Bancos

Inadimplência renova mínima histórica, em meio à pandemia

Influenciada pelo auxílio emergencial e pela prorrogação de parcelas, taxa foi a 3,3% no segmento de recursos livres em agosto, segundo o BC

Marina Barbosa
postado em 28/09/2020 13:31
 (crédito: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)
(crédito: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)

A inadimplência do sistema financeiro nacional caiu ao menor nível da série histórica em agosto deste ano, influenciada pelos programas de renda e renegociação de dívida criados na crise do novo coronavírus. Segundo o Banco Central (BC), a taxa caiu para 2,6% no mercado de crédito como um todo e foi de apenas 3,3% nas operações com recursos livres.

Este é o segundo mês consecutivo em que a taxa de inadimplência renova a sua mínima histórica. Em julho, a inadimplência já havia batido 2,7% no sistema financeiro como um todo e 3,5% nas operações com recursos livres, em que as taxas de juros são definidas livremente pelos bancos. E, em agosto, essas taxas continuaram em queda, renovando as mínimas históricas da série do BC, iniciada em 2011.

Chefe do Departamento de Estatísticas do Banco Central, Fernando Rocha contou que o recuo de agosto foi puxado pela queda da inadimplência nos financiamentos de veículos e também nos empréstimos pessoais não consignados.

Dados apresentados nesta segunda-feira (28/09) pelo BC mostram que a inadimplência das operações de crédito pessoal recuou de 7,2% para 6,7% entre julho e agosto. Já a do financiamento de veículos foi de 4% para 3,7% nesse período.

No crédito às famílias, ainda houve recuo no nível de atraso do cheque especial (de 16,5% para 15,9%) e no rotativo do cartão de crédito (de 39,6% para 39,1%). Por isso, a taxa de inadimplência das famílias brasileiras recuou de 5,1% para 4,8% nas operações com recursos livres.

Já a taxa de inadimplência das empresas brasileiras foi de 1,8% para 1,6% no segmento de recursos livres. Neste caso, a redução é fruto, sobretudo, de menos atrasos no capital de giro (de 2% para 1,6%) e no cheque especial (de 22,8% para 22%).

Renegociações e auxílio emergencial

A queda da inadimplência, em meio à crise do novo coronavírus, é fruto dos programas de renda e renegociação de dívidas implementados pelo governo brasileiro durante a pandemia de covid-19. Segundo Rocha, contribuíram com isso, sobretudo, o auxílio emergencial e o programa de prorrogação de parcelas, que permitiu aos brasileiros empurrar para até seis meses à frente os vencimentos dos empréstimos bancários.

"A prorrogação dos pagamentos contribuiu para evitar a inadimplência na medida em que o cliente e o banco renegociaram as condições de pagamento. Se eu adiei meu pagamento, esses pagamentos não eram devidos e não pagos; então, não são incluídos na inadimplência", explicou Rocha.

Ele acrescentou que, da mesma forma, o auxílio emergencial e outras medidas que "aumentaram os recursos nas mãos das pessoas" são parte disso. "Eventualmente uma parcela vai para o pagamento de serviços financeiros e pode contribuir para evitar a inadimplência", explicou.

Inadimplência represada

Boa parte dos bancos e dos analistas brasileiros, contudo, acredita que pode haver um aumento da inadimplência após o fim desses programas. Economistas explicam que o aumento pode ser sentido, sobretudo, ao término das prorrogações. Afinal, a população brasileira pode ainda não ter condições de pagar as parcelas no fim do ano caso continuem com a renda achatada por conta da crise econômica e do desemprego. Por isso, já há bancos projetando um aumento da taxa de inadimplência no primeiro trimestre de 2021.

Questionado sobre o assunto, Rocha não negou essa possibilidade. "Não fazemos projeções. Metodologicamente falando, a inadimplência é o não pagamento das parcelas do serviço da dívida por mais de 90 dias. A prorrogação fez com que, em determinado período, o cliente não precise pagar ao banco. Isso ajuda no não aumento da inadimplência, a operação é destinada a isso. Quando essa prorrogação se encerra e voltarem os pagamentos normais, a conta recomeça. Tem o pagamento e, a partir daí, tem os 90 dias para contar se vai gerar inadimplência", afirmou.

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