MERCADO

Big techs turbinam corrida pela IA com investimento bilionário

Gigantes do setor de tecnologia anunciaram planos de investimento sem precedentes, que somam US$ 650 bilhões em 2026

Quatro das maiores empresas de tecnologia dos Estados Unidos anunciaram planos de investimento para 2026 com foco quase integral em inteligência artificial (IA). Somados, os aportes chegam a US$ 650 bilhões, valor superior ao Produto Interno Bruto (PIB) de países como Israel e mais de três vezes o que 21 grandes companhias norte-americanas, entre montadoras e grupos como Exxon Mobil e Walmart, prevêem investir neste ano.

Os recursos serão direcionados, principalmente, à construção e aquisição de infraestrutura, como data centers, chips, cabos de rede e sistemas adicionais de geração de energia. Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft detalharam esses planos ao divulgar seus balanços financeiros de 2025, reforçando a disputa entre as big techs por protagonismo em um mercado de IA ainda em consolidação. O anúncio mais recente foi o da Amazon, que sozinha projeta investir US$ 200 bilhões em inteligência artificial.

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O movimento representa um ciclo de investimentos sem precedentes neste século e ocorre em meio a questionamentos sobre o custo elevado do desenvolvimento dessas tecnologias, seus usos futuros e se os consumidores, de fato, pagarão pelos serviços oferecidos. As respostas a essas dúvidas têm impacto direto sobre o mercado financeiro.

Nos últimos três anos, o índice S&P 500 acumulou alta expressiva de US$ 30 trilhões em valor de mercado, impulsionado sobretudo por empresas de tecnologia como Alphabet Inc. e Microsoft Corp., além de companhias beneficiadas pela expansão da infraestrutura de IA, entre elas as fabricantes de chips Nvidia e Broadcom Inc., e fornecedoras de energia elétrica como a Constellation Energy Corp. Caso esse ritmo desacelere, o efeito tende a se refletir nos principais índices de ações.

No centro desse ecossistema está a OpenAI, que planeja gastar US$ 1,4 trilhão nos próximos anos. Apesar de ter se tornado, em outubro, a startup mais valiosa do mundo sob a liderança de Sam Altman, a empresa registra receitas muito inferiores aos seus custos operacionais. Segundo o portal The Information, a expectativa é de queimar cerca de US$ 115 bilhões até 2029, antes de a empresa começar a gerar caixa, apenas em 2030.

Até o momento, a OpenAI não enfrentou dificuldades para captar recursos, tendo arrecadado valor de US$ 40 bilhões junto ao Softbank Group Corp. e outros investidores no início deste ano. A Nvidia, por sua vez, prometeu investir até US$ 100 bilhões em setembro, em acordos voltados a financiar clientes, movimento que tem levantado preocupações sobre possíveis práticas de financiamento circular na indústria de IA.

Euforia tecnológica

Na leitura do doutor em Comunicação e professor da disciplina Inteligência Artificial e Transformação Digital da Faculdade Senac-DF Paulo Almeida, o atual ciclo de investimentos em inteligência artificial combina, ao mesmo tempo, mudança estrutural e riscos típicos de períodos de euforia tecnológica. Para ele, diferentemente do que ocorreu nos anos 1990, a IA já ultrapassou a fase experimental e passou a ocupar um papel central na economia digital. "Os dois fenômenos coexistem. Há, sim, uma transformação estrutural da economia digital, porque a inteligência artificial deixou de ser experimental e passou a integrar processos centrais de produtividade, dados, logística, saúde, finanças, educação e serviços públicos. Diferentemente da bolha da internet dos anos 1990, a IA já gera ganhos reais de eficiência e redução de custos", afirmou.

Ainda assim, Almeida pondera que o risco de supervalorização não pode ser descartado, sobretudo em segmentos que prometem retornos rápidos sem bases sólidas. "Existe risco de supervalorização em segmentos específicos, especialmente em startups e aplicações que prometem mais do que conseguem entregar no curto prazo. A diferença é que, mesmo que ocorram correções de mercado, a infraestrutura construída — data centers, chips, modelos e talentos — tende a permanecer e sustentar a próxima fase de crescimento", disse.

