Entrevista

Bullying não é "brincadeira": é marca que pode acompanhar a vida, alerta educadora parental

Thelma Nascimento explica como as agressões afetam a construção da identidade e o que a família e a escola precisam mudar para romper o ciclo

Correio Braziliense
postado em 06/04/2026 18:23
 Thelma Nascimento, educadora parental -  (crédito:  Arquivo pessoal)
Thelma Nascimento, educadora parental - (crédito: Arquivo pessoal)

Por João Pedro Lara Resende

O que antes terminava no recreio, hoje pode continuar no celular. Para a educadora parental Thelma Nascimento, o bullying não necessariamente aumentou — mas está mais visível e, muitas vezes, mais intenso, principalmente no ambiente digital.

No Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência na Escola, celebrado nesta terça-feira (7/4), os dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), do IBGE, revelam que 4 em cada 10 estudantes de 13 a 17 anos já sofreram algum tipo de bullying. As ofensas ao rosto, ao cabelo e ao corpo estão entre as agressões mais comuns — e, segundo a especialista, isso não é acidente.

"Ninguém nasce com esses padrões sociais e culturais enraizados. Eles copiam o que veem em casa, na escola e na internet. Eles estão aprendendo desde cedo que existe um jeito certo de ser. E tudo o que foge disso vira alvo."

Para Thelma Nascimento, a aparência física ser o principal motivo de agressões demonstra que crianças e adolescentes estão reproduzindo padrões muito rígidos de aceitação aprendidos. Segundo ela, ninguém nasce com esses padrões sociais e culturais enraizados. “Eles copiam o que veem em casa, na escola, na internet… Eles estão aprendendo desde cedo que existe um “jeito certo” de ser. E tudo o que foge disso vira alvo.”

A educadora parental explica que o bullying pode resultar em baixa autoestima, vergonha de existir, dificuldade de se expressar e, muitas vezes, em uma sensação constante de não pertencimento. Para ela, crianças mais velhas, pré-adolescentes e adolescentes têm uma necessidade natural e biológica de pertencimento, e essa sensação de “peixe fora d’água” pode levar a problemas de saúde mental. “São marcas silenciosas, mas profundas.”

“O bullying leva as crianças e adolescentes a questionar quem são. Eles começam a se moldar para serem aceitos e, aos poucos, se desconectam de si mesmos.”

Para o adolescente que está passando por bullying agora e está lendo essa reportagem — o que você diria a ele? Por onde começar?

Você não merece ser tratado assim. E, por mais difícil que pareça, tente encontrar um adulto de confiança para falar sobre isso. Você não precisa (e não deve) lidar com isso sozinho. Quanto antes, melhor.

Muitas vítimas não contam para ninguém. O que leva os estudantes a silenciarem o que vivem?

Sentimentos como medo, vergonha e a sensação de que não serão levados a sério. A falta de conexão consigo mesmo e com os outros também leva ao silêncio.

O que os pais podem fazer em casa para criar um ambiente em que o filho se sinta seguro para falar quando algo assim acontece?

O primeiro passo é escutar de verdade, sem julgamentos. Sem corrigir, sem invalidar, sem dizer “não é nada”. Às vezes, a criança só precisa sentir que alguém realmente a ouviu. Isso cria conexão e confiança. Trabalhar a inteligência emocional e lidar com bullying também são passos essenciais. E mostrando, no dia a dia, que a criança pode falar, inclusive quando algo dá errado.

Você percebe alguma diferença no padrão de bullying entre meninas e meninos — tanto no tipo de agressão quanto na forma como cada um lida com isso?

Sem dúvidas. Meninos tendem a se expressar de forma mais direta. Meninas, muitas vezes, de forma mais indireta, com exclusão, com comentários, em grupos. Mas ambos sofrem.

Quais são os sinais que os pais devem observar em casa para identificar se o filho pode estar sendo vítima de bullying — mesmo quando ele não diz nada?

Pais e responsáveis devem ficar atentos a mudanças de comportamento, isolamento, irritabilidade, queda no rendimento escolar e, principalmente, quando a criança deixa de querer ir à escola.

No que as escolas brasileiras ainda precisam avançar no combate ao bullying?
Que tipo de ação você considera mais eficaz na prática?
Thelma Nascimento: “As escolas ainda focam na punição e esquecem a prevenção. Ter “não toleramos bullying” escrito na política da escola não é suficiente para que ele não aconteça. É necessário ensinar pais, cuidadores e os estudantes sobre o que é bullying, os efeitos que pode causar e como prevenir. Bullying não se resolve só com regra, se resolve com cultura. É necessário criar espaços de diálogo, escuta e construção de empatia. Não é só interromper o comportamento, é entender o que está por trás dele. Mais e mais temos pesquisas mostrando a necessidade de termos educação emocional, dentro
das escolas. RPG (role-playing games), algo como representar e interpretar papéis, é uma ótima forma de ensinar os alunos a refletir sobre pontos de vista e desenvolver empatia. Conversas abertas, mediação de conflitos, atividades que incentivem olhar para o outro e, principalmente, adultos que modelam esse comportamento, sejam eles pais, responsáveis ou educadores.”

 

Na sua visão, família e escola — qual delas tem mais peso na prevenção ao bullying? Ou é impossível separar?

É impossível separar. A criança e o adolescente vivem em ambos os ambientes e aprendem observando e ouvindo os outros ao seu redor, independentemente do local. Quando família e escola caminham juntas, o impacto é muito maior.’


 

 

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