
Apesar de reduzir a taxa básica da economia (Selic) para 14,75% ao ano, na semana passada, o Banco Central demonstrou, na ata da reunião que decidiu pela redução, mais cautela e reforçou a preocupação com os impactos da nova guerra no Oriente Médio, em especial, na inflação, devido ao aumento "considerável" das incertezas. No documento, divulgado nesta terça-feira (24), o BC não deu a sinalização futura (forward guidance) sobre a decisão da próxima reunião do colegiado, no fim de abril, e nas seguintes, como na reunião anterior, de janeiro.
"A incerteza com relação ao cenário externo se elevou consideravelmente. Além do agravamento das tensões geopolíticas, novas incertezas com relação à política econômica dos Estados Unidos colaboraram para tornar esse cenário ainda mais incerto", destaca o documento, que retirou o trecho em que deixava a sinalização para a reunião seguinte, diante da indefinição sobre o fim do conflito no Oriente Médio.
Na semana passada, o Copom decidiu, por unanimidade, reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual. Foi a primeira redução nos juros básicos desde maio de 2024, mas a autoridade monetária piorou as projeções para a inflação deste ano.
As novas projeções do cenário de referência do BC indicam a inflação oficial medida pelo ìndice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 3,9% no acumulado de 2026, acima da registrada na ata da reunião anterior, de 3,4%. E, para o terceiro trimestre de 2027, atual horizonte relevante de política monetária, a perspectiva subiu de 3,2% para 3,3%.
"Após debater alterações no balanço de riscos, o Comitê julgou apropriado seguir com serenidade e reunir mais informações ao longo do tempo, em função da incerteza elevada em relação à evolução de seus elementos", destacou o documento, ao justificar a decisão.
Despesas públicas
O Banco Central também manteve a preocupação com o impacto da polítca fiscal, "majoritariamente por meio de estímulo à demanda agregada, e uma dimensão mais estrutural, que tem potencial de afetar a percepção sobre a sustentabilidade da dívida e impactar o prêmio a termo da curva de juros". Além disso, reforçou a preocupação com o equilíbrio entre a polítca fiscal e a monetária, a fim de colaborar para a redução do prêmio de risco favorece a convergência da inflação à meta.
"O Comitê manteve a visão de que o esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal, o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros neutra da economia, com impactos deletérios sobre a potência da política monetária e, consequentemente, sobre o custo de desinflação em termos de atividade", destacou o texto.
O economista-chefe da Lev Intelligence, Jason Vieira, avaliou que o comunicado do BC foi bastante cauteloso. "A ata do Copom reforçou uma comunicação claramente cautelosa, destacando que o início do processo de redução da Selic representa uma calibração da política monetária ainda em terreno contracionista", afirmou. Ele lembrou que o Comitê enfatizou o aumento da incerteza global, "especialmente após a escalada do conflito no Oriente Médio, e reforçou que o processo de flexibilização dependerá da evolução das expectativas de inflação e da atividade econômica".
A economista-chefe do UBS, Solange Srour, destacou que, na ata, chama atenção, ainda, o fato de que a comunicação do Comitê não parece contemplar, neste momento, a possibilidade de uma pausa no ciclo, nem mesmo como alternativa condicional. "A forma como a decisão e a sinalização foram estruturadas sugere que o Banco Central não trabalha hoje com esse cenário, tampouco deixou espaço explícito para esse tipo de dúvida", destacaou, em relatório a clientes.
"De forma geral, a ata preserva um tom de serenidade e continuidade, o que é compreensível do ponto de vista de uma tentativa de manter a comunicação compatível com um cenário incerto. Ainda assim, nossa leitura sugere que o ambiente atual exige um grau ainda maior de prudência analítica", acrescentou ela.

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