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"Lugar de militares é no quartel, não no governo", diz Zeina Latif

Especialista diz que o principal nó do crescimento econômico do Brasil é falta de educação básica gratuita, um consenso na literatura e grande diferencial dos países desenvolvidos

Vicente Nunes
Rosana Hessel
postado em 17/04/2022 06:00 / atualizado em 17/04/2022 18:08
Doutora em economia pela Universidade de São Paulo (USP), com passagens por algumas das maiores instituições financeiras do país, Zeina ressalta que o país tem vários nós a desatar, sendo o principal deles, o da educação pública -  (crédito: Breno Fortes/CB/D.A Press)
Doutora em economia pela Universidade de São Paulo (USP), com passagens por algumas das maiores instituições financeiras do país, Zeina ressalta que o país tem vários nós a desatar, sendo o principal deles, o da educação pública - (crédito: Breno Fortes/CB/D.A Press)

A atual militarização do governo, com excesso de fardados ocupando cargos estratégicos, é um atraso para o país e ajuda a minar a credibilidade das Forças Armadas. É o que diz a economista Zeina Latif, que vê a volta dos militares ao poder como reflexo, em grande parte, da falta de organização das elites, que deixam um vácuo para as interferências históricas das Forças Armadas.

“Ao fazerem isso, enfraqueceram a nossa democracia. E as escolhas feitas vão cobrando seu custo”, afirma. Para ela, “os militares têm que voltar para os quartéis”. “O regime militar, em boa medida, foi responsável pela década perdida de 1980. Não que não tenhamos cometido os nossos próprios erros”, enfatiza.

Doutora em economia pela Universidade de São Paulo (USP), com passagens por algumas das maiores instituições financeiras do país, Zeina ressalta que o país tem vários nós a desatar, sendo o principal deles, o da educação pública. No entender dela, da forma como está estruturado hoje, o sistema educacional agrava as desigualdades sociais.

Ela ainda chama a atenção para a visão corporativista dos professores, que estão mais interessados em obter vantagens pessoais do que preocupados com a melhoria do ensino. Esse “pecado original”, acredita, trava o crescimento econômico e compromete o futuro. “O Brasil não investe pouco em educação, o problema é que continua aplicando mal os recursos”, diz.

Apesar dos percalços, Zeina demonstra um certo otimismo com o país, mas ressalva que é preciso olhar para os erros do passado para não cometê-los novamente nas eleições de 2022. “Essa questão da educação básica gratuita é um consenso na literatura econômica, pela importância na formação do capital humano, no exercício da cidadania e da construção democrática de um país”, frisa. “Houve avanços ao longo do tempo e a redemocratização foi um passo muito importante para a universalização, mas o fato é que pecamos muito na qualidade da nossa educação”, acrescenta.

Zeina está lançando o livro “Nós do Brasil, nossas heranças e nossas escolhas”, no qual ressalta a fragilidade da democracia brasileira, que “nasceu como nação outro dia” e teve períodos prolongados de ditaduras, cujos custos estão sendo pagos até hoje. Ela detalha ainda a falta de uma identidade nacional e de capital cívico, que limita o desenvolvimento da sociedade, já que não exerce seus direitos e deveres, exigindo serviços públicos melhores.

Na opinião dela, muitos cidadãos não gostam de cumprir regras mínimas de civilidade, retrato de uma sociedade violenta e desigual. A seguir, os principais trechos da entrevista da especialista, que integra a equipe que elabora o programa econômico do pré-candidato à Presidência da República João Dória (PSDB).

A seguir, os principais trechos da entrevista de Zeina ao Correio:

 

Nós do Brasil, nossa herança, nossas escolhas. Por que a escolha desse título para o livro que está lançando?

Primeiro, quando eu uso a palavra nós, estou me referindo aos nós que seguram o crescimento econômico do país. O economista sempre dá ênfase no crescimento econômico, porque é a variável de estudo mais fácil, mas, no fundo, sempre acaba falando do desenvolvimento. Além disso, nós, brasileiros, temos parcela de responsabilidade pelas escolhas que fazemos. Tem uma literatura que não é de agora, lá fora e aqui dentro, para analisar as raízes históricas e que remetem à nossa origem, para explicar parte dos nossos problemas. Mas não podemos nos esquecer de que não há todo esse determinismo histórico. Fomos fazendo escolhas ao longo do tempo e, muitas vezes, distinguindo o país de outros países, vizinhos e de emergentes. Primeiro é isso, nós que seguram o crescimento e nós, também, como brasileiros.

