A proposta dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros tem gerado mais preocupação no mercado financeiro do que nos setores diretamente atingidos pela medida. Embora a lista de exceções inclua itens relevantes para a pauta exportadora brasileira, como café, aeronaves, fertilizantes e terras raras, especialistas avaliam que o principal efeito pode ocorrer na percepção de risco sobre o Brasil.
Para agentes do mercado, a discussão ultrapassa o campo comercial e passa a influenciar variáveis como câmbio, custo de capital e apetite de investidores estrangeiros. A avaliação é que, em momentos de incerteza internacional, o capital tende a buscar ambientes considerados mais previsíveis e seguros.
Segundo Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, a tensão comercial com os Estados Unidos deve ser acompanhada como um fator de risco macroeconômico relevante, mesmo que os efeitos concretos ainda dependam das negociações em andamento. Ele destaca que o mercado observa principalmente os reflexos sobre a percepção de risco do país e o impacto no custo de captação de recursos.
Nesse cenário, investidores tendem a ser mais seletivos, priorizando ativos com governança sólida, transparência, segurança jurídica e mecanismos consistentes de mitigação de riscos. Para Araújo, esse movimento pode beneficiar operações estruturadas de crédito, especialmente fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) com controles robustos e monitoramento adequado dos recebíveis.
A preocupação também alcança o ambiente tributário e regulatório. Para a advogada tributarista Mary Elbe Queiroz, presidente do Cenapret, a tarifa norte-americana transforma um risco comercial em um desafio adicional para o planejamento financeiro das empresas brasileiras. Exportadores e companhias inseridas em cadeias globais poderão ser obrigados a revisar preços, contratos, margens de lucro, créditos tributários e estratégias de fluxo de caixa.
Ela alerta ainda para o risco de uma reação fiscal improvisada por parte do governo. Na avaliação da especialista, setores afetados podem pressionar por compensações, incentivos ou regimes especiais para preservar competitividade. Caso essas medidas sejam adotadas sem planejamento adequado, o resultado pode ser o aumento da litigiosidade e da insegurança jurídica, justamente em um momento de transição decorrente da reforma tributária.
A leitura do mercado é semelhante. Gustavo Assis, CEO da Asset Bank, afirma que a proposta não deve ser encarada apenas como um episódio de disputa política. Segundo ele, a medida adiciona uma nova camada de incerteza sobre o fluxo comercial, o comportamento do câmbio e a disposição de investidores estrangeiros em manter exposição ao Brasil.
Mesmo diante de uma lista ampla de exceções, Assis avalia que o mercado costuma precificar os riscos antes mesmo da implementação efetiva de medidas tarifárias. O fator ganha relevância porque as discussões envolvem temas considerados sensíveis nas relações bilaterais, como Pix, etanol, propriedade intelectual, desmatamento e acordos tarifários.
