XODÓ DA TORCIDA

Endrick abre o coração sobre paternidade, titularidade e Ancelotti

Atacante brasiliense diz que dormirá "como um bebê" antes das oitavas de final contra a Noruega, revela a expectativa para compartilhar com o filho as histórias da Copa do Mundo e reforça a confiança no trabalho do treinador italiano

Nova Jersey — Endrick completará 20 anos em 21 de julho, dois dias depois da final da Copa do Mundo, no MetLife Stadium. Claro, quer levar para casa, em Madri, o troféu mais cobiçado do planeta bola. Mas há um desejo ainda mais nobre, humano e… paterno. O caçula da Seleção Brasileira, ao lado de Rayan, entre os 26 convocados por Carlo Ancelotti para a caça ao hexa, coleciona memórias que pretende compartilhar com o filho que espera ao lado da esposa, Gabriely Miranda. Se possível, começando pelo hexa. Ansiedade, porém, não faz parte do roteiro. O garoto nascido em Taguatinga e criado em Valparaíso de Goiás garante que dormirá “como um bebê” na véspera do duelo contra a Noruega, domingo, às 17h, pelas oitavas de final.

Às vésperas de uma possível primeira oportunidade como titular em uma Copa do Mundo, o atacante esteve leve para deixar o futebol em segundo plano. Falou sobre família, fé e o desejo de ser lembrado pelo filho muito além dos gols e dos títulos. “Para mim, é uma honra, fico muito agradecido por Deus ter me enviado uma família maravilhosa, minha esposa e, agora, meu filho. Estou contando as horas para chegar, para dar um abraço nele, contar histórias maravilhosas e que ele possa conhecer o pai dele, mas que não seja do futebol, histórias da minha vida, do Endrick pessoa. E, quando ele for crescendo, verá as coisas que o pai dele fazia. Espero que ele possa ficar feliz com isso”, abriu o coração em resposta ao Correio.

A serenidade com que descreve a espera pelo primeiro filho também explica o estado de espírito antes do duelo decisivo contra a Noruega. Questionado sobre como passará a noite anterior às oitavas de final, Endrick garantiu que não trocará a tranquilidade pela ansiedade. “Acho que vou dormir como um bebê. Vou ficar muito tranquilo, porque, antes de dormir, acho que o mais importante é o que eu faço, fazer minha oração, ficar tranquilo, que as coisas vão acontecer no momento certo. Não vim aqui para viver o extraordinário, vim para mostrar quem é o Endrick e quem está do lado dele, que é minha família e Deus”, discursou.

O boné virado para trás e a caminhada despreocupada até a sala de entrevistas do Hotel The Ridge, em Basking Ridge, vendiam a imagem de um Endrick ousado e completamente à vontade. Parecia caminhar para mais um treino. Bastou sentar-se diante dos microfones para a descontração da entrada ceder espaço à concentração. O garoto livre, leve e solto com os companheiros revelou um lado mais tímido, de respostas pausadas e cuidadosamente pensadas. O contraste chama atenção. Dono da terceira maior audiência da Seleção Brasileira no Instagram, com 23,1 milhões de seguidores — atrás só de Neymar e Vini Junior —, o atacante vivia a primeira entrevista coletiva da carreira em uma Copa do Mundo, diante de centenas de jornalistas do Brasil e do exterior.

As declarações também ajudaram a derrubar qualquer impressão de desgaste na relação com Carlo Ancelotti após a temporada de adaptação no Real Madrid. Endrick fez questão de reafirmar a confiança no treinador italiano, a quem chamou de um dos melhores do mundo. “É uma convivência maravilhosa. Foi meu primeiro treinador quando cheguei na Europa. Para mim, foi uma das melhores experiências, incrível, em que pude aprender com ele e com o staff dele, que é muito bom. Com a Seleção, não está sendo diferente. Acho que não teve encaixe melhor do que ter Ancelotti como treinador do Brasil”, exaltou.

Endrick também extrai ao máximo dos figurões da Seleção. No treino desta quinta-feira, entrou escoltado por Neymar. Nos primeiros momentos da atividade, “colou” no camisa 10 e em Vinicius Junior. Esbanjaram entrosamento entre risadas, abraços e conversas. “Tenho uma relação muito boa com o Ney. A gente pode ficar brincando depois dos treinos, jogando carta, trocando resenha. Em uma folga, pude estar com ele também. É muito importante conversar com essas pessoas, que são os capitães. Vou extrair o máximo para colocar na minha carreira, porque tem muito tempo pela frente ainda”, contou.

O aprendizado pode render frutos no domingo. Endrick é um dos principais candidatos à vaga deixada pelo lesionado Lucas Paquetá. A candidatura ganhou força na classificação sobre o Japão. Acionado no intervalo, atuou como uma espécie de meia-ponta, alternando movimentos da direita para o centro e contribuindo decisivamente sem a bola. A pressão sobre a saída japonesa iniciou a jogada que terminou com a roubada de Rayan, a assistência de Bruno Guimarães e o gol salvador de Gabriel Martinelli aos 51 minutos do segundo tempo.

