
Nova Jersey — Pedimos licença a Flávio Venturini para adaptar a poesia na canção Espanhola a um tributo de Trionda à seleção bicampeã do mundo. A obsessão por ter a bola e tratá-la com carinho venceu a covardia. Esse é o maior recado — e legado — de La Roja no concerto do segundo título em 16 anos a potências como Argentina e Brasil. Os ex-campeões encerraram a partida de ontem no MetLife Stadium sem ver a cor da pelota com 31% de controle do jogo. A equipe brasileira caiu contra a Noruega, nas oitavas, com humilhantes 34%. Os novos donos do planeta bordaram a segunda estrela ostentando 69%.
Assim como em 2010, La Roja transformou a troca de passes em magia na conquista de um título. Envolvente do início ao fim da partida, a seleção de Luis de la Fuente hipnotizou os ex-campeões do início ao fim da decisão insossa sem deixar o jogador eleito oito vezes melhor do mundo, Lionel Messi, dar um chute a gol na turnê do adeus ao torneio. Amargou o vice no MetLife Stadium como na final da Copa América de 2016, quando perdeu pênalti e anunciou aposentadoria "fake" da esquadra alvicelete.
Em vez do camisa 10, o goleiro Dibu Martínez tentou assumir o papel de herói da nação ao colecionar incríveis 11 defesas antes do gol de Ferran Torres, aos 106 minutos. Na prorrogação, como na conquista da África do Sul, assinada pelo meia Andrés Iniesta no tempo extra do confronto com a Holanda.
Antes da Copa, o técnico italiano Carlo Ancelotti afirmou: "Defesas ganham Copas". A do Brasil caiu nas oitavas de final. A da Espanha se manteve em pé para se tornar a campeã menos vazada em quase 100 anos de Mundial. Somente a Bélgica conseguiu vazá-la nas quartas de final. Atual campeã da Euro, a Espanha repete o feito de 2010, quando também ostentava o título continental de 2008 e o repetiu em 2012.
Há cinco anos, Luis de la Fuente amargava a medalha de prata contra o Brasil na final dos Jogos Olímpicos de Tóquio-2020, disputados em 2021 por causa da pandemia. Ali nascia um projeto. Quando a Espanha foi eliminada por Marrocos, nos pênaltis, em 2022, no Catar, a Real Federação Espanhola lembrou-se daquele trabalho no Japão. Demitiu Luis Enrique e entregou as chaves do bi ao campeão da Euro-Sub 19 e da Euro-Sub-21.
O ouro em Paris-2024 contra a França fortaleceu ainda mais o projeto. Os ibéricos são campeões com 12 medalhistas de prata e/ou ouro: Unai Simón, Cucurella, Zubimendi, Oyarzabal, Eric Garcia, Pedri, Dani Olmo, Merino, Pubill, Cubarsí, Baena e Joan García. Todos prontos para tentar o tri daqui a quatro anos. A edição centenária em 2030 terá capítulo final no Santiago Bernabéu, em Madri. A Espanha é o país do futebol também no feminino. Assim como eles, elas ostentam o título conquistado, em 2023, na Oceania.
Um time só
A Espanha teve o controle do jogo no primeiro tempo. Com 65% da posse de bola, a seleção de Luis de la Fuente envolvia a Argentina até a frente da área, mas a defesa de Lionel Scaloni interceptava os passes e devolvia as ações ao adversário. Quando conseguiu encaixar os ataques, La Roja bateu de frente com a etapa inicial segura do goleiro Dibu Martínez.
Lamine Yamal teve a primeira oportunidade. O craque de 19 anos finalizou fraco. A bola tocou em Lisandro Martínez e chegou amortecida para a defesa do goleiro argentino. A segunda oportunidade caiu nos pés de Oyarzabal. O centroavante finalizou fraco e novamente facilitou a intervenção do dono da trave celeste. Em mais uma troca de passes belíssima, abrindo clarões na ajustada retaguarda argentina, Cucurella arriscou de fora da área um chute cruzado. Dibu Martínez viu a bola passar perto do poste esquerdo.