As escolhas do Brasil, no geral, sempre foram erradas? O país sempre optou pelo caminho errado?

Acho que seria injusto dizer isso. Bem ou mal, houve avanços democráticos. Mas, à luz do que era a promessa do Brasil grande, parece que está bastante claro que cometemos alguns erros que nos custaram muito. E o principal é a negligência com a educação básica, historicamente. E, mesmo hoje, temos um gasto com educação que não é baixo, mas que não entrega um ensino de qualidade e, portanto, igualdade de oportunidade, o que explica esse abismo entre as classes sociais.

Ter ainda uma desigualdade tão grande de oportunidade e o efeito do baixo investimento do passado, principalmente, em educação e capital humano, que se acumulam, vamos carregando frutos de escolhas equivocadas. Óbvio que há casos de países que também falharam, mas o fato é que perdemos oportunidades de dar esse foco para a educação básica. Estados Unidos e Canadá são uma referência em oferecer educação básica de qualidade, pensando nas Américas.

Mas, mesmo quando olhamos lá atrás, países, como Chile e Argentina também tiveram preocupação maior com a educação. E a sociedade se organizou para oferecer educação básica gratuita. Resumindo, sim, cometemos erros e acho que, a julgar pela própria literatura econômica, quando analisamos os países, se tem uma coisa que é consenso é a importância do cuidado com a educação básica. 

E, no livro, eu procuro, o tempo todo, fazer essa análise. Olho as referências históricas, mas a análise é da economista sobre as variáveis que fazem alguns países crescerem mais e ficarem mais ricos do que outros. E essa questão da educação básica gratuita é um consenso na literatura econômica pela importância na formação do capital humano e pelo exercício da cidadania e da construção democrática de um país. Isso vai muito além da qualidade da mão de obra. A educação extrapola tudo. A falta de educação básica gratuita de qualidade é o que eu chamo de nosso pecado original.

E quando começou esse erro histórico?

Na verdade, o país, como colônia, já teve implicações. E, quando comparamos os indicadores e tudo o que tem de disponível nos textos históricos, vemos que a colonização que não tinha preocupação com a educação. Diferentemente dos Estados Unidos, que era uma colônia de povoamento, com núcleos que se organizavam e contavam com recursos para terem escolas, no caso do Brasil, a primeira inflexão na questão da educação foi a vinda da família real, foi quando surgiu a preocupação com o ensino superior.

O que tivemos de educação básica veio dos jesuítas lá atrás, mas era mais catequização e não educação básica de verdade. E veio muito tardiamente, de cima para baixo. Acho que é uma coisa que carregamos do passado. O ponto é que, mesmo quando tínhamos vozes dizendo que o país estava errando, isso não se traduziu em força política. Claro que o capítulo de educação é para explicar as várias etapas que o país passou e tentar explicar o porquê passou a investir em educação tardiamente. Eu tento entender o que pode estar por trás disso e porque não cuidamos da educação. Houve avanços ao longo do tempo e a redemocratização foi um passo muito importante para a universalização, mas o fato é que pecamos muito na qualidade da nossa educação.

Quais são os outros nós?

Eu colocaria como outro fator importante o seguinte: quando pensamos em sociedades que pressionam para melhorar a qualidade do serviço público, de forma geral, e, claro, educação, prioritariamente, estamos falando de uma classe média que seja representativa e usuária de serviços públicos. O país não tem isso. Não temos uma classe média homogênea, representativa, com participação importante, que gere essa pressão por ensino público de qualidade.

Quando olhamos para a classe média alta e as classes mais altas, os filhos estão na escola privada. Na pandemia, por exemplo, nós, como sociedade, aceitamos as escolas públicas fechadas por muito tempo. Nós aceitamos isso. A verdade é essa. E a pressão da sociedade, que é algo abordado na economia, é algo muito fraco. Quem é usuário do ensino público não é um grupo social que poderia fazer uma pressão coletiva, porque não é um grupo representativo.

