A 5ª edição do Festival LED Globo — Luz na Educação começou nesta sexta-feira (15/05), no Pier Mauá, no Rio de Janeiro. Iniciativa da Globo e da Fundação Roberto Marinho, o festival promove reflexões sobre o futuro da educação brasileira. A programação inclui oficinas, música e debates que abordam o papel das novas tecnologias na escola, o uso ético da inteligência artificial e o processo criativo.
Esta edição, que comemora cinco anos do projeto, conta com a participação da ministra do STF Cármen Lúcia, da atriz Fernanda Montenegro, do filósofo Mário Sérgio Cortella, da apresentadora Sabrina Sato, Juliete Freire, entre outros. Para encerrar o primeiro dia, a cantora Marina Sena se apresenta a partir das 19h30.
Além das mesas de conversa, a cerimônia do Desafio LED, que premia estudantes com soluções transformadoras, ocorre neste sábado (16/05), a partir das 17h30. São cinco finalistas de todo o Brasil.
Samba e educação de mãos dadas
O show da escola de samba Unidos do Viradouro marcou o início do festival. Ao fim da apresentação, o diretor do grupo, Moacyr da Silva Pinto, o Mestre Ciça, afirmou que samba e educação andam juntos. "A educação faz parte do samba. A disciplina e o respeito fazem parte do samba", disse.
Victor Gabriel, 12 anos, integrante do grupo, reforçou: "Samba sem estudo não é nada". E lembrou: "Se eu não passar de ano, a gente não pode desfilar".
Criatividade em debate
A primeira palestra, que discutiu a criatividade, contou com o professor e pesquisador Charles Watson, a cantora Marina Sena, a atriz Taís Araújo e a professora Zaika dos Santos. A mediação foi feita pela jornalista Sandra Annenberg.
Watson argumentou que o fator genético pode influenciar o processo criativo. Usou o músico alemão Mozart como exemplo. Segundo historiadores, o compositor seria portador do "ouvido absoluto", habilidade cognitiva rara que permite identificar notas musicais sem tom de referência. Mesmo sob essas condições, o pesquisador afirma que a criatividade deve ser exercitada. "Mesmo que algumas pessoas possam ter vantagens genéticas, as redes neurais envolvidas na criatividade não surgem quando a gente nasce. Essas redes são desenvolvidas na medida que a gente pratica e repete atividades", pondera o pesquisador.
Para Watson, a criatividade está ligada à curiosidade — e exige movimento constante. "Tem artista que encontra uma fórmula e repete isso até morrer. Chegou em um lugar? Procura o próximo. Historicamente, explosões criativas ocorreram devido a pessoas fascinadas por assuntos e discutindo abertamente o limite das atividades que estão fazendo", pontua.
Marina Sena
A mineira de 29 anos, cuja música é descrita como "pop tropical", compõe desde a infância. O incentivo dos pais foi fundamental. Criada no interior, ela afirma que os pais foram na contramão de uma tendência que classificou como "conservadora", que tende a reprimir comportamentos artísticos nas crianças.
"Fui a primeira pessoa da família a se envolver com arte. Passava quatro horas dançando e cantando dentro do quarto. Meus pais não atrapalhavam e não achavam esquisito", conta. A cantora atribui parte da capacidade criativa do pai ao hábito de "devaneiar".
"Na hora de performar na frente das pessoas, eles nunca me ridicularizaram. No interior, as pessoas são muito conservadoras, mas meus pais nunca acharam estranho. Meu pai gosta de pensar e devaneiar. Isso traz a criatividade. Tive uma criação que não minou minha criatividade."
"Foram meus primeiros fãs: meus pais e meu cachorro", brinca. Sena declarou que o Brasil, por ser tropical, é terreno fértil para a criatividade, e exaltou a diversidade regional. "Em cada região do país dá para fazer um tipo de pesquisa. Sou de Minas e há culturas diferentes em MG, com sotaque e comida diferente. O Brasil, por ser gigantesco, tem muita munição para ser criativo", finaliza.
Taís Araújo
A atriz Taís Araújo também participou da mesa. Segundo ela, entrar em um personagem exige estudo e aprofundamento. Em uma de suas peças, quando interpretou uma mulher negra, teve que estudar filósofos negros e se debruçar sobre a cultura afro. Foram três meses com oito horas de treino, de segunda a sexta. No caso dela, criatividade tem a ver com sensibilidade e abertura ao mundo.
"Pensamos em uma Raquel que fosse uma dessas mulheres que estão no corre para ir trabalhar. Quanto mais próximo do humano, mais interessante a personagem", explica.
Mãe de dois filhos, de 11 e de 14 anos, Taís se esforça para criar crianças criativas. A estratégia: diminuir o tempo de exposição às telas. Uma das regras do "regimento interno" da casa exige atividades esportivas, jogos artesanais (como tabuleiro), interação com outras crianças e leitura — hábito que considera primordial. "O livro é salva-vidas. Já salvou minha vida várias vezes e eu sou apaixonada por literatura", afirma.
Zaika dos Santos
Zaika dos Santos, cientista de dados, argumenta que é possível aproveitar a tecnologia a favor da criatividade. Segundo ela, a tecnologia, enquanto parte da arte digital, facilita a vida de pessoas com deficiência. "O pensamento crítico é humano. A máquina nada mais é que uma simulação. É preciso repensar a tecnologia e perder o medo."
No fim de sua fala, Zaika defendeu equilíbrio. "Não podemos ter um pensamento de oposição entre quem trabalha com tecnologia e quem não usa. Temos que entender sobre a soberania cognitiva e equilibrar o uso", declara.
*Estagiário sob a supervisão de Ana Sá