REAJUSTE

Trabalhador com carteira assinada não tem ganho real há três anos, diz estudo

Cenário é influenciado pelas altas taxas de desemprego e atividade econômica na pandemia, que complicam as negociações de reajustes

Maria Eduarda Angeli*
postado em 26/01/2022 15:38 / atualizado em 26/01/2022 15:38
 (crédito: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
(crédito: Ana Rayssa/CB/D.A Press)

Um estudo feito pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) revelou que os trabalhadores formais não têm tido ganho real há três anos — ou seja, os reajustes salariais estão abaixo da inflação. O boletim Salariômetro, divulgado nesta quarta-feira (26/1) com dados do fim do ano passado, registrou que o Nordeste foi a região com a maior diferença dos salários em relação ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), com variação de -39,4%.

Não só a disparada da inflação em si, como também o baixo movimento da atividade econômica na pandemia e a alta do desemprego influenciam as condições de reajuste salarial, deixando o cenário mais difícil para os funcionários, que têm seu poder de compra corroído. A variação mediana usada no cálculo das médias de 2019 e 2020 foi zero, ao passo que em 2021 terminou em 0,1%.

A pesquisa também apontou que, no ano passado, apenas 18,6% dos contratos resultaram em aumentos de salário acima dos índices da inflação referentes aos últimos 12 meses, ao passo que em 2019, antes da pandemia, o número se aproximava dos 50%. Outro cenário relatado pelo estudo da Fipe foi o escalonamento de reajustes – quando o aumento vem parcelado.

O coordenador do Salariômetro e professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo, Hélio Zylberstajn, lembrou que o teto para aplicação de reajustes é uma boa medida.

O sistema pode ser adotado para definir a correção de uma faixa salarial específica ou para definir quem receberá o aumento. Em novembro do ano passado, 36,5% das negociações foram feitas utilizando essa metodologia. Já em dezembro, apenas 16,4%.

Zylberstajn, porém, afirma que mecanismos a exemplo dos escalonamentos e estabelecimento de tetos não compensam a redução do poder de compra dos trabalhadores, e que a situação entre funcionários e patrões está tensionada.

Em 2021, benefícios como vale-alimentação e vale-refeição se mantiveram praticamente estáveis, com o primeiro indo de R$ 275 para R$ 280 e o último permanecendo em R$ 22. O piso dos salários também não apresentou grande variação, passando para os R$ 1.332, elevação de 4,5%. O quadro não condiz com índices comumente usados como base para reajustes salariais, tais como o INPC, que fechou em 7,71%.

Serviços é o setor mais afetado

O boletim da Fipe mostrou que o segmento da economia que apresenta a defasagem mais significativa entre os números da inflação indicados pelo INPC e os da mediana dos reajustes salariais foi o de serviços, – 38,9%.

A área tradicionalmente é uma das que mais participam para o cenário econômico do país, contribuindo com cerca de 70% do valor do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro. Durante o período pandêmico do novo coronavírus, porém, o setor foi fortemente afetado pelas restrições sanitárias, que resultaram no fechamento de hotéis, bares e restaurantes.

Hélio Zylberstajn afirma que as negociações no âmbito salarial devem melhorar em 2022, a partir do segundo semestre, mas devem seguir apertadas. "Com o INPC acumulado em dois dígitos, não há espaço para ganho real. Mesmo assim, este será mais um ano complicado, de eleições e juros em elevação. A situação não é boa para os trabalhadores", conclui.

*Estagiária sob a supervisão de Andreia Castro

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