CONJUNTURA

Conta de luz pressiona o aumento da inflação no fim do ano

Bandeira tarifária vermelha, que permitirá cobrança de taxa extra nas faturas de energia elétrica, deve levar IPCA de dezembro para mais de 1% e a fechar o ano acima da meta de 4%. Cenário de elevação também pode fazer o BC antecipar alta de juros em 2021

Marina Barbosa
postado em 02/12/2020 06:00
 (crédito: Copel/Divulgacao)
(crédito: Copel/Divulgacao)

Além da alta dos alimentos, os brasileiros vão ter que lidar com o aumento da conta de luz em dezembro, por conta da decisão da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) de reativar o sistema de bandeiras tarifárias com a bandeira vermelha patamar 2. Por isso, a inflação vai continuar em alta e deve fechar o ano acima da meta de 4%.

O mercado calcula que a inflação vai subir quase 0,5 ponto percentual neste mês por conta do aumento da energia. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o consumo de energia elétrica residencial representa 4,3% da cesta de consumo medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que vem subindo por conta da alta dos alimentos e, mais recentemente, da recomposição de preços de bens industriais e serviços.

Com a bandeira vermelha, as faturas de energia vão ter um acréscimo de R$ 6,243 para cada 100 quilowatts-hora consumidos. O impacto não era esperado, visto que, na pandemia de covid-19, a Aneel havia prometido só reativar o sistema de bandeiras tarifárias em 2021.

“A energia elétrica pesa bastante no IPCA, pois compromete uma parcela importante do orçamento do brasileiro. Para cada 1% de aumento da energia, há um impacto de aproximadamente 0,06 ponto percentual na inflação. E, agora, o aumento será de cerca de 6%, o que dá 0,5 ponto percentual”, calculou o coordenador dos índices de preços da Fundação Getulio Vargas (FGV), André Braz. “O acionamento da bandeira vermelha vai encarecer o custo de vida e a inflação virá em magnitude superior à que era esperada”, reforçou o economista sênior do Banco ABC Brasil, Daniel Xavier.

O ABC calcula um impacto de 0,48 ponto percentual na inflação de dezembro. É a mesma projeção da Ativa Investimentos, que elevou de 0,88% para 1,36% a expectativa do IPCA deste mês. Por conta disso, o mercado admite que a inflação vai ficar acima da meta de 4% neste ano — algo que não era esperado no início da crise da covid-19. Após o anúncio da Aneel, diversos analistas correram para rever as projeções. As expectativas para o IPCA de 2020, que giravam entre 3,5% e 3,9% no início da semana, agora vão de 4,13% a 4,47%.

Por outro lado, os economistas dizem que, ao antecipar para dezembro um aumento que era esperado apenas em 2021, a Aneel tirou um pouco da pressão inflacionária do próximo ano. “A expectativa era fechar o ano com a bandeira verde, mas vamos fechar com a bandeira vermelha patamar 2, que é a mais alta. Por isso, qualquer bandeira para ano que vem vai ser ou igual ou menor”, explicou o economista da LCA Consultoria, Fábio Romão.

A LCA, por exemplo, prevê bandeira amarela no fim de 2021. Por isso, revisou de 3,8% para 3,4% o IPCA de 2021. Outros analistas também reduziram a expectativa da inflação do próximo ano para algo em torno de 3% a 3,4%. Por isso, avaliam que a pressão inflacionária deste fim do ano não deve mudar o discurso do Banco Central (BC) de que a alta de preços é temporária.

Juros

Os especialistas admitem, contudo, que a revisão da taxa básica de juros (Selic), que deve passar dos atuais 2% para 3% em 2021 segundo as projeções do mercado, pode começar antes do esperado. “O IPCA acumulado em 12 meses deve ficar acima de 4% até março e pode superar a marca de 5% em abril, maio e junho do ano que vem, já que outros preços administrados também serão reajustados em 2021, como de ônibus urbano, medicamentos, plano de saúde. É incômodo. Então, há um risco crescente de o BC antecipar para o primeiro semestre a elevação dos juros”, explicou Romão. Ele projeta uma trégua da inflação depois disso, por conta da alta mais moderada de outro componentes do IPCA, como os serviços.

Bolsonaro vê risco de apagão


O presidente Jair Bolsonaro disse ontem pelas redes sociais, que, sem o aumento das contas de luz, o Brasil corre o risco de sofrer novos apagões, devido aos baixos níveis dos reservatórios de água das hidrelétricas.

“As represas estão em níveis baixíssimos. Se nada fizermos, poderemos ter apagões. O período de chuvas, que deveria começar em outubro, ainda não veio”, argumentou Bolsonaro, ao responder um seguidor que, ironicamente, agradeceu a alta da conta de luz ao presidente. O mandatário ainda prometeu dar início a uma campanha contra o desperdício em breve, algo que já havia sido solicitado pela Aneel no anúncio da mudança da bandeira tarifária.

Para analistas, o alerta do presidente tem fundamento. Hoje, só os reservatórios do Nordeste estão com mais de 50% sua capacidade. No Norte, o nível é de apenas 28,93%. A situação é ainda mais preocupante no Sul/Sudeste, onde as represas estão somente com 18% da capacidade.

“Nossa matriz energética é muito voltada às hidrelétricas. Mas, neste ano, a reposição das águas não foi suficiente. Além disso, a região Norte parou de importar energia elétrica da Venezuela. E alguns consumidores passaram a consumir mais, já que estão em casa. Por isso, o governo precisou acionar as térmicas, que são mais caras, para suprir essa demanda”, explicou o CEO da Accell, Henrique Costa.

Ele disse que não é possível descartar o risco de apagões, especialmente nas regiões que recebem menos investimentos, como o Norte/Nordeste. E acredita que o governo se antecipou para evitar novos problemas como o do Amapá. “Não fosse a crise econômica dos últimos anos e a pandemia, que reduziram o consumo de energia como um todo, talvez estivéssemos tendo que passar por um racionamento”, completou o diretor do Instituto Ilumina, Roberto Pereira.

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