Fechamento de fábricas

Fechamento da Ford expôs "esqueletos" do Custo Brasil, diz Anfavea

Presidente da Associação Nacional de Veículos Automotores, Luiz Carlos Moraes explica os gargalos do setor automobilístico e rebate declaração do presidente Bolsonaro sobre subsídios

Simone Kafruni
postado em 13/01/2021 15:51 / atualizado em 13/01/2021 15:51
Presidente da Anfavea, Luiz Carlos Moraes diz que setor quer competitividade  -  (crédito: Anfavea/Divulgação)
Presidente da Anfavea, Luiz Carlos Moraes diz que setor quer competitividade - (crédito: Anfavea/Divulgação)

O presidente da Associação Nacional de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Carlos Moraes, decidiu explicar, nesta quarta-feira (13/1), quais são os gargalos enfrentados pelo setor automobilístico e que influenciaram na decisão da Ford de fechar as fábricas no Brasil. Moraes também rebateu a declaração do presidente Jair Bolsonaro de que a montadora deixou o país, depois de 100 anos de atuação nacional, porque queria mais benefícios. “Não quero politizar o assunto, mas a crise expôs o Custo Brasil”, afirmou, fazendo uma analogia com secas em reservatórios. “Quando a água desce, os esqueletos e as carcaças aparecem”.

“Estão politizando um tema muito sério nos últimos dois dias. É natural. Governadores, prefeitos mostraram preocupação legítima. Mas não deveríamos discutir quem é o culpado, mas como resolver o problema. Nesse caso concreto, como mitigar as consequências e como atacar as distorções. Não dá mais para esperar a reforma tributária”, alertou. Segundo ele, o timing político altera as verdadeiras prioridades. “A prioridade é da economia e não do calendário eleitoral”, disse, referindo-se ao compasso de espera do Congresso, cujas Mesas Diretoras têm eleições em 1º de fevereiro.

Segundo Moraes, a Anfavea vem batendo na tecla de reduzir o Custo Brasil há dois anos. “A indústria está passando por uma grande transformação, baseada em conectividade, veículo autônomo, serviços e eletrificação. Os investimentos para isso são altíssimos e as matrizes deixaram de mandar dinheiro para as montadoras do Brasil”, ressaltou. Entre 2010 e 2020, o saldo líquido entre o que as sedes mandaram e o que as filiais devolveram em dividendos foi de US$ 24 bilhões para as montadoras do Brasil. “A partir de agora, não vão mais receber dinheiro lá de fora. Então temos que reduzir custos e aumentar a competitividade”, disse.

A ociosidade da indústria no Brasil está acima de 2,2 milhões de unidades. O setor tem capacidade de produzir 5 milhões de veículos, No ano passado, foram produzidos 2,8 milhões. Com o fechamento de cinco fábricas (três da Ford anunciadas esta semana, a unidade de São Bernardo do Campo, também da Ford, que fechou em 2019, e uma planta da Mercedes Benz, encerrada em 2020, apenas cinco anos depois da inauguração), a capacidade caiu para algo entre 4,5 milhões e 4,7 milhões de veículos, segundo Moraes.

À ociosidade local, que vinha alta desde a recessão de 2015-2016, somou-se a mundial, agravada pela pandemia. “O mercado global, que era de uma produção de 91 milhões de veículos, deve ficar entre 73 milhões e 75 milhões. Caiu o volume mundial. Há ociosidade na Alemanha, na Coreia, no Japão e nos Estados Unidos”, assinalou. “Só há duas alternativas para acabar com a ociosidade. Uma é fechar as fábricas. A outra é aumentar a competitividade e reduzir a carga tributária para voltar a crescer e conseguir exportar”, explicou.

O Custo Brasil retira competitividade dos produtos feitos no Brasil. “O setor perdeu R$ 37 bilhões com burocracia em 2019, porque 1,2% da receita da indústria é gasto para emitir relatório, adaptar sistemas, preencher papel. O acordo com a União Europeia vai reduzir o imposto de importação ano a ano. Temos data para atacar o Custo Brasil, porque a abertura está ocorrendo”, alertou. Além do custo com a burocracia, Moraes elencou o resíduo tributário de 12% no Brasil, gasto que outros países não têm. “Temos um custo de US$ 1,5 trilhão acima da média dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) em 12 dimensões, entre elas logística, infraestrutura e impostos”, comparou.

Incentivos fiscais

Moraes também detalhou os incentivos que o setor recebe, para rebater a declaração do presidente Bolsonaro, de que a Ford deixou o país porque queria mais benefícios. “É incorreto, é injusto dizer isso”, afirmou. Ele explicou que, entre 2012 e 2017, o Inovar-Auto dava 30% de apoio a investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D). “Isso gerou R$ 5 bilhões por ano. Este tipo de apoio em P&D ocorre em todos os países, com outros formatos”, ressaltou. “No Brasil, a pesquisa resultou em 12% de redução no consumo dos veículos. Uma eficiência energética que garantiu economia de R$ 7 bilhões em despesas com combustíveis”, disse.

O Inovar-Auto foi substituído pelo Rota 2030, que reduziu os 30% destinados a P&D para 12,5%, a ser utilizado em imposto de renda, caso as empresas tenham lucro. “Como algumas não vão ter lucro, apesar de terem feito P&D, não vão recuperar”, alegou. Além disso, existem incentivos regionais, segundo o presidente da Anfavea. “Esse foi debatido no Congresso e aprovado. É legítimo para levar desenvolvimento industrial ao Norte e Nordeste”, afirmou.

Moraes disse que se a carga tributária no Brasil não fosse tão alta, tais benefícios não seriam necessários. “Parece um comerciante na Black Friday, que aumenta o preço e depois dá um desconto. O benefício reduz uma carga que é superdimensionada. É preciso deixar claro que não é dinheiro que entra no bolso da montadora ou vira dividendo, vai para pesquisa com vantagem para a sociedade como um todo”, acrescentou.

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