Na avaliação do economista e sócio da Valor Investimentos Davi Lelis, o volume de recursos anunciado pelas big techs reacende a discussão sobre a possibilidade de uma bolha no setor, mas o cenário atual difere de episódios históricos clássicos. Segundo ele, a própria existência do debate já indica um grau maior de racionalização por parte do mercado. "Historicamente, bolhas surgem quando ativos são comprados apenas pela expectativa de revenda mais cara no futuro, sem relação com valor real, como ocorreu na bolha das tulipas na Holanda ou na bolha das empresas ponto com no início dos anos 2000", afirmou.

Para Lelis, o volume de investimentos chama atenção, mas não caracteriza, por si só, um fenômeno especulativo clássico. Ele destacou que o mercado tem questionado a sustentabilidade desses aportes justamente por causa da magnitude envolvida. "O investimento anual do Google, que é de cerca de US$ 185 bilhões, é maior que o PIB de países inteiros e supera, em valores ajustados, gasto do Plano Marshall para reconstruir a Europa no pós-guerra. Isso explica por que o mercado está cauteloso", disse.

O economista também diferenciou os tipos de IA que estão no centro dessa corrida. "A inteligência artificial generativa é a que ganhou destaque recentemente, mas a inteligência artificial preditiva existe há muitos anos e já gera lucro", disse.

É ela que sugere vídeos, músicas e filmes de acordo com o perfil do usuário em plataformas de redes sociais e serviços de streaming de música, filmes e séries. Essa tecnologia já é consolidada e rentável", explicou. Já a IA generativa, segundo ele, ainda está em fase de desenvolvimento e concentra expectativas futuras de monetização.

Modelo circular

Nesse contexto, Lelis apontou a forte concentração de resultados nas chamadas "Magnificent Seven", Nvidia, Microsoft, Apple, Google, Amazon, Meta e Tesla, como um fator de risco sistêmico. "Hoje, quase todo o ganho do S&P 500 está concentrado nessas sete empresas. Isso não é necessariamente uma bolha, mas caracteriza um mercado estreito, em que poucos ativos puxam todo o desempenho", afirmou.

Ao tratar do papel da Nvidia, o economista destacou a relação direta entre os investimentos das big techs e os resultados da fabricante de chips. "A Nvidia é um ponto fora da curva, porque tem margens de lucro líquido acima de 50%, sustentadas pelo monopólio das GPUs. O que é lucro para a Nvidia é capex (despesas de capitais) para as outras empresas. Google, Microsoft e Meta gastam bilhões comprando esses chips, e isso sustenta o resultado da Nvidia", explicou.

Segundo Lelis, esse modelo cria um risco circular. "O dinheiro está circulando dentro do próprio setor de tecnologia. As big techs pagam a Nvidia, mas ainda não está claro quem vai pagar essas empresas pelos produtos de inteligência artificial a ponto de cobrir esses gastos. Essa é a pergunta de US$ 600 bilhões", disse. Ele alertou que, caso a monetização não acompanhe o ritmo dos investimentos, a interrupção das compras de infraestrutura pode provocar impactos imediatos em toda a cadeia.

Apesar disso, o economista ressaltou que a força de oferta e demanda tende a se impor. "O mercado achou que a inteligência artificial generativa acabaria com o Google, mas aconteceu o contrário. A empresa se reinventou, lançou o Gemini e conseguiu preservar seu modelo de negócios. Isso mostra que, havendo demanda, a oferta encontra formas de gerar receita", afirmou.

Para Lelis, o principal risco está menos em uma bolha financeira tradicional e mais em uma possível bolha de infraestrutura. "Estamos construindo data centers e capacidade energética para uma demanda futura que ainda não existe. Se a inteligência artificial não monetizar nos próximos 18 a 24 meses, podemos ter capacidade ociosa e reprecificação forte das ações", disse.

*Estagiário sob a supervisão de Victor Correia

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