Política monetária

Guerra ameaça frear queda da taxa de juro

Conflito no Oriente Médio pode atrapalhar redução da Selic neste ano. Especialistas voltam a revisar as projeções, preveem uma possível volta de aumento da taxa básica e consideram um piso de 13% no fim de dezembro

Ao contrário das afirmações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, após o início dos ataques ao Irã, em parceria com Israel, em 28 de fevereiro, o novo conflito no Oriente Médio não tem dado sinais de que acabará em breve. E, com isso, o petróleo segue em patamares elevados, acima de US$ 100, gerando pressões inflacionárias pelo planeta e deixando os bancos centrais em alerta ao redor do mundo.

No Brasil, o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, reduziu o ritmo do afrouxamento monetário inicialmente previsto e não deu sinais se continuará cortando os juros na próxima reunião, em abril. Alguns bancos centrais já começaram a aumentar juros como remédio para as pressões inflacionárias que estão crescendo. Enquanto isso, nos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed) parou de cortar os juros e deixou dúvidas se retomará o ciclo de afrouxamento monetário neste ano.

Não à toa, analistas brasileiros voltaram a elevar as projeções para a taxa básica da economia (Selic) no fim deste ano, que passou de 12,25% para 12,50% ao ano, na semana passada, e a tendência é de que um novo piso passa a ser considerado, de 13% ao ano.  

Ao reduzir a Selic de 15% para 14,75% ao ano, na segunda reunião de 2026, nos dias 17 e 18 deste mês, o Copom fez um corte de 0,25 ponto percentual, menor do que o sinalizado na reunião anterior, e o colegiado justificou a medida devido, principalmente, ao aumento das incertezas no cenário externo devido aos conflitos no Oriente Médio. 

Na reunião de janeiro, analistas do mercado interpretaram que a decisão do colegiado indicava um corte maior, de 0,50 ponto percentual. Mas, como o preço do petróleo segue em disparada — o do tipo Brent, referência para os preços da Petrobras, encerrou a semana cotado a US$ 105,32 o barril, valor 3,37% acima do valor da véspera e salto de 43,8% sobre a cotação de 27 de fevereiro, véspera dos ataques —, economistas voltam para as planilhas para revisar as projeções para inflação oficial e para a Selic no fim do ano. Além disso, reforçam os alertas sobre os riscos inflacionários que estão no radar diante da perspectiva de uma nova guerra sem prazo para acabar entre Estados Unidos, Irã e Israel. 

Apesar de manter a previsão para taxa Selic no fim do ano em 13%, Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, não descarta aumento dos juros se o conflito no Oriente Médio se estender ao longo do ano. Ele, que vinha prevendo a Selic mais elevada do que a maioria do mercado, ressaltou que o movimento de revisões para cima voltou à tona porque essa guerra vai demorar mais do que o previsto. 

"Estou mantendo, por enquanto, a previsão para a Selic no fim do ano em 13%, entretanto, o risco de 13% ser o piso para os juros neste ano tem aumentado, e, se houver um cenário externo mais grave pela frente, o Banco Central poderá até voltar aumentar os juros", alertou.

Vale reconheceu que os últimos desdobramentos no Oriente Médio indicam que vai ser complicado um desfecho rápido para essa nova guerra. "Há sinais de que não existe uma solução fácil nesse conflito. Essa é uma guerra que tende a durar ainda mais algum tempo, não se sabe quanto, mas, quanto mais ela durar, haverá mais incertezas, e os preços de combustíveis sobem e também o de alguns alimentos. Com isso, o Banco Central vai ter que começar a pensar não só em parar de reduzir a taxa de juros, mas, eventualmente, começar a subir", explicou. 

Combustíveis

De acordo com Vale, é preciso lembrar que, ao contrário dos EUA, onde o aumento do combustível na bomba é automático, por aqui, a Petrobras ainda não repassou os aumentos nos preços do petróleo integralmente. E, por isso, o impacto na inflação ainda não está batendo forte no bolso dos consumidores. "Mas, em algum momento, a Petrobras vai ter que fazer o repasse de preços para o consumidor. Se a guerra demorar demais, ela não vai conseguir incorporar todos os custos dentro da empresa. Por isso, o cenário pela frente para o Banco Central vai ficar mais complicado. A inflação voltou a rodar em torno de 4%  e pode caminhar para um patamar cada vez mais alto", complementou.

Conforme dados da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), até sexta-feira, as defasagens dos preços praticados aqui em relação ao exterior estão em 61%, no caso do diesel, e em 43%, no da gasolina. Ou seja, seria preciso reajustes nesses percentuais nos combustíveis para que os preços internos sejam equiparados aos do mercado internacional. E isso não está acontecendo porque, apesar de os estados ainda não concordarem com redução no Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços — que mais pesam no preço dos combustíveis —, o governo federal zerou os impostos federais PIS-Cofins sobre o diesel, e a Petrobras está absorvendo essas variações nos preços, principalmente da gasolina, que ainda não sofreu reajuste para as distribuidoras de combustíveis. 

