Preservar o poder aquisitivo, proteger o patrimônio em moeda forte, diversificar investimentos e buscar maiores retornos estão entre os principais motivos que levam um número cada vez maior de brasileiros a investir no exterior. Além do amplo leque de alternativas, em um ambiente mais competitivo aos negócios, o risco, muitas vezes, é menor, diante das turbulências do mercado doméstico.
Segundo o Banco Central, apenas no primeiro trimestre de 2021, o saldo líquido dos investimentos de brasileiros em ações de empresas no exterior correspondeu à metade de todo o resultado de 2020. De janeiro a março deste ano, US$ 1,57 bilhão foi investido fora do país, ante US$ 3,08 bilhões em todo o ano passado.
Os meios para as aplicações são diversos. Dos Brazilian Depositary Receipts (BDRs) aos Exchange Traded Funds (ETFs) e aos Certificados de Operações Estruturadas (COEs), há investimentoa de vários tipos: os que exigem a abertura de uma conta no exterior e os que podem ser feitas no Brasil.
Cássio Segura, presidente da YellowFi, gestora de investimentos imobiliários, destaca que, desde 2004, aconselha os brasileiros a se internacionalizarem. “Pelo menos 20% dos investimentos de risco devem ser alocados em outro país”, afirma. Mas tem custo. No mercado imobiliário, a taxa de administração vai de 0,5% a 1%. “O percentual pode variar. Se tiver uma gestão ativa, pode chegar a 1,5% a 2%”, pondera. Mas toda a transação, alerta Segura, tem que ser feita com cautela e com conhecimento do produto.
Os BDRs, que são negociados na Bolsa de Valores de São Paulo (B3), são títulos representativos de ações estrangeiras. Por isso, têm custos semelhantes aos de uma operação com ações. O investidor paga taxa de corretagem, de custódia e emolumentos. A tributação pelo Imposto de Renda (IR) é de 15% sobre o ganho.
Nos ETFs, fundos de índices que replicam a carteira de um ou mais índices estrangeiros, as operações são tributadas da mesma forma que a compra de ações. O IR é de 15% sobre o ganho, mas não há isenção para vendas abaixo de R$ 20 mil por mês. Nos COEs, que mesclam características de renda fixa e variável — atrelados a índices de ações, moedas, ouro, entre outros —, há taxas de administração de 0,5% a 2% ao ano. São tributados pela tabela regressiva do IR, com alíquotas de 22,5% a 15% sobre os ganhos.
Educação financeira
“O brasileiro está mais curioso e interessado, principalmente no mercado americano, em que, devido à regulação, 90% dos fundos são isentos de imposto. O brasileiro só paga IR no domicílio. Na YellowFi, 70% dos clientes são brasileiros”, conta Cássio Segura.
Rodrigo Lima, analista de investimentos e editor de conteúdo da Plataforma Stake, concorda que “a diversificação é fundamental e não apenas para os Estados Unidos”. “O Brasil tem risco econômico e político muito grande”, avalia. Ele destaca que a sociedade brasileira viveu décadas longe de educação financeira. A Bolsa de Valores era um lugar apenas de especialistas endinheirados. Mas esse cenário mudou, e faz tempo. Os investidores da Stake são jovens. A plataforma opera no Reino Unido, na Nova Zelândia e na Austrália.
Saiba Mais
Clara Sodré, educadora da XPeed School, destaca que, na B3, é negociado um número restrito de ações — cerca de 1% do mercado global —, com pouco mais de 300 empresas. “Nas bolsas norte-americanas são mais de cinco mil empresas, quase a metade de todo o mercado de ações no mundo”, assinala. “Os investidores estão de olho no risco-Brasil, na crise política e das eleições, e observando as melhores opções lá fora”, explica a educadora. “É importante destacar que, antes de tomar a decisão de aplicar no exterior, o investidor precisa consultar um especialista e saber o seu perfil”, alerta.
*Estagiária sob supervisão de Odail Figueiredo
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Fundos captam R$ 108 bilhões no ano
Segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) divulgados no início de agosto, os fundos de investimento no exterior foram destaque do mês e do ano. Tiveram, em conjunto, captação líquida de R$ 2,1 bilhões e R$ 108,6 bilhões, respectivamente. Além disso, os investimentos em ações no exterior foram os únicos a ficarem no campo positivo, com 0,32%, dentre outros 11, como dividendos e indexados, que acompanharam a queda de 3,94% do Ibovespa em julho.
Esses resultados incentivam Lucas Barreiros, 27 anos, investidor na Bolsa desde 2018, a continuar aportando recursos em aplicações no exterior. “Em março do ano passado, vi a Bolsa despencar e meu dinheiro derreter, todos os ativos caindo muito e todas as outras moedas do mundo decolando em relação ao real. Senti a necessidade de começar a proteger meu dinheiro comprando ativos internacionais de moedas mais fortes e procurei uma corretora que possibilitasse investir internacionalmente, começando meus aportes em setembro de 2020”, conta.
Análise
A análise de uma corretora facilitou o processo, com material de fácil acesso e indicações de ativos que diversificaram sua carteira com fundos imobiliários (FIIs) e ações focadas em dividendos. Segundo Adriano Cantreva, CIO e sócio-fundador da Portofino Multi Family Office, empresa responsável pelo planejamento financeiro, estratégia e gerenciamento de investimentos, “a única desvantagem é a falta de estrutura”. “O acesso ao mercado exterior é difícil, mas é muito mais fácil do que já foi. Hoje em dia, podemos abrir uma conta no exterior em uma corretora ou banco de maneira on-line.”
Cantreva lembra ainda que os ativos financeiros brasileiros representam somente 2,7% dos ativos financeiros mundiais, dessa forma, quem se limita ao mercado nacional perde os outros 97,3% de oportunidades no mercado. “É possível investir tanto na Magazine Luíza quanto na Amazon. A segurança é inquestionável, e as análises de qualidade dos investimentos são similares a análises brasileiras, e só ficam mais complexas pela falta de familiaridade com os instrumentos internacionais. Vale a pena começar a se familiarizar com isso e não ficar só limitado ao que existe no Brasil”, ressalta o empresário. (VB e LV)
Valor precisa ser declarado
O advogado Roberto Justo lembra que investimentos no exterior devem ser declarados à Receita Federal. A Declaração do Imposto de Renda (DIRPF) precisa ser feita, normalmente, até 30 de abril de cada ano, com a situação patrimonial em 31 de dezembro do ano anterior. Quem tem mais de US$ 100 mil investidos no exterior também deve enviar a declaração de rendimentos ao Banco Central até 31 de dezembro de cada ano”, ensina.
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