W3| A AVENIDA DE BRASÍLIA

Abram alas para o carnaval da W3! Festa na avenida marcou gerações

Durante as décadas de 1960 e 1970, a W3 Sul se transformava com os desfiles de carnaval que reuniam milhares para festejar

Foto de perfil do autor(a) Junio Silva
Junio Silva
21/04/2026 05:21
4min de leitura

“Tanto riso / Ó, quanta alegria! / Mais de mil palhaços no salão / Arlequim está chorando / Pelo amor da Colombina / No meio da multidão.” Os versos do sucesso Máscara Negra, de Zé Keti, ecoavam pelas quadras 707 e 708 Sul no carnaval de 1967. Dez mil pessoas lotavam a Praça 21 de Abril.

Nas primeiras décadas de Brasília, era ali que o carnaval da cidade acontecia. Uma matéria do Correio mostra que a festa de rua, a mais animada da capital federal até então, contou com a presença ativa dos moradores de Taguatinga, Sobradinho e Gama.

“Os auto-falantes espalhados ao longo da faixa central da avenida apresentaram, a partir das 18h, músicas carnavalescas”, descreve a reportagem Nem a chuva atrapalhou os foliões, de autor desconhecido. “As arquibancadas, com capacidade para abrigar cerca de duas mil pessoas, se apresentaram, nos três dias, totalmente lotadas.”

Os desfiles, que deixaram de acontecer na avenida em 1980, ficaram marcados na memória dos moradores. “A gente se fantasiava e vinha para o carnaval de rua, que acontecia aqui na W3”, lembra Valéria Cabral, da Fundação Athos Bulcão. “Você subia e descia aqui. Todos os blocos eram aqui”, diz.

Página do Correio Braziliense, de 8 de fevereiro de 1967
Página do Correio Braziliense, de 8 de fevereiro de 1967 (foto: Cedoc/CB)

Atualmente, as festividades ocorrem em outros pontos da cidade, como no Eixo Monumental e Setor Comercial Sul. Em 2026, como uma breve lembrança, o bloquinho Aves Migratórias subiu a 413 Norte e terminou com os foliões dançando na W3. 

De um jeito ou de outro, de acordo com a Secretaria Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Distrito Federal, as festividades carnavalescas na avenida pertencem ao passado.

“A realização de desfiles na W3 Sul remonta a um contexto urbano e logístico bastante distinto do atual”, afirma a secretaria, em nota. “Hoje, fatores como a complexidade da operação logística, o volume necessário de frota de apoio, os impactos significativos no trânsito, especialmente considerando que as estruturas precisam ser montadas com antecedência, tornam inviável a adoção do modelo praticado em décadas passadas”.

  • Pacotão na W3
    Pacotão na W3 Monique Renne/CB
  • Desfile de Carnaval na avenida W3, imagem da revista O Cruzeiro, de 25 de fevereiro de 1967
    Desfile de Carnaval na avenida W3, imagem da revista O Cruzeiro, de 25 de fevereiro de 1967 Oswaldo Amorim/O Cruzeiro/EM/D.A
  • Desfile de Carnaval na avenida W3, em 1967
    Desfile de Carnaval na avenida W3, em 1967 Oswaldo Amorim/O Cruzeiro/EM/D.A
  • Carnaval na W3 Sul
    Carnaval na W3 Sul Arquivo Público do Distrito Federal
  • Carnaval na W3 Sul
    Carnaval na W3 Sul Arquivo Público do Distrito Federal
  • Carnaval na W3 Sul
    Carnaval na W3 Sul Arquivo Público do Distrito Federal
  • Carnaval na W3 Sul
    Carnaval na W3 Sul Arquivo Público do Distrito Federal

Memória viva

As marchinhas e os lugares mudam, mas quem viveu não se esquece. Robson Farias, presidente da Acadêmicos da Asa Norte, chegou a Brasília nos anos 1970 e considera que os carnavais na W3 Sul foram os melhores que a cidade já viu. 

“Naquela época, a avenida era decorada, iluminada com aqueles desenhos que faziam. Era muito bonito. Para mim, o carnaval na W3 foi o melhor”, declara. “Um dos principais blocos era a Turma do Barril, da Asa Sul. Também tinha o Castelo Imperial, que hoje em dia é escola de samba; Boêmios da Asa Sul; Cacique do Cruzeiro; Embalo do Cruzeiro e os blocos de frevo, como a Vassourinha.”

O tradicional Pacotão, que até hoje traz a sátira política ao carmaval de Brasília, também desfilou por anos na contramão da W3, como era de praxe.

Uma parte dessa memória ficou gravada em discos que Robson guarda em um acervo pessoal. “A gente tinha o desfile das campeãs. Então, começamos a gravar discos compactos das escolas. Em 1979 fizemos a primeira gravação”, aponta.

Atualmente, Robson afirma que o apelo popular esfriou e o carnaval brasiliense ficou prejudicado pela falta das escolas de samba. “Ninguém mais faz o desfile das campeãs. Estão querendo acabar com o samba. Como o Benito de Paula fala: ‘Estão querendo tirar meu nome do samba’”, lamenta.