postado em 25/05/2026 17:45
Sonia Dias, gerente de de Desenvolvimento e Soluções do Itaú Social - (crédito: Agência Ophélia )
Por João Pedro Lara Resende de Carvalho
Quase metade das redes municipais do Brasil adota estratégias de letramento matemático na educação infantil. A outra metade ainda não chegou lá — e o dinheiro para fechar essa distância, na maioria dos casos, não vem dos estados.
O dado é do levantamento inédito que o Itaú Social, em parceria com a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) e apoio técnico da consultoria Plano CDE, apresentou nesta segunda-feira (25), às 15h, no 11º Fórum Nacional Extraordinário da Undime, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília. Foram ouvidas 2.712 secretarias municipais de educação — 49% do total de municípios brasileiros.
O letramento matemático sempre correu atrás da cultura escrita, que já alcança 76% das redes. A principal barreira está na formação dos professores. Na educação infantil, o trabalho é feito basicamente por pedagogos — e estudos mostram que a carga horária de didática de matemática nesses cursos é muito menor do que a dedicada à linguagem. "Muitas vezes, esses professores escolheram um curso de humanas justamente para evitar lidar com conteúdos de exatas. A formação do pedagogo para o trabalho com matemática ainda é frágil, e esse é um espaço em que precisamos avançar", reconhece Sonia Dias, gerente de Desenvolvimento e Soluções do Itaú Social.
Enquanto a matemática avança em ritmo menor, outras práticas se consolidam. Entre as secretarias participantes, 62% promovem o contato das crianças com o meio ambiente e a natureza, 58% oferecem formação continuada com foco no desenvolvimento infantil e 56% realizam busca ativa para garantir acesso e permanência nas unidades. Os avanços, porém, convivem com exclusão. Indicador do Iede (Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional), divulgado em abril, mostrou que em 876 municípios — 16% do total — ao menos uma em cada dez crianças de 4 e 5 anos está fora da escola. No Norte, o índice chega a 29%.
O que emperra
Se as práticas pedagógicas avançam, o chão da escola ainda impõe limites. Para 23% dos gestores, o maior entrave é a infraestrutura das unidades. Em seguida vêm inclusão de crianças com deficiência (15%), gestão de vagas em creches (8%) e implementação da educação integral (8%).
O problema vai além de paredes e telhado. "Não é só infraestrutura física. Envolve o tamanho da escola, refeitório, parque, área verde, espaço para brincadeira livre. Tudo isso exige recursos", explica Sonia Dias. Dados do Censo Escolar 2025 compilados pela plataforma QEdu confirmam: apenas 17% das creches e pré-escolas públicas reúnem os itens considerados essenciais para funcionar — de água potável e esgoto a espaços de leitura e acessibilidade.
Crianças com deficiência representam desafio à parte. O atendimento exige qualificação específica e, muitas vezes, um auxiliar dentro da sala. "É fundamental que essas crianças estejam na sala de aula, mas com condições para o aprendizado e o convívio", afirma Sonia Dias. O tema é acompanhado pela Coordenação de Inclusão do MEC (Ministério da Educação). "É uma demanda do nosso tempo, mas é um grande desafio — não só de financiamento, mas de qualificação técnica dos profissionais envolvidos."
A pesquisa expõe ainda uma fratura no regime de colaboração entre estados e municípios. Dois terços das redes (67%) recebem algum tipo de apoio estadual, e na formação de professores e gestores o suporte atinge 80%. Quando o assunto é dinheiro, o cenário muda: apenas 27% dos municípios contam com assistência financeira dos estados. Do outro lado, 81% gostariam de receber esse recurso. "Cerca de 70% a 80% dos municípios brasileiros são de pequeno porte. Eles precisam não só de apoio técnico, mas também financeiro, que pode vir dos estados e do governo federal via FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação)", destaca a gerente do Itaú Social.
Outro ponto de atenção são as redes conveniadas — creches e pré-escolas mantidas por entidades parceiras, estratégia usada pelos municípios para ampliar o atendimento. A pesquisa mostra que a formação continuada oferecida a essas unidades fica aquém. "Para que o atendimento seja semelhante ao da rede própria, é fundamental que a formação seja compartilhada e a supervisão, intensificada", alerta.
Quem fica para trás
A passagem da educação infantil para o ensino fundamental acumula fragilidades. Apenas 29% das redes implementaram planejamento conjunto com os anos iniciais e produção de portfólios. Outros 17% não fazem nenhum planejamento articulado e 13% não adotam portfólios na transição. Na formação continuada, em média, só 17% das redes trabalham bimestralmente temas como leitura, campos de experiência da BNCC (Base Nacional Comum Curricular), letramento matemático e desenvolvimento infantil.
Nas modalidades de educação do campo, indígena e quilombola, o ritmo é ainda mais lento. Apenas 28% das redes implementaram propostas sem dificuldades. Outros 30% relatam alguma complexidade, 8% muita dificuldade e 8% sequer começaram. Na organização pedagógica, a maioria (63%) adota a matriz curricular estadual e 78% informam que todas as unidades adaptaram o PPP (Projeto Político-Pedagógico) às diretrizes vigentes. Ainda assim, 37% relatam dificuldade na revisão dos projetos à luz da BNCC.
O caminho que vem pela frente
O novo Plano Nacional de Educação (PNE), sancionado em 2026 com vigência até 2036, prevê a universalização da pré-escola para crianças de 4 e 5 anos e a ampliação de vagas em creches para atender ao menos 60% das crianças de até 3 anos. Para Sonia Dias, os dados da pesquisa podem ajudar a converter metas em política. "Esses números podem ajudar os gestores municipais a identificar que suas questões não são só deles. Eles não estão sozinhos." A expectativa é que o levantamento alimente as comissões bipartites — instâncias de articulação entre estados e municípios criadas para a implementação do PNE. "Há espaço para atuação conjunta das três esferas de governo para fortalecer as metas voltadas para a educação infantil."
Luiz Miguel Martins Garcia, presidente nacional da Undime e secretário de Educação de Nova Odessa (SP), reforça o peso da etapa. "A Educação Infantil é decisiva. É nesse momento que começamos a construir experiências que impactarão toda a vida escolar e social das crianças. As redes precisam planejar políticas para a primeira infância que considerem a escuta da comunidade e as desigualdades de cada território."
A Undime apresenta o estudo no fórum que marca seus 40 anos, com dirigentes de todo o país reunidos até quarta-feira (27). Os números chegam quando a maioria dos municípios ainda não cumpre as metas do plano anterior para creches. Nas redes que avançaram, há caminho testado. Nas que ficaram para trás, falta o que nenhuma pesquisa pode suprir sozinha: financiamento.
O que é letramento matemático na educação infantil?
Não se trata de ensinar contas a crianças de 4 e 5 anos. Letramento matemático nessa etapa envolve experiências com contagem, classificação, comparação de quantidades, noções de espaço e formas geométricas — tudo integrado a brincadeiras e ao cotidiano. A BNCC prevê esses conteúdos no campo de experiência "Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações".
*Estagiário sob a supervisão de Ana Sá