Filadélfia — Fim de jogo. França 3 x 0 Iraque no Lincoln Financial Field. Lá vem Kylian Mbappé caminhando com aceitáveis passos — e olhares de marrento na zona mista para o disputado contato com a imprensa. Depois de uma noite insana marcada por duas evacuações do Philadelphia Stadium causadas por alertas de tempestade severa, o camisa 10 gostaria de ter mais tempo para celebrar a façanha de se tornar o segundo maior artilheiro na história das Copas com 16 gols, ao lado de Miroslav Klose. Ao contrário do aposentado alemão, tem 27 anos e pelo menos duas edições pela frente para alcançar Lionel Messi, o novo recordista com 18 bolas na rede.
Com semblante irritado, empilha reclamações sem perder a linha. O ponto de apoio para cada resposta é o belo casaco do uniforme francês. Ele balança os lados para lá e para cá. “Foi uma noite muito longa. Tivemos que manter o foco e o envolvimento. Ficar no vestiário por uma hora e meia, quase duas horas, concentrado, é muito difícil. Isso exige muito. Mas fizemos o nosso trabalho e estamos felizes com a atuação”, desabafou, citando a pausa de mais de uma para o início do segundo tempo sob forte chuva e entra e sai da torcida.
Na volta ao campo para o segundo tempo depois da longa paralisação, Mbappé gesticulava bravo mostrando o campo. "A nossa área de ataque estava alagada. Eles (responsáveis pelo gramado) passaram 20 minutos limpando a nossa área de defesa, mas não dedicaram nenhum tempo para limpar nossa área de ataque. Essa é uma desvantagem. Eu queria que eles dedicassem o mesmo tempo limpando as duas partes do campo. Ou, se eu tivesse que escolher, que limpassem a parte onde estávamos atacando”, ironizou no modo vigarista.
Reclamar é um dos vícios de quem persegue a excelência. A França venceu Senegal e Iraque, fez cinco gols, mas Mbappé está inconformado. “Vamos analisar o jogo nos próximos dias. Há duas ou três coisas que poderíamos ter evitado. Não foram erros graves, mas momentos em que poderíamos ter sido melhores. No geral, foi uma ótima noite”, ponderou.
Depois do muro das lamentações, Mbappé aceita falar um pouquinho de si. “Estou ótimo. Tentei fazer a melhor temporada possível com o Real Madrid. Sofri uma lesão séria em janeiro, mas consegui voltar bem, física e mentalmente. Me sinto bem agora, mas isso é só o começo. Temos que fazer muito mais se quisermos ganhar o que queremos ganhar.”
O auge físico permite a Mbappé sonhar com o tricampeonato da França, a artilharia da Copa e o recorde de Messi. Entretanto, o craque posa de jogador de grupo. Neymar e Messi o conhecem bem dos tempos de Paris Saint-Germain... “Não estou pensando nisso agora. O mais importante é termos uma estrutura coletiva forte. Sempre marquei gols em Copas, então não é algo que me preocupa. A prioridade é chegar longe como equipe.”
A maturidade impõe o controle da língua para não transparecer que Messi está na mente dele desde a derrota nos pênaltis final da Copa de 2022. Insiste em falar de coletividade. “Leo sempre marcou gols e sempre vai marcar. Eu não estou focado no que ele faz. Estou focado em ajudar a minha equipe. Quando você ajuda o time, os gols vêm naturalmente.”
Em vez de reverenciar o colega eleito oito vezes melhor do mundo, e recordista de gols em Copas, prefere massagear o ego do atual número 1. Ousmane Dembélé fez gol pela primeira vez na Copa. “Sabíamos que era importante para ele. O time queria que ele marcasse. Ele é um jogador essencial para nós. Quando joga assim, nos torna muito mais fortes. Mesmo quando não marca, ele faz um jogo muito bom”. Cinco minutos das facetas de um gênio.
Número
16 gols
Tem Mbappé na Copa do Mundo, dois atrás do recordista Messi
FRASE
“Leo sempre marcou gols e sempre vai marcar. Eu não estou focado no que ele faz. Estou focado em ajudar a minha equipe. Quando você ajuda o time, os gols vêm naturalmente”
Kylian Mbappé, camisa 10 da França