Maioria nas arquibancadas do MetLife Stadium, a torcida sul-americana alternava momentos de euforia. Sentia o domínio espanhol. Os decibéis aumentavam nos raríssimas ações ofensivas da Argentina. As esticadas de bola encontravam Unai Simón atento fazendo o papel de líbero. Foi assim em uma dividida com Messi, na qual o camisa 10 tirou o pé. Os 35% da posse de bola alviceleste não se traduziu em ataque perigoso ao gol europeu.
Nem mesmo o show do intervalo inspirado no Super Bowl, a final da NFL, a liga estadunidense de futebol americano, levantou a arquibancada. A expectativa abaixo apenas do duelo entre Espanha e Argentina foi frustrada por Madona, Gustavo Dudamel, BTS, Justin Bieber e Shakira. Os 11 minutos de espetáculo ficaram aquém da tradição do esporte predileto dos EUA. A sensação era de que o combo deveria ter sido trocado pela exibição de um só cantor nos 27 minutos e 24 segundos de paralisação. Os cinco minutos e 58 segundos de atraso só valeram a pena quando um vídeo de Edson Arantes do Nascimento apareceu com a icônica frase "love" do Rei na despedida no mesmo estádio, em 1977, chamado à época de Giants Stadium no amistoso internacional entre Cosmos e Santos.
Os artistas do espetáculo mais esperado voltaram a campo com o mesmo enredo da etapa inicial. A Espanha tinha a posse da bola, mas finalizava sem precisão. Baena tentou em vão. Dani Olmo arriscou de fora da área e Dibu Martínez bateu roupa mandando para escanteio. A pressão aumentava. Um cruzamento venenoso de Yamal foi afastado perigosamente por Paredes para escanteio. O gol amadurecia, mas faltava capricho. Novamente Yamal escapou da marcação e cruzou na cabeça de Ferran Torres. Dibu Martínez impediu o gol.
Em vez do camisa 10 Messi, o número 23 da Argentina assumia o protagonismo. Pedri e Cubarsí testaram Dibu Martínez novamente. O goleiro voltou a soltar a bola para o lado, mas Merino não conseguiu aproveitar o rebote. A intervenção mais plástica do jogo começou com Nico Williams acionando Laporte. O zagueiro cabeceou e Dibu fez uma ponte perfeita. Depois de uma tabela entre Rodri e Yamal, Ferran Torres finalizou para fora.
A Espanha teve a oportunidade do contra-ataque no fim do segundo tempo em um dois contra um puxado por Nico Williams. Em vez de servir Lamine Yamal ao lado, o atacante tentou se consagrar chutando de fora da área e Dibu Martínez novamente fechou a meta.
A final ficou dramática nos acréscimos do segundo tempo. Enzo Fernández cometeu falta desleal no zagueiro Cubarsí. O meia tinha amarelo e recebeu o vermelho. Na última chance de evitar a prorrogação, Lamine Yamal cobrou falta de perna canhota buscando o ângulo esquerdo da Argentina. Lá estava Dibu Martínez para espalmá-la a escanteio e confirmar a nona decisão levada ao tempo extra em 23 edições da Copa.
Prorrogação
A inferioridade numérica da Argentina elevou a temperatura na prorrogação e continuou fazendo de Dibu o craque argentino na final. Primeiro, evitou gol de Nico Williams. Em outro lance, a bola terminou no fundo da rede na finalização de Nico Williams, mas o esloveno Slavko Vincic anulou, acusando pisão de Merino em Otamendi na construção da jogada.
O gol estava maduro e, finalmente, saiu aos 106 minutos. O lateral-direito Pedro Porro iniciou o lance com cruzamento para Nico Williams. O atacante ajeitou de cabeça, e Ferran Torres estufou a rede de Dibu Martínez. O cronômetro marcava 40 segundos do segundo tempo. A Espanha ensaiou emular a Inglaterra nas semifinais. Recuou e sofreu mais sustos em 15 minutos do que na partida inteira, mas resistiu até o apito final do bi com Trionda, a bola oficial da Copa de 2026, a cantar a música de Flávio Venturini: "Te amo, (seleção) espanhola!