E não tem voz…

Não tem, porque é um grupo muito pequeno. Por isso tem um capítulo que fala sobre a classe média. Não temos uma classe média naquele sentido da sociologia. Se formos olhar, é um grupo muito pequeno. E, por isso, não há essa organização da sociedade para pressionar por serviços públicos de qualidade. Esse é o tópico principal, mas existe um agravante que é, na minha visão, resquício dos períodos de ditaduras. O grau de sindicalização do serviço público na educação é outro fator que pesa muito. A meu ver, a visão mais corporativista perde o foco de quem tem que ser o beneficiário final, que são os alunos, as crianças e os jovens. Uma coisa é a questão da representatividade, outra é voltada para a demanda dos professores e não para o cidadão.

Quando olhamos os pleitos, são pleitos para a categoria. A bancada da educação (no Congresso) não é exatamente da educação. Ela atende os pleitos do grupo. Essas coisas se misturam, mas o peso maior é a falta de uma classe média representativa, homogênea, usuária de serviços públicos, que pressiona pela volta das escolas. Não vimos protestos para voltar às escolas (durante a pandemia). Talvez, se a classe média e a classe alta tivessem filhos na escola pública, houvesse mais pressão para voltar. De outro lado, o corporativismo se protege, defende as suas pautas e acaba distorcendo o debate público. E esse é um debate que precisamos avançar.

Ainda tem a questão da democracia.

Eu coloquei no início do primeiro capítulo, da introdução, na linha de Douglass North (economista norte-americano), das instituições, de como os países se diferenciam em relação à capacidade de crescer e de se desenvolver em função das instituições, mas no sentido mais amplo, envolvendo valores, costumes. Não é só no sentido tradicional que as pessoas analisam, mas envolvendo as regras do jogo e as formas como elas funcionam. O objetivo é destrinchar, a julgar pela própria literatura, os fatores que representam esses nós. Nesse sentido, eu destaco o fato de a democracia ter chegado tardiamente, com ritos políticos acentuados. Um país que nasceu como nação outro dia, como o Brasil, teve períodos acidentados demais, com ciclos políticos muito acentuados e períodos prolongados de ditaduras.

Isso diz muito da falta de amadurecimento e da incapacidade das elites de encontrarem soluções e espaço para negociação, e isso não sai barato. A ditadura de Getúlio Vargas, por exemplo, moldou muito o que o país é hoje. Depois, tivemos uma ditadura militar longa. E, se já havia fragilidades democráticas, isso também cobra o seu preço. Foi um período muito prolongado e que distingue o país da América Latina. Nesse capítulo sobre a democracia, as questões históricas e as pesquisas acadêmicas mostram que países que fizeram transição democrática tem mais condições de crescer, porque passam a contar com uma sociedade mais vibrante, com vários canais das instituições funcionando no sentido de abrir espaço para maior participação dos cidadãos. E isso se traduz em melhor qualidade da ação estatal.

Como vê a participação cada vez mais de militares no governo?

A participação política dos militares é algo que também distingue o Brasil da América Latina e do mundo, por conta do intervencionismo. Se, por um lado, refletiu nossa fraqueza democrática, por outro, mostra a forma como as Forças Armadas se organizaram, interferindo na vida política, porque os civis não sabem se organizar. E não tem como não dizer que isso trouxe problemas para política até os dias de hoje. Esse protagonismo dos militares, na minha leitura, faz muito mal para as Forças Armadas. Porque fere o espírito da disciplina e de valores.

Provavelmente, machucou a imagem junto à sociedade, porque deixaram de cumprir a sua missão. Ao se envolverem com política, o que não é algo esperado e não faz parte de suas funções, as Forças Armadas enfraqueceram a nossa democracia. Eu não diria agora, mas carregamos o nosso passado. E as escolhas feitas vão cobrando seu custo.

A estrutura que está montada hoje é uma ameaça à democracia?

Eu não diria que ameaçaria da forma como vimos no passado, mas enfraquece o jogo democrático. Ao não dividir o poder com aliados políticos, optando por entregar cargos a militares, o presidente acabou alimentando barganhas políticas de pior qualidade, como com o crescimento das emendas parlamentares.

