Conjuntura

Energia e passagens aéreas são vilões da inflação no país em julho

Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA-15) registra alta de 0,72%, o maior percentual para o mês desde 2004. Energia elétrica e combustíveis são considerados os vilões da carestia. Economistas ressaltam a conjunção de fatores a elevar a pressão inflacionária

Fernanda Fernandes
postado em 24/07/2021 06:00
 (crédito: CB D.A Press)
(crédito: CB D.A Press)

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), prévia da inflação oficial do país, registrou 0,72% em julho, o maior percentual para o mês desde 2004. Em 12 meses, a alta é de 8,59%. Segundo dados divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dos nove grupos de produtos e serviços pesquisados, sete tiveram alta de preço este mês. Os principais responsáveis pelo avanço inflacionário foram os setores de habitação e transportes. Os protagonistas: a energia elétrica e as passagens aéreas, que sofreram aumentos significativos.

De acordo com Guilherme Sousa, economista da Ativa Investimentos, os especialistas esperavam um reajuste de 0,64% no IPCA-15. Ele explica que, embora as altas fossem esperadas, o reajuste das passagens aéreas foi além das expectativas. “Estava estimada uma alta de 18% para o mês, e veio 35,64%, então esse item surpreendeu bastante, mesmo a gente já considerando que seria forte”, conta Sousa. Segundo ele, com a prévia atual, a expectativa para o IPCA oficial de julho mudou de 0,81 para 0,89.

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Um dos itens que também surpreendeu, porém pela desaceleração, foi o de combustíveis. O reajuste inflacionário caiu de 3,69% para 0,38%. A gasolina, contudo, subiu 0,50% e acumula alta de 40,32% em 12 meses. O item, segundo Juliano Ferreira, estrategista macro da BGC Liquidez, foi um dos que mais pressionaram a inflação nos últimos dois meses, acompanhado da energia elétrica residencial.

“A Petrobras, recentemente, aumentou o preço de alguns combustíveis. No caso da gasolina, especificamente, que tem maior peso no IPCA, os preços continuam subindo, embora a inflação do item tenha dado uma arrefecida na leitura do IPCA de junho e nessa leitura mais recente. No caso da energia elétrica residencial, a atual crise hídrica acarretou em bandeiras tarifárias mais altas que ainda foram reajustadas para cima no mês de julho, o que explica a pressão inflacionária vinda desse item”, afirma.

Retomada surpreende

Para Guilherme Sousa, a retomada econômica mais forte do que o esperado é a principal propulsora para o aumento dos indicadores. “A economia vem sempre surpreendendo, e os indicadores são reflexo dessa economia mais aquecida. As pessoas estão fazendo mais viagens, gastando mais, e o cenário está se recuperando em um ritmo mais acelerado do que a gente esperava há um tempo”, ressalta.

Apesar da alta em quase todos os setores, os grupos de saúde e cuidados pessoais e de comunicação registraram queda no IPCA prévio de julho. O índice reflete o inédito reajuste negativo dos planos de saúde determinado pelo governo em 8 de julho, com retroativo de maio, válido apenas para os planos individuais.

Cenário aumenta pressão sobre serviços

A reabertura de várias atividades por conta do avanço da vacinação e a forte pressão das tarifas de energia elétrica e da gasolina poderão pressionar a inflação de serviços ao longo do segundo semestre. Serviços é um dos setores da economia que ainda está com preços sob controle. Em junho, a energia elétrica foi o item que mais pressionou a inflação. Junto com a gasolina, esses dois preços administrados responderam por 25% da inflação de 0,53% do IPCA.

O alerta é do economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Fabio Bentes. “Se combinarmos a inflação de tarifas (custos) com a inflação por aumento da demanda, pode ser que ocorra alta dos preços dos serviços no segundo semestre. Esse é um risco”, diz.

O economista lembra que o restaurante que fazia promoções, provavelmente, deve retirá-las na medida em que passar a receber um fluxo maior de clientes. Além disso, a pressão de custo de energia amplia a possibilidade de repasse para os preços ao consumidor, em razão do aumento da demanda por serviços.

Em 12 meses até junho, a inflação de serviços está bem comportada. Acumula alta de 2,2%, diante dos preços administrados, que subiram 13% no mesmo período - quase o dobro dos preços livres (6,8%) em igual base de comparação.

