indicadores sociais

Interrupção do Auxílio Brasil, em 2021, reverteu redução da pobreza

Governo comemora estudo do Banco Mundial que aponta diminuição de 11,37 milhões para 4,14 milhões, em 2020, do número de brasileiros vulneráveis. Mas interrupção do Auxílio Brasil, em 2021, reverteu a situação, segundo especialistas

Michelle Portela
postado em 08/11/2022 03:55
 (crédito:  Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Relatório do Banco Mundial mostra que caiu de 11,37 milhões para 4,14 milhões, entre 2019 e 2020, o número de brasileiros que viviam em extrema pobreza. A queda é efeito da concessão do Auxílio Emergencial à população vulnerável durante a pandemia da covid-19. Contudo, especialistas alertam que a situação foi revertida em 2021, quando houve interrupção de políticas de transferência de renda no país.

O Banco Mundial considera em extrema pobreza as pessoas que recebem até US$ 2,15 por dia. A instituição atualizou as linhas de pobreza em outubro, quando foram uniformizados os dados utilizados para todos os países, tendo como base a paridade do poder de compra no ano de 2017 — até então, os números eram de 2011. O relatório aponta que o número de pessoas que viviam em situação de extrema pobreza no Brasil caiu de 5,4% da população em 2019, para 1,9% em 2020.

O estudo foi motivo de comemoração pelo ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira (PP-PI), que foi às redes sociais afirmar que os resultados eram conhecidos pelo governo. "O que sempre falamos, agora é confirmado pelo Banco Mundial: o número de brasileiros abaixo da linha da pobreza caiu no governo Bolsonaro. Em 2020, saímos de 11 para 4 milhões. Já no mundo, (houve) um aumento de 70 milhões de pessoas na extrema pobreza. Uma honra fazer parte dessa história!", afirmou.

"O cuidado com os brasileiros mais pobres é uma marca da gestão do presidente Bolsonaro, mesmo em meio às dificuldades impostas pela pandemia e a guerra na Ucrânia. O governo não poupou esforços para assegurar o pagamento do Auxílio Emergencial, do Auxílio Brasil e de diversos outros benefícios que garantiram o sustento de milhões ao longo desse período difícil. Somente no pagamento do Auxílio Emergencial foram investidos valores equivalentes a 15 anos do programa Bolsa Família", declarou o ministro ao Correio.

A melhora, porém, pode ter sido revertida. O próprio Banco Mundial ressalva que a expectativa para os números de 2021 é diferente: a estimativa dos técnicos é de que o número de pessoas em condição de grave vulnerabilidade tenha atingido 5,8% da população total. Com isso, em 2021, 12,4 milhões de pessoas podem ter ficado na faixa da pobreza extrema. "O auxílio emergencial foi uma resposta rápida e generosa, porém com resultado de curto prazo", comentou Shireen Mahdi, economista líder no Brasil do Banco Mundial, em entrevista à CNN, no último domingo.

Entre 2016 a 2020, o Brasil também foi o país da América Latina que mais diminuiu a extrema pobreza. O Paraguai aparece em segundo lugar, passando de 1% para 0,8%. Atualmente, a maior taxa de extrema pobreza no continente é a da Colômbia, com 10,8%, seguido por Peru (5,8%) e Bolívia (3,1%).

Reversão

Antes de mudar a metodologia, o Banco Mundial utilizava cortes de US$ 1,90, US$ 3,20 e US$ 5,50 de renda diária, segundo o grau de desenvolvimento dos países, para classificar a população em situação de extrema pobreza. Segundo especialistas, a mudança não alterou as tendências de longo prazo. O pesquisador do FGV Ibre Daniel Duque desenvolveu estudos baseados na metodologia anterior do banco e concluiu que houve aumento da pobreza em 2021, durante o período de suspensão do programa de transferência de renda.

A interrupção do programa também deve trazer resultados negativos no atual cenário. "Para o primeiro e segundo trimestres de 2022 não é claro, porque o Auxílio Brasil ainda estava com o benefício de R$ 400. Já no terceiro e quarto trimestre provavelmente vai estar melhor", explicou Duque.

O professor Marcelo Neri, diretor do FGV Social, reforçou que estudos recentes apontam que as políticas de transferência de renda iniciadas durante a pandemia trouxeram alívio à pressão da miséria, mas sua interrupção teve efeitos imediatos entre a população mais pobre. Segundo ele, no final de 2021, a pobreza estava no recorde da série iniciada em 2012.

"Em sua primeira edição, o Auxílio Emergencial de R$ 600 reduziu em 23 milhões, entre março e agosto de 2020, a população em extrema pobreza. Já a sua interrupção elevou a pobreza em 25 milhões até janeiro de 2021", afirmou Néri. "Isto ajuda a entender o efeito fugaz do Auxílio Brasil de R$ 600. O salto da pobreza em janeiro de 2021 parece um trailer de janeiro de 2023, quando termina a nova edição do auxílio", disse o pesquisador.

Flavio Comim, professor da IQS School of Management, de Barcelona, e do Land Economy da Universidade de Cambridge, aponta que uma política de transferência de renda ainda é fundamental para garantir segurança aos brasileiros, mas defende uma abordagem mais ampla do combate à pobreza.

"Nos últimos 15 anos, apenas pensamos na pobreza como pobreza monetária e na transferência de renda, que na realidade é um paliativo, como solução. E sempre que estamos prontos a mudar o patamar de discussão sobre pobreza para uma abordagem mais focada na criação de oportunidades, isso não ocorre. Condenamos, assim, aos pobres a pobreza", reforçou o pesquisador.

Para ele, o novo auxílio deveria ser discutido com base em políticas de desenvolvimento regional, unindo formação de capital humano a estruturas produtivas. "Precisamos de planejamento social e econômico formulados de modo integrado. Enquanto a política de combate a pobreza não fizer parte de uma estratégia de desenvolvimento, ficaremos condenados a distribuir migalhas aos pobres", finalizou.

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