O chamado presidencialismo de coalizão não é escolha do presidente, mas sim fruto do excesso de partidos, o que demanda uma engenharia política para o presidente ter apoio no Congresso. Mas cada presidente faz seu desenho de presidencialismo de coalizão, e o atual enfraquece a democracia. As emendas parlamentares geram distorções na alocação de recursos públicos, tornam o jogo eleitoral desigual e ferem a disciplina partidária. Isso não é neutro para o nosso amadurecimento democrático.

Outro aspecto é que há fatores que podem ser riscos e fontes de preocupação, como quando vemos movimentos de insubordinação dentro da Polícia Militar, com governadores passando por situação difícil em função de greves que não deveriam acontecer entre militares. Eu acho também que os militares têm que voltar para os quartéis.

Pensando, por outro lado, na corporação, com oficiais que assumem cargos que deveriam ser ocupados por civis, inclusive, por uma questão de falta de preparo técnico para a atividade, isso enfraquece as Forças Armadas. Há também desvio da sua missão, o que é ruim para a corporação e para o país.

 

 

02/09/2010. Crédito: Breno Fortes/CB/D.A Press. Brasil. São Paulo. SP. Economista da RBS Global Banking &Markets Zeina Latif.
02/09/2010. Crédito: Breno Fortes/CB/D.A Press. Brasil. São Paulo. SP. Economista da RBS Global Banking &Markets Zeina Latif. (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)

Voltando a um ponto que a senhora falou sobre a democracia estar relacionada a maior crescimento econômico, o que vimos nos últimos anos é que o Brasil nunca cresceu tão pouco. Isso não chega a ser uma contradição?

Essa sua pergunta é importante. A política econômica, na maioria das vezes, demora para mostrar seus efeitos colaterais. Por exemplo, tivemos o Brasil grande da ditadura Getúlio Vargas, mas, em seguida, entregou uma crise. O exemplo dos regimes militares é mais claro, porque estimula artificialmente a economia em vários canais, com dirigismo estatal, aí, a sociedade olha e acha que os militares fizeram o país crescer. Só que esquecem que a fatura chega depois. E o próximo que vem, colhe a inflação e a baixa produtividade e aí culpam a democracia.

Eu não quero dizer que não erramos no regime democrático, e fizemos muitas escolhas equivocadas, começando com algumas delas na própria Constituição. E aí eu discuto em um capítulo os marcos jurídicos do país, que entra nessa equação de instituições que atrapalham e criam limites ao crescimento. Mas, o fato de, após estimular a economia e gerar euforia, mas depois que vem os efeitos colaterais do remédio tomado em excesso gera uma incompreensão da sociedade. Gera um saudosismo que, na verdade, não corresponde à realidade.

O regime militar, em boa medida, foi responsável pela década perdida de 1980. Não que não tenhamos cometido os nossos próprios erros. Mas, em boa medida, foi responsável por colhemos a hiperinflação e estatais cheias de distorções e o saldo final foi mergulhar em uma crise terrível. O ex-presidente (general João Batista) Figueiredo tentou consertar, teve que fazer choques econômicos, mas o país demorou muito para superar todos aqueles problemas. E isso é um problema, o efeito colateral demora muito para acontecer.

A senhora acha que o Brasil tem jeito?

Eu acho que tem jeito. Mas não temos dado certo. Tivemos conquistas importantes e não podemos ser tão injustas. Tivemos governantes importantes, como Fernando Henrique Cardoso, por exemplo. E temos que valorizar isso, sem dúvida. Mas a entrega foi muito decepcionante quando olhamos uma perspectiva histórica. O que é o Brasil ter jeito? É conseguir ter mudanças na ação estatal de forma a proporcionar igualdade de oportunidades, que é o mais importante. Ou seja, as pessoas têm acesso a serviços públicos de qualidade, de forma que uma criança, quando nasce, não depende tanto da sorte para dar certo na vida. Logo, o Brasil dar certo é, no fundo, que as nossas crianças darem certo e não precisarem tanto da sorte quanto precisam hoje.

E tem chance de desatarmos todos esses nós?

