Indústria automotiva

Brasil é mercado estratégico para a chinesa BYD

Montadora chinesa BYD vai lançar em outubro a pedra fundamental da fábrica de veículos híbridos em Camaçari, na Bahia. Produção será voltada também para o mercado externo

Changzhou, China — A cada minuto, em média, um carro elétrico sai pronto da fábrica da BYD em Changzhou, a cerca de 180 quilômetros de Xangai, China. A planta será usada como modelo para a construção da fábrica em Camaçari, na Bahia, cuja pedra fundamental será lançada no início de outubro pelo presidente da companhia, Wang Chuanfu. Altamente automatizada, a produção chega a 240 mil veículos por ano, nos modelos Yuan Plus e Seal, carros que (ainda) não foram lançados no Brasil.

O Correio visitou a fábrica chinesa. Chama atenção a autonomia da montagem e a quantidade de robôs japoneses e alemães empregados na produção, além da organização e limpeza do local. Na maioria dos setores, os poucos funcionários que podem ser vistos atuam principalmente na supervisão dos braços robóticos e na inspeção das peças produzidas. A montagem final é o processo que requer mão de obra mais intensiva, no qual grupos de três a quatro operários — jovens, em sua maioria — instalam peças como eixos, estofados, vidros e o coração do veículo elétrico: a bateria. Leva cerca de quatro horas para o carro ser completamente fabricado.

Apesar da automação, 12 mil funcionários trabalham na fábrica, que abrange uma área de 1,72 milhão de metros quadrados. A versão brasileira deve empregar diretamente cerca de 5 mil pessoas, segundo estimativa da BYD. Até o momento, mais de 44 mil currículos já foram enviados à empresa. Além da linha de montagem, cubículos com grandes janelas de vidro reúnem os funcionários administrativos, de logística e engenheiros. Decoram as paredes da fábrica marcos históricos da produção, como os veículos de energia limpa (híbridos e elétricos) de número 1 milhão, 3 milhões e 5 milhões já fabricados pela marca, além de quadros dos funcionários-destaque da fábrica.

Segundo a BYD, a fábrica de Changzhou, uma das oito que produzem carros de passeio na China, "serve de modelo para as futuras fábricas no exterior". A planta brasileira será a primeira fora da Ásia, e um degrau importante para os planos de expansão da chinesa para o mercado mundial. Em seu país, a companhia já é a maior vendedora de carros, tendo superado, neste ano, a Volkswagen.

Segredos industriais

Também fica clara, no local, a preocupação chinesa com segredos industriais. Visitantes devem colar adesivos nas câmeras de seus celulares, inclusive nas frontais, e a linha de produção é pontuada por diversos avisos de que é proibido tirar fotos no local. Nem mesmo na área externa da fábrica é permitido fotografar.

Assim como Camaçari, Changzhou não foi escolhida à toa como sede da fábrica, localizada no mais moderno parque industrial da cidade. Mais de 1.300 indústrias estrangeiras e 5 mil chinesas estão instaladas no distrito. Do porto de Xangai saem os veículos exportados para Brasil, Tailândia, Noruega e Malásia, entre outros países. Da mesma forma, Camaçari fica a cerca de 50 quilômetros do porto de Salvador e também possui um polo industrial pujante. "Cada fábrica tem suas vantagens em relação à localização geográfica e recursos, e as instalações de fabricação selecionadas são determinadas pela estratégia da empresa", informou a greentech chinesa.

Expansão

A fábrica de Camaçari produzirá, inicialmente, os modelos Dolphin e Song Plus, ao ritmo de 150 mil unidades por ano. A produção em solo brasileiro é fundamental para a estratégia de expansão da BYD, acelerada em 2023. "O Brasil também é muito importante pela posição geográfica. É o centro da América do Sul, então pode ser um centro de produção não apenas para o Brasil, mas para todos os países ao redor", comentou a vice-presidente global da BYD e CEO da empresa nas Américas, Stella Li, durante coletiva de imprensa em Shenzhen, China, na sede da companhia.

A fábrica será montada no local onde ficava o complexo da Ford, empresa americana que fechou a produção brasileira em 2021. Na realidade, serão três fábricas em um mesmo local: uma para produzir carros de passeio, uma para chassis de ônibus e caminhões, e outra para o beneficiamento e lítio e ferro fosfato, matérias-primas para a produção de baterias.

Pesquisa e Desenvolvimento

Em Salvador, a BYD abrirá ainda um centro de desenvolvimento e pesquisa. "A cidade de Salvador vai virar o Vale do Silício do Brasil. Ela vai se tornar o centro de inovações do Brasil, e também da América do Sul", pontuou Stella Li. Um dos objetivos do local é desenvolver um motor híbrido flex, ou seja, que possa funcionar também a etanol para se adaptar ao mercado brasileiro.

O Correio também visitou um dos centros de pesquisa da empresa em Shenzhen, local onde são realizados testes de colisão e segurança dos veículos, além de ruído e vibração. Assim como na fábrica, é proibido tirar fotos. Bonecos de teste que custam mais de 1 milhão de yuans (cerca de R$ 670 mil) são utilizados para medir a segurança dos veículos, jogado contra obstáculos sólidos por esteiras. Em uma câmara isolada, os engenheiros estudam a emissão de radiação dos veículos. Em outra, anecóica (sem eco e isolada acusticamente), medem a emissão de ruídos dos carros.

Investimentos

Para o gerente-geral da divisão de Marketing e Relações Públicas da BYD, Eric Li, o investimento pesado em pesquisa e desenvolvimento pela empresa foi responsável pelo que ele chama de "milagre" da empresa a partir de 2019. De 2018 para cá, foram mais de 8,5 bilhões de yuans (R$ 5,7 bilhões) investidos no setor.

"A BYD possui, atualmente, cerca de 70% das patentes de veículos de energia limpa da China. É um dos elementos que fizeram a empresa entrar para o Top 50 das maiores marcas chinesas globais", afirmou Eric Li. Ele destacou também que, dos 600 mil funcionários da empresa pelo mundo, 90 mil são dedicados a pesquisa e desenvolvimento.

O repórter viajou a convite da BYD