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Apesar da expectativa pela primeira oportunidade entre os titulares, o atacante evita alimentar qualquer ansiedade. “Estou muito agradecido por estar aqui. Para mim, já é uma vitória disputar uma Copa do Mundo com esse grupo. Os 26 jogadores estão preparados. Também estou muito preparado. Vou esperar o Mister. Ele fará a melhor coisa para a equipe e, se Deus quiser, faremos um bom jogo e passaremos de fase”, profetizou.

O brasiliense chega credenciado também pelos números. Antes mesmo da Era Ancelotti, tornou-se um talismã da Seleção: sempre que marcou um gol ou deu uma assistência, o Brasil não perdeu. São quatro gols e dois passes decisivos nos confrontos com vitórias sobre Inglaterra, Croácia, Egito e México e empate com a Espanha.

Depois de permanecer no banco na estreia contra Marrocos e de ameaçar repetir o roteiro de Ronaldo, que não entrou em campo no tetra de 1994, ganhou minutos contra Haiti, Escócia e Japão. Soma 79 minutos, além dos acréscimos, e nunca esteve tão próximo da primeira oportunidade como titular em um Mundial.

Outros tópicos com Endrick

Sente-se veterano na Seleção?

Fico muito agradecido a Deus por tudo que Ele faz na minha vida e por ter chegado muito jovem à Seleção. Fazem três anos que venho vindo e fico muito grato. Tenho que seguir fazendo meu trabalho para seguir voltando, que é onde quero estar para representar meu país e representar a Seleção, que é o mais importante.

Como é o estilo de jogo dos jovens da Seleção

Eu e o Rayan estávamos vendo até umas fotos que estávamos jogando na Go Cup, depois enfrentamos na Copa do Brasil sub-18, vem para a Seleção junto também. Tem eu, ele, o Igor Thiago, a gente fica trocando resenha. Eu e ele, para agregarmos ao time, vamos sempre dar nossa vida. A gente não imaginava estar aqui com 19 anos. É uma vitória estar aqui, então a gente tem que fazer por merecer. São jogos em que não há margem de erro. Pude ajudar no último jogo, Rayan já está fazendo com a equipe titular.

Como foi lidar com a reserva?

Na primeira temporada com o Mister no Real, eu joguei muito. Foram poucos minutos, mas estava entrando praticamente em todos os jogos. Ele falava para eu ficar tranquilo, que meu momento vai chegar. Na Copa do Rei, ele me colocou mais, pude fazer gol em praticamente todos os jogos e eu sempre fiquei tranquilo. O Mister é um dos melhores do futebol, um dos melhores do mundo, ele sabe o que fazer. Acho que vocês podem ficar tranquilos, que o Mister sempre vai fazer o melhor para a equipe. Fico tranquilo com ele e sempre sigo os conselhos, dele e do staff, que a gente sempre busca apoio deles.

Qual seu diferencial para os outros atacantes? 

No Lyon, eu pude ajudar muito jogando de camisa 9, pude jogar aberto na direita, fazer um falso 9 também. E o Mister sabe minhas qualidades, passamos um ano no Real e sempre estava treinando, aqui não é diferente. Ele sabe com o que posso contribuir, não só eu, Igor Thiago, Matheus Cunha. Ele não vai fazer o melhor para mim, para o Endrick, vai fazer o melhor para a equipe. Ele faz o que ele pensa e as coisas acontecem. Parece que Deus olha para ele, ele é iluminado, que ele faz e as coisas acontecem. Quando o Mister falar para eu fazer alguma coisa, não vou olhar para trás, só vou fazer.

Como foi atuar em um posicionamento diferente? 

Quando eu jogava no Lyon, eu fazia o que o Paulo me falava: tinha que marcar muito, fazia isso, tinha que atacar bastante também e ajudar a equipe. Acho que é isso que fiz no Lyon e me ajudou para estar aqui. Cada treinador é diferente, nenhum vai ser igual, mas, se por acaso... eu pude entrar de extremo direito contra a Escócia e fiz o que o Mister me pediu. Do jeito que o Mister me colocar, eu vou fazer de tudo para adequar com o estilo dele e com o estilo da Seleção também.

Como você analisa a partida contra o Japão ?

Foi um jogo maravilhoso. Não esperava entrar naquele momento, até que, no intervalo, me chamaram, e eu só sabia conversar com Deus, pedindo calma, porque é um estalo que teve na minha cabeça. Estava no banco sem estar pensando em entrar, porque estava torcendo, vibrando. Tentei ficar o mais tranquilo e fazer meu jogo. Ajudou bastante o Brasil. Pude jogar de camisa 9, fazendo movimento nas costas da defesa, deixando espaço, quando Casemiro pôde fazer o gol. Entrar para ajudar o Brasil é minha maior satisfação.

O que pensa da Noruega?

É um grande jogo, grandes jogadores, não tenho dúvida de que vai ser um jogo maravilhoso, dos dois times querendo buscar a vitória, e espero que a gente possa fazer um maravilhoso jogo. A gente está buscando sempre melhorar, fazer o que o Mister pede e entrar bem em todos os jogos, que a gente sabe que agora não tem margem para erro. No último, a gente saiu perdendo e custou a chegar no segundo gol. E mesmo se acontecer de sair atrás, manter a calma, a tranquilidade e buscar sempre a vitória, que agora é mata-mata, a gente tem que matar.

 

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