Claro que não vai haver a famosa bala de prata. Mas o Brasil precisa dar certo, ainda mais porque não temos mais o bônus demográfico. E o país está, do ponto de crescimento do PIB, estagnado, abrindo o hiato em relação ao resto do mundo. Não é só porque estamos na armadilha da renda média, que tem um capítulo para falar sobre isso. Estamos presos nessa armadilha e no fim da fila. Hoje, sair dessa armadilha é mais difícil do que foi para os países desenvolvidos no passado. As condições são muito diferentes e o abismo tecnológico é maior e, para piorar, o Brasil não tem mais o bônus demográfico. Essa armadilha é maior aqui. E o Brasil não está crescendo.

A economia está praticamente estagnada do ponto de vista do PIB per capita. A ação estatal, portanto, precisa de mudanças em vários aspectos. É uma ação, muitas vezes, bem-intencionada, mas que acaba gerando mais distorções. E o problema é que, para cada distorção da ação estatal, entra a questão da política que é outro nó. E, para cada meia entrada, para cada regrinha especial, tem dono, e cada vez que se tenta mexer em uma regra que ninguém dá bola, há pressões de corporações e os grupos reagem. Se você pega uma classe média mais representativa, a coletividade tem a capacidade de se organizar para evitar os interesses desses vários grupos organizados de elites que conseguem manter seus privilégios.

E o nó é político, porque é preciso ter um presidente que enxergue a janela para fazer reformas, mas que tenha a capacidade política. O desafio da política é maior do que o técnico. Pesquisas de especialistas e acadêmicos para os diversos nós existem. Sabemos que precisamos acabar com vários nós. Sabemos que é preciso reduzir a insegurança jurídica e que o debate público poderia ter mais qualidade. É verdade. Mas não estamos no escuro, sem saber por onde começar. Tanto que algumas reformas foram feitas. 

E isso vale para a reforma tributária que está sendo discutida há mais de 30 anos…

Sim. Nós sabemos o que tem que ser feito. Claro que, quando se vai no detalhe, fica complexo. Não estou tirando a importância da questão técnica que, muitas vezes, não está suficientemente clara. Quando procurei números para fazer um argumento para o livro, não tem e há vácuo de informação e pesquisas para fazer um diagnóstico. Mas o nó principal não é esse. O nó principal é não ter uma democracia forte o suficiente, com espaço para barganha política, sem capacidade para construir consenso e enfrentar diversos grupos de interesses, o que é mais difícil. O grande beneficiário não sabe. Há muitos benefícios dispersos. Mas, respondendo à sua pergunta.

Quando olhamos a economia praticamente estagnada e a vergonha dos indicadores sociais, essa questão do liberalismo colocado pelo governo Bolsonaro e o ministro Paulo Guedes, de uma forma pouco acabada, infelizmente, mas de qualquer forma, aquilo que aconteceu em 2018 mostrou que tem uma parcela da sociedade que não compra mais aquele discurso intervencionista nacional-desenvolvimentista. Tem um capítulo do livro que trata do debate público. Hoje, o debate público, pode não ser o dos sonhos, falta muito para melhorar do ponto de vista técnico, não se pode comparar com o passado que tinha a defesa, o tempo todo, de intervenção estatal.

Hoje, o estado tem que deixar de atrapalhar e procurar menor intervenção estatal. E isso está presente. Eu vejo um amadurecimento do debate público, ainda que apontando a necessidade de uma melhor qualificação técnica. Mas existe. E, hoje, também há maior concorrência na política. Não vou discutir o momento atual, mas vamos pensar em um exemplo bem simples. Possivelmente, se não tivéssemos o Estado de São Paulo correndo atrás para comprar vacinas para produzir, talvez o governo federal tivesse demorado muito mais para combater a pandemia.

Quando viram a movimentação de São Paulo, houve um senso maior de urgência em busca da vacinação contra a covid-19. Nesse sentido, a concorrência da política é saudável. Hoje, vemos grupos diferentes hoje, e que vão criando nomes da política que vão surgindo e criando esse espaço para fortalecer a nossa democracia. Tem elementos que eu acho que dá para dizer que o Brasil é um país que está nessa armadilha de crescimento baixo muito séria, mas, ao mesmo tempo, tem elementos que podem e devem ajudar a melhorar a ação estatal.

Falando das nossas armadilhas e das nossas escolhas, onde entram as próximas eleições nesse contexto? Pode ser um ponto de virada?