Retomada é cruel para os mais pobres

As últimas atualizações da conjuntura econômica indicam que as pressões inflacionárias continuam elevadas e resistentes. Cada vez mais, a carestia se reflete na conta dos brasileiros e nos produtos mais caros no mercado. O grande problema, na análise de Pedro Paulo Silveira, economista-chefe da Nova Futura Investimentos, é que, a cada hora, de forma inesperada ou não, a economia sofre um choque. Esse eventos não têm sido absorvidos com a devida agilidade pelo Banco Central, responsávelo pela política monetária.

“O Brasil convive com a alta do dólar, dos preços do petróleo, com a seca e o aumento do preço da energia elétrica, com geadas que destroem as safras de café, milho e soja, entre outras questões. O mercado esperava que a inflação desacelerasse desde fevereiro, o que não aconteceu. E, até agora, o BC não definiu se vai atuar para conter uma inflação transitória ou persistente”, afirma Silveira. “O vilão foi a energia elétrica com alta de 4,79%. Esse item sozinho representou 21 pontos percentuais da inflação no período”, reforça André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos.

A alta na conta de luz é perversa para o cidadão, principalmente os de baixa renda. “O reflexo da alta de 0,72% do IPCA-15 foi imediato na curva curta dos juros, reforçando a probabilidade de elevação da taxa básica de juros (Selic) de 1 ponto percentual, para 5,25%, na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em agosto. Com inflação alta e juros altos, as despesas domésticas ficam mais salgadas”, destacou Eduardo Velho, economista-chefe da JF Trust Investimentos.

Crédito restrito

Com o aumento das contas básicas, muitos consumidores não conseguem pagar as contas em dia. Os boletos vencidos podem dificultar na análise de crédito, ou criar maior restrição do valor liberado no médio e longo prazos. É o que diz Ubiratan Lima, economista do Vadu, fintech especializada em análise e automação para o mercado de crédito. “Com menos crédito liberado, eventualmente, pode ter uma diminuição no consumo de bens duráveis e financiamentos de longo prazo. Esse efeito em cadeia do comprometimento da análise de crédito, da linha de financiamento de crédito, da provisão financeira de terceiros para pessoas que estão buscando crédito de médio e longo prazo, pode atrapalhar a retomada da economia”, observa Lima.

“Essa crise tem uma característica muito particular, a recuperação em ‘k’, ou seja, as camadas da sociedade com renda mais alta conseguiram sair da crise e recompor a renda da família, às vezes, até com ganho com relação ao início da pandemia. Enquanto menos favorecidas tiveram uma diminuição de até 33% na renda das famílias”, compara Paulo Duarte, economista chefe da Valor Investimentos. Segundo ele, no entanto, isso tende a normalizar, no momento em que as cadeias de produção voltarem ao ciclo normal.

A diarista Jéssica Oliveira, de 30 anos, sofreu com a grande redução de clientes durante a pandemia: “Muitas pessoas ficaram com medo e preferiram fazer a sua própria faxina em casa. Com isso, perdi muitos clientes. No início, só recebia o dinheiro das pessoas que ainda me pagavam, mesmo sem eu trabalhar, para ajudar. Fiquei desesperada”, relembra. Em março do ano passado, Jéssica começou a receber o auxílio emergencial e adaptou a rotina da família ao valor do benefício.

A diarista, porém, não contava com o aumento exponencial nos preços dos produtos: “ O auxílio salvou a minha vida, mas tudo no supermercado triplicou de preço. O arroz, o feijão, a carne. Com a gente dentro de casa o tempo todo, as contas de água e luz também aumentaram e começou a ficar difícil pagar tudo”, disse. Por isso, a família optou por um estilo de vida mais simples e dieta mais barata.

“Trocamos muitas marcas para outras mais baratas. Praticamente, cortamos a carne vermelha, começamos a economizar nos produtos de limpeza, e tudo mais”, lamenta. “Como mãe, me dói muito não poder proporcionar o que o meu filho gosta nem na mesa de casa, mas com os preços dos produtos, atualmente, ou é assim, ou não conseguimos pagar as outras conta”, reforça.

*Estagiários sob a supervisão de Carlos Alexandre de Souza

 

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