relatório Trimestral de Inflação (RTI).

O BC elevou de 1,9% para 2,1% a projeção da inflação de 2020, já que, "no curto prazo, a inflação ao consumidor deve se elevar, influenciada pelos movimentos recentes de alta temporária nos preços dos alimentos e pela normalização parcial do preço de alguns serviços em um contexto de recuperação dos índices de mobilidade e do nível de atividade”.

Diretor de Política Econômica do BC, Fábio Kanczuk lembrou que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) chegou a sofrer meses de deflação no início da pandemia de covid-19 e seguia bem comportado devido à desaceleração econômica causada pelo novo coronavírus. Porém, nas últimas semanas, tem sido pressionado pela alta dos alimentos, já que o preço das commodities teve uma "alta importante" nos últimos dois meses.

O arroz, por exemplo, valorizou-se no mercado externo e ainda ficou mais escasso no mercado interno, pois o dólar alto estimulou os produtores nacionais a exportarem mais. Por isso, disparou de preço, pressionando o orçamento das famílias brasileiras. E ainda foram constatadas altas de produtos importantes, como a soja e as carnes.

Por isso, o IPCA, que começou o ano beirando o 0,20% e despencou para -0,35% em abril e maio, acelerou para 0,31% em junho e já bateu 0,45% no início deste mês de setembro. O Comitê de Política Monetária, por exemplo, considera variações de 0,40%, 0,30% e 0,27% em setembro, outubro e novembro, respectivamente.

"O ano de 2020 tem sido uma montanha-russa. Pela velocidade e magnitude da crise que a gente sofreu, teve uma queda muito grande a partir de abril. A projeção para 2020 estava em 3,25% e foi parar em 1,5%. E agora, no último mês, teve uma alta importante de 1,5% para cerca de 2%, parte por pandemia e parte por uma questão das commodities, que também teve uma montanha-russa importante, indiretamente ligada à própria pandemia", comentou Kanczuk.

Porém, o BC também acredita que essa instabilidade é temporária. Por isso, manteve a projeção de uma inflação de 3% para 2021. "Estamos tranquilos. Entendemos que existe uma pressão no ano de 2020, entendemos as razões dos reajustes das estimativas de inflação, mas não entendemos que isso vá contaminar as inflações futuras", declarou o presidente do BC, Roberto Campos Neto.

Campos Neto explicou que o BC também vê com tranquilidade a alta do câmbio, que pressionou a cotação das commodities recentemente. Por isso, acha que "o preço de alimentos sofre, sim, um aumento, mas tende a se estabilizar".

Além disso, lembrou Kanczuk, o nível de ociosidade da economia ainda é grande, o que desincentiva outros repasses de preços. Por isso, com exceção dos alimentos, a inflação continua bem comportada, tanto que as projeções continuam distantes da meta de inflação em 2020 e em 2021. Apesar disso, o diretor garantiu que o BC está "vigilante" a quaisquer riscos de subestimação.

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