Uma forma de colocar é um ponto que eu coloco em um artigo é que, as últimas eleições nossas pecaram muito. Elas não passaram no teste democrático no sentido, não dos ataques, porque isso faz parte, mas tem limites. Mas quando pregamos a forma como a máquina pública foi utilizada para a eleição e a reeleição da ex-presidente Dilma Rousseff. A Lei de Responsabilidade Fiscal foi rasgada e não tivemos órgãos de controle para dizer que isso não podia.

Nas últimas eleições, a forma como os militares se envolveram e a Lava-Jato, em 2018, são coisas que, ao meu ver, distorceram o jogo eleitoral e são prejudiciais à democracia. Não estou falando em discussão de urna eletrônica. Do ponto de vista da qualidade da campanha eleitoral dos últimos anos, foi muito ruim. Neste ano, vamos ver. Uma coisa são os ataques, que fazem parte. Outra, é alimentar coisas que desequilibram a concorrência, dividem a sociedade, que é ruim para a democracia.

Se ficarmos nós contra eles, o tempo todo, e essa sociedade continuar tão dividida, dificulta muito a aprovação de reformas. E um terceiro elemento que, o tempo todo vem sendo alimentado é o antagonismo da nossa sociedade. Eu acho que isso é um veneno.

E a senhora acha que esse antagonismo vai se repetir nas próximas eleições?

A ver. Tenho esperança de que não. Mas é claro que o risco está aí. Vamos ver como vai ser. E se for, de novo isso, eu fico preocupada, porque isso vai dificultar a coesão da sociedade, que é algo importante.

E isso compromete ainda mais o futuro do país, né?

É. Eu estou muito preocupada com isso. Uma coisa é a divergência política, isso faz parte e é saudável. Ninguém é dono da verdade. O economista vai e faz as pesquisas e descobre a melhor recomendação de política econômica. Outro vai lá e diz que não concorda. Esse debate é saudável. E o mesmo na política. Mas o extremismo que temos hoje, que parece que o vizinho vira inimigo, eu não acho que isso é neutro. E tivemos políticos que alimentam ainda mais essa divisão e o antagonismo.

Hoje, não se fala mais em oposição entre esquerda e direita, mas entre rico e pobre. O país demorou para surgir como nação, passamos boa parte da nossa história com movimentos de contestações. O histórico já não ajuda e, agora, vem governantes, desde Vargas, que afirmam: quem não concorda comigo é inimigo. E repetimos isso com Lula e, agora, com Bolsonaro. É um veneno. Você pode até ganhar a eleição, assim, atingiu o objetivo. Mas é preciso lembrar que existe um país para ser governado.

Quando a senhora citou o descumprimento da LRF no governo Dilma, no ano passado tivemos um quadro parecido ou pior em que as regras fiscais, principalmente o teto de gastos, também foram desrespeitadas, com a PEC dos precatórios e a pedalada bilionária das dívidas judiciais da União. Não foi um retrocesso também?

Tivemos um retrocesso. Mas ainda que, bem ou mal, ainda que enfraquecida, a regra do teto ainda está aí, com limitação para o crescimento das despesas. Apesar disso, ela ainda está lá. Não podemos comparar com o que foi feito no governo Dilma. Foi vergonhoso. Não tinha a regra do teto, mas tinha uma regra de responsabilidade fiscal. E tem uma coisa que, nesse aspecto, do ponto de vista da importância da disciplina fiscal e o compromisso do presidente com essas regras. O que acontece é que, agora, a camisa de força é mais forte e acho também que, apesar das críticas, ainda há um time econômico, mesmo que enfraquecido, com mais compromisso com a disciplina fiscal do que a equipe da Dilma, que acreditava que tinha que gastar.

O discurso do PT é esse e essa é a marca. Eles acreditavam nesse diagnóstico, mesmo com todas as indicações de baixa qualidade do gasto público, até para investimento. Até para investimentos, o país ainda gasta mal. E, nessa questão fiscal, apesar das minhas críticas e identificar que houve sim retrocesso no nosso regime fiscal, não foi rasgar como no governo Dilma, a disciplina fiscal. Naquela época, chegamos à inflação de dois dígitos e Selic de 14,25% ao ano pelos nossos erros apenas. Agora, tem uma questão mundial junto.

