Infraestrutura

Tragédia de Brumadinho: Vale acorda pagar R$ 37,7 bilhões com governo de MG

Dois anos e meio após a tragédia de Brumadinho, acordo entre a Vale e o governo de Minas Gerais prevê recuperação socioambiental, obras de infraestrutura e auxílio aos moradores dos 25 municípios atingidos pelo rompimento da barragem

Fernanda Fernandes
postado em 17/07/2021 06:00
Área reflorestada na bacia do rio Paraopeba, em uma das ações de recuperação ambiental conduzidas pela Vale: projeto para os próximos dez anos -  (crédito: Divulgação/Vale/Brumadinho)
Área reflorestada na bacia do rio Paraopeba, em uma das ações de recuperação ambiental conduzidas pela Vale: projeto para os próximos dez anos - (crédito: Divulgação/Vale/Brumadinho)

A reparação por danos sociais e ambientais provocados pelo rompimento da barragem em Brumadinho, Minas Gerais (MG), há dois anos e meio, já custou R$ 12 bilhões à mineradora Vale. Desse total, a empresa afirma que R$ 6,27 bilhões foram considerados no acordo com o governo de Minas Gerais, celebrado em fevereiro deste ano. O entendimento entre as duas partes determina o aporte de R$ 37,7 bilhões em recursos, no prazo de dez anos, para as ações voltadas às áreas e aos moradores dos 25 municípios atingidos pela tragédia.

Segundo Marcelo Klein, diretor de Reparação e Desenvolvimento da Vale, as ações de reparação de danos ocorrem desde o rompimento da barragem, ainda no andamento do processo judicial movido pelo Ministério Público Federal e pelo Ministério Público Estadual de MG. “Independentemente do acordo, as ações ambientais, sociais, de acolhimento das famílias com apoio psicológico, já ocorriam. O acordo trouxe clareza dos papéis de cada ente, sobre valores que a Vale deve pagar e prazos”, explica Klein.

Entre outras ações da Vale que não foram incluídas no valor do acordo, constam todas as ações emergenciais de recuperação socioambiental, como assistência humanitária imediata, auxílio emergencial, obras de infraestrutura, contenção e remoção de rejeitos, apoio às buscas e distribuição de água potável.

Somente para a recuperação ambiental da bacia do rio Paraopeba, o acordo prevê um investimento de R$ 5 bilhões pela mineradora. Com teto atual de R$ 26 bilhões, o acordo determina o custeio de programas na área de saúde, mobilidade e até para um projeto de crédito e microcrédito para as pessoas atingidas pelo rompimento da barragem. De acordo com Klein, a Vale também oferece consultoria financeira e de investimentos para essas pessoas. “A pessoa pega o dinheiro e quer abrir um salão, ou um restaurante, nós temos um programa que educa essas pessoas para uma nova atuação, mas muitos querem continuar no trabalho do campo”, afirma o diretor.

Reflorestamento

Klein explica que grande parte dos investimentos é direcionada a ações de recuperação das áreas de plantio. Segundo dados da Vale, desde o acidente em 25 de janeiro de 2019, foram reflorestados 11,5 hectares, incluindo parte da área diretamente impactada e áreas de reserva e preservação ambiental. Ao fim do ano, a previsão é de que 35 hectares de áreas estejam em processo de reflorestamento, com o plantio de aproximadamente 50 mil mudas de espécies nativas da região. Esse trabalho, segundo o diretor, envolve uma extensa gama de profissionais, desde pesquisadores a recolhedores de rejeitos. “A recuperação de costas demanda pesquisa de sementes para se preservar a flora da região, coleta de DNA para acelerar o processo de reparação, remoção de todos os rejeitos, e plantação das sementes das espécies naturais para recompor a mata que foi afetada”, conta.

A Federação das Indústrias de Minas Gerais (FIEMG) calculou o impacto econômico e social sobre a primeira etapa de ações prevista no acordo entre Vale e o governo de Minas. Além do PIB per capita nas 13 regiões de Minas, a análise, divulgada na semana passada, leva em conta indicadores como o valor bruto da produção e os salários pagos a trabalhadores da agropecuária, da indústria, dos serviços e da administração pública. O resultado aponta que as obras com recursos da Vale vão gerar um aumento de R$ 14,9 bilhões no faturamento do estado (134,7% do investimento); 48,9 mil empregos em Minas Gerais; o pagamento de R$ 4,2 bilhões em salários no estado (37,9% do investimento); arrecadação de R$ 764,4 milhões em impostos líquidos de subsídios no estado (6,9% do investimento) e aumento de 1,9% no PIB do estado.

A mineradora deixa um cenário de crise após a tragédia e, a julgar o mercado de mineração, deverá se manter em crescimento acelerado. Em abril a empresa divulgou lucro recorde de R$ 30,5 bilhões no primeiro trimestre. Segundo Gustavo Cruz, economista da RB Investimentos, a alta é reflexo do cenário internacional favorável, com o minério ao dobro do valor de 2020. Mas as ações para recuperação e retomada da produção pós Brumadinho, junto ao acordo com o governo, foram essenciais. “O resultado em si estava em segundo plano, chamava mais atenção a questão ambiental, e na questão ESG a Vale melhorou da água pro vinho. Com o acordo, finalmente essa questão (Brumadinho) será reparada. A Vale deve continuar indo bem, acho que é uma aposta sólida, pois os preços de commodities estão extremamente elevados”, afirma.

Brumadinho é o maior acidente de trabalho já registrado no Brasil, com 270 vítimas fatais, a maioria funcionários da Vale. Entre acordos cíveis e trabalhistas, a empresa pagou R$ 2 bilhões, desde 2019, para 10,5 mil pessoas. De um total de 5,1 mil acordos de indenização, 1,4 mil são trabalhistas, envolvendo mais de 2,4 mil familiares de vítimas. De acordo com a Vale, até o fim de 2021, mais 500 pessoas deverão ser indenizadas. Segundo o diretor Marcelo Klein, cada caso é observado individualmente, e o cálculo é realizado sobre os anos de trabalho que cada funcionário exerceria até a aposentadoria. Os valores das indenizações individuais não são abrangidos pelo teto do acordo com o governo de Minas.

Números do desembolso

Gastos da Vale com a recuperação da região de Brumadinho desde 2019, resultantes de acordo com o governo de Minas Gerais

Obras e serviços
Contenção e remoção de rejeitos, infraestrutura R$ 2,6 bilhões

Obras e Serviços técnicos de reparação e compensação
Ação socio ambiental, social e socioeconômica R$ 1,4 bilhão

Apoio às pessoas atingidas
Fornecimento de água, moradia e logística R$ 207 milhões

Doações
Outros investimentos involuntários R$ 193 milhões

Pagamento de auxílio emergencial R$ 1,7 bilhão

Ressarcimentos ao governo de Minas Gerais R$ 110 milhões

Total R$ 6,2 bilhões

Fonte: Vale

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