
Embora o drift (ou drifting) ainda seja tratado como um nicho dentro do automobilismo, novos levantamentos de mercado indicam que a modalidade deixou de ser apenas um esporte alternativo para se tornar um negócio global em expansão. Mesmo com a escassez de estatísticas públicas que isolem o "drift puro" de outros segmentos do esporte a motor, relatórios internacionais ajudam a dimensionar o tamanho econômico da atividade — e projetam um crescimento consistente nos próximos anos.
Um dos principais indicadores vem de um estudo da consultoria internacional Wise Guy Reports, especializada em análises de mercado. Segundo o levantamento, o mercado global de carros de drift foi avaliado em aproximadamente US$ 799,2 milhões em 2024. A projeção é que esse volume chegue a cerca de US$ 1,5 bilhão até 2035, com uma taxa média de crescimento anual (CAGR) estimada em 5,9%.
Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular
Esse tipo de relatório é construído a partir da consolidação de dados de fabricantes, equipes, campeonatos, vendas de veículos preparados, tendências de consumo e entrevistas com agentes do setor automotivo e esportivo. A pesquisa reflete principalmente a demanda por carros adaptados ou desenvolvidos especificamente para a prática do drift, além de atividades diretamente ligadas às competições.
Já um segundo estudo, elaborado pela Business Research Insights, amplia o escopo da análise e aponta números ainda mais expressivos. O relatório projeta que o mercado global relacionado a carros de drift pode alcançar US$ 115,72 bilhões em 2026, com expectativa de crescimento para US$ 216,39 bilhões até 2035, registrando um CAGR de 7,2% no período.
A diferença entre os estudos está na metodologia: esse último não se limita apenas aos veículos em si, mas engloba todo o ecossistema da cultura drift, incluindo componentes automotivos, peças de performance, serviços especializados, eventos, produtos licenciados, acessórios, personalização, além da cadeia de entretenimento e marketing ligada ao esporte. Ou seja, trata-se de uma visão mais ampla, que considera o drift como indústria cultural e econômica.
Outro indicador relevante aparece no segmento de acessórios especializados, especialmente as rodas desenvolvidas para a modalidade. Com base em dados do setor automotivo esportivo, o mercado de rodas específicas para uso no drift racing foi avaliado em cerca de US$ 1,24 bilhão em 2024. A previsão é que esse valor possa chegar a US$ 2,5 bilhões até 2035, impulsionado pelo aumento da personalização de veículos, da profissionalização do esporte e do crescimento de eventos e competições ao redor do mundo.
Força no Brasil
O drifting desembarcou no Brasil pela porta do entretenimento. Não foi pelas pistas, tampouco pelas federações. Veio do cinema. Em 2006, Velozes e Furiosos: Desafio em Tóquio apresentou ao grande público um tipo de automobilismo distante da lógica tradicional da velocidade pura. O que se via na tela era controle, estética e excesso calculado.
Desde então, o drift vem deixando de ser uma prática restrita a entusiastas para se consolidar como um segmento em crescimento dentro do automobilismo esportivo e do entretenimento. Embora ainda faltem dados estatísticos oficiais que isolem a modalidade no mercado nacional, o avanço pode ser percebido na multiplicação de eventos, no aumento do público, no fortalecimento de oficinas especializadas e no interesse crescente de marcas e patrocinadores.
Aqui no Brasil, esse fascínio encontrou terreno fértil. A cena automotiva já tinha forte ligação com personalização e encontros informais, e drift se encaixou como expressão técnica e cultural. No início, ocupou espaços improvisados, longe dos holofotes e da estrutura oficial do automobilismo.
Com o tempo, a prática amadureceu. Pilotos passaram a investir em carros específicos, com tração traseira, ângulo de esterço ampliado e motores preparados. Eventos migraram para autódromos. A informalidade deu lugar a regulamentos, juízes e critérios claros de avaliação. Hoje, o drifting brasileiro vive uma fase de consolidação. Competições oficiais, categorias bem definidas e maior preocupação com segurança indicam que o esporte deixou a margem. Já não é apenas exibição ou manobra radical: é competição estruturada.
Eventos culturais
Esse desempenho é impulsionado não apenas pelas competições, mas também pelo fortalecimento de uma cadeia econômica que envolve oficinas especializadas, fabricantes de peças de alto desempenho, organizadores de eventos e marcas que apostam no apelo visual e técnico do drift.
Um exemplo recente desse avanço é a realização de eventos que combinam automobilismo, entretenimento e cultura pop, ampliando o alcance do esporte para além do público tradicional. O Desafio Jota Racing levou velocidade, drift, shows, motocross e luta ao Speedway Music Park, em Balneário Camboriú (SC), em dezembro.
Criado por Jonathan Neves, o JJ, campeão brasileiro de drift e piloto reconhecido internacionalmente, o desafio prometeu uma fusão entre performance, narrativa e emoção real. "Eu já sonho com esse evento há muitos anos e sempre pensei fazer o piloto aqui, porque sempre que acontece um grande evento automobilístico, a gente tem que ir para São Paulo ou outras grandes capitais. Então fiz questão de fazer a primeira edição em Santa Catarina, e deu certo, teremos grandes influenciadores e pilotos internacionais", contou JJ.
Ao Correio, o piloto afirmou que investiu cerca de R$ 5 milhões para realizar o evento em Balneário. "De fato, trata-se de um investimento muito elevado, mas hoje já é possível observar, com a participação de grandes empresas multinacionais, que conseguimos rentabilizar, no mínimo, 100% desse valor. Isso considerando apenas uma etapa do projeto, não o conjunto completo. Ou seja, ao realizar uma etapa nesse percurso, em um formato ideal, temos um retorno mínimo de 100%, sem contar as demais etapas que podem ser realizadas", afirmou.
Segundo ele, há expectativa de fazer outras edições do Desafio em capitais diferentes. "O principal obstáculo, além do investimento, é a logística. Para operacionalizar tudo isso, há muita burocracia e o processo é complexo. No entanto, com a rede de profissionais experientes que já reunimos, conseguimos viabilizar essas operações e executar as diferentes versões do projeto. O plano é justamente esse: crescer para algo muito maior e levar o esporte, de fato, a outro nível", completou.
Uma das capitais que mais divulgou a cultura do drift foi Brasília. Em novembro de 2025, a capital recebeu a final da temporada do Mega Drift Brasil no Parque da Cidade. O Mega Drift, que chegou na sua quarta edição, foi organizado por Gustavo Carvalho, que também é piloto aposentado. Ele destacou que a capital federal é um celeiro de talentos. "Brasília respira automobilismo. Só aqui temos mais de 30 competidores", acrescentou.

Economia
Economia