Na quinta-feira passada, o Banco Central divulgou o Relatório de Política Monetária (RPM) elevando de 3,5% para 3,9% as novas projeções de inflação para este ano. A previsão, contudo, foi considerada "dovish" (tolerante com a inflação) pelo mercado, tanto que algumas estimativas retornaram para o teto da meta, de 4,5%. No boletim Focus, a estimativa do BC de 3,9% para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) era a mediana para a expectativa de inflação de cinco semanas atrás, pois, na passada, já essa perspectiva estava em 4,17% e, segundo analistas, tudo indica que ela continuará subindo. 

O economista Fábio Romão, analista da consultoria Logos Economia, por exemplo, acaba de revisar de 4,3% para 4,5% a projeção para o IPCA acumulado deste ano, muito em virtude dos recentes desdobramentos do conflito no Oriente Médio nas cotações do petróleo e os impactos na cadeia de bens e serviços.  Segundo ele, as projeções para a Selic no fim deste ano também foram revisadas para cima: de 12,25% para 12,50%. "Também modificamos a aposta para a terceira reunião do ano do Copom, de um corte de 0,50 ponto percentual para um novo corte de 0,25 ponto percentual", acrescentou.

Timing

Eduardo Velho, economista-chefe da Equador Investimentos, por sua vez, também elevou recentemente as projeções para o IPCA. Destacou que o ritmo de corte na taxa Selic nas próximas reuniões do Copom vai depender do timing do conflito. Contudo, para o próximo Copom, em abril, o consenso no mercado é de mais um corte da mesma magnitude, de 0,25 ponto percentual, levando os juros básicos para 14,50% ao ano.

"Os juros lá fora já estão subindo e podem aumentar, caso a guerra se prolongue mais do que o esperado. Por isso, é natural que o mercado fique receoso e espere que o BC possa voltar a manter os juros estáveis ou mesmo diminuir o tamanho do ciclo de queda (da Selic), e com isso, ela fique entre 13% e 13,50% (ao ano no fim de dezembro)", frisou Velho.

Na avaliação dele, como estamos em um ano eleitoral, dificilmente o Banco Central vai aumentar os juros, "pois todos os diretores foram escolhidos pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)", que vai tentar se reeleger.

Para Velho, o conflito no Oriente Médio não deve se prolongar muito e, por conta disso, ele mantém a aposta de que a Selic poderá terminar o ano em 11,75%, previsão acima da mediana das estimativas do mercado coletadas no boletim Focus, do Banco Central, de 12,50%. Por outro lado, ele reconhece que as projeções de inflação tendem a continuar sendo revisadas para cima, pois um aumento de 10% nos combustíveis elevaria o IPCA para 4,32% no fim do ano, no mínimo.

Drama

O economista-chefe da G5 Partners, Luis Otávio Leal, ressaltou que a decisão do banco central da Austrália, na semana passada, que elevou os juros em 0,25 ponto percentual, para o intervalo de 3,85% a 4,10% ao ano, resume o drama dos bancos centrais diante da guerra no Oriente Médio e, principalmente, o fechamento do Estreito de Ormuz. Houve uma divisão, pois cinco membros votaram pela elevação dos juros e quatro pela manutenção, e a justificativa do BC australiano foi que "globalmente, o conflito do Oriente Médio representa riscos significativos em ambas as direções". 

"Um conflito mais prolongado ou mais intenso pode pressionar ainda mais os preços globais de energia; isso elevará a inflação no curto prazo e também poderá aumentá-la mais à frente, caso prejudique a capacidade de oferta ou caso a alta dos preços se incorpore às expectativas de inflação de longo prazo", destacou o comunicado. 

"Outros bancos centrais poderiam fazer um 'corte e cola' dessa parte do comunicado australiano. Entretanto, não é a decisão do BC australiano que 'faz preço' no mercado", escreveu Leal, em comunicado aos clientes. No documento, ele lembrou que a decisão do Fed na última semana era esperada pelo mercado, mesmo antes da guerra, assim como a dissidência de Stephen Miran — indicado por Trump —, que votou por um corte de 0,25 ponto percentual nos juros básicos norte-americanos, atualmente entre 3,50% e 3,75%, anuais.

Aparentemente, na avaliação de Leal, o BC norte-americano escolheu "ficar em cima do muro", e os mercados começaram a projetar a volta dos cortes apenas em 2027. Enquanto isso, em relação ao Banco Central brasileiro, Leal considera que o Copom acabou se comprometendo com novos cortes, uma vez que mais um ou dois cortes de 0,25 ponto percentual na Selic pode ser absorvido sem implicar em um estímulo na atividade.

"O mercado achou o comunicado do Copom dovish. Primeiro, porque cortou os juros mesmo com o cenário de inflação piorando, aparentemente 'comprando a ideia' de que a desaceleração da economia abriria esse espaço. Segundo, porque se comprometeu com novos cortes, podendo até acelerar o ritmo, mesmo com o nível de incerteza que temos", afirmou. Por conta disso, ele espera um corte de 0,50 ponto percentual na taxa Selic, na reunião de abril, e que o ritmo de afrouxamento monetário poderá seguir nesse nível até os juros básicos terminarem o ano em 12,50% anuais.


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