Mas, agora, tivemos retrocesso fiscal também. Mas lá atrás, era tudo “made in Brazil”. Houve uma gestão temerária das contas públicas e para fazer política pública que não trouxe crescimento econômico e sim uma recessão, na minha opinião, foi a maior da história. Apesar de tudo, nessa questão fiscal, seria injusto colocar o Bolsonaro e a Dilma no mesmo patamar, ainda que parte disso não seja mérito do Bolsonaro, mas porque há regras fiscais que amarram. Hoje, a Dilma não conseguiria repetir o que ela fez no passado. Acho que tem um mérito de um esforço de tentar segurar um pouco. Mas, infelizmente, agora, em ano eleitoral, a política econômica foi terceirizada para o Congresso.

Mas, agora o brasileiro está preparado para fazer boas escolhas e não repetir os erros neste ano nas urnas?

Olha, essa seara, para mim é difícil, para mim, como economista, avaliar. Mas, de qualquer forma, quando a gente fala em escolhas da sociedade, eu acho que a sociedade está mais madura após a covid-19. Acho que a pandemia também pode ter sido um fator de mudança de patamar para avaliar o funcionamento da máquina pública e mostrar que não é qualquer política. É preciso ter um mínimo de ciência nas coisas. Acho que a pandemia ajudou nesse amadurecimento. Tem ainda essa questão da polarização ainda alimentada, que eu acho que é menor do que na eleição passada. Ainda existe, é ruim, mas espero que ela não seja realimentada nessa campanha.

Mas eu acho que hoje temos uma sociedade mais madura. A questão de fazer boas escolhas vai depender muito da própria capacidade do centro democratico entender as demandas da sociedade. Em 2018, houve a pulverização de candidaturas e uma dificuldade muito grande de entender os anseios da sociedade. Uma parcela significativa dos que elegeram Bolsonaro estava bastante machucada, não apenas pela grave crise do governo Dilma. Havia baixa perspectiva de emprego dos jovens e os investidores com dificuldades para investir no Brasil, lidando com um estado que funciona mal. Minha avaliação é que aquilo que chamamos de centro democrático não conseguiu entender os anseios da sociedade.

Foi omisso desde o segundo mandato de Lula, quando muitas políticas começaram ali, quando vimos o país indo para o buraco. É preciso estar mais conectados com a sociedade para entender a dor da sociedade para terem propostas que atendam a isso de forma responsável. No fundo, isso é uma construção. É preciso também responsabilidade das lideranças, de levar o jogo eleitoral de forma responsável e ter, obviamente, essa conexão com a sociedade. As pessoas, em boa medida, ficaram revoltadas, com o país de joelhos.

E agora estamos de novo nessa polarização e incorrendo no mesmo erro?

Essa discussão é muito complexa. A polarização dificulta o crescimento. No fundo, digamos que vá para esse cenário de Lula e Bolsonaro, que seja de melhor qualidade, com um debate eleitoral não explorando apenas os antagonismos. O Brasil precisa de propostas concretas. Se formos para um debate alimentando o antagonismo, qualquer que for o desfecho, vamos ter problemas.

A forma como se ganha faz diferença na forma de governar depois. Não se pode pensar apenas em ganhar a eleição, sem pensar no dia seguinte. É preciso espírito público. Se os debates não estiverem amadurecidos, haverá dificuldade para o novo governo governar, seja ele qual for. Não, necessariamente, ao ter uma polarização e estaremos fadados a repetir o erro. Espero que não.

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  • 02/09/2010. Crédito: Breno Fortes/CB/D.A Press. Brasil. São Paulo. SP. Economista da RBS Global Banking & Markets Zeina Latif.
    02/09/2010. Crédito: Breno Fortes/CB/D.A Press. Brasil. São Paulo. SP. Economista da RBS Global Banking & Markets Zeina Latif. Foto: Breno Fortes/CB/D.A Press
  • 02/09/2010. Crédito: Breno Fortes/CB/D.A Press. Brasil. São Paulo. SP. Economista da RBS Global Banking & Markets Zeina Latif.
    02/09/2010. Crédito: Breno Fortes/CB/D.A Press. Brasil. São Paulo. SP. Economista da RBS Global Banking & Markets Zeina Latif. Foto: Breno Fortes/CB/D.A Press

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