Por Luísa Canziani*
A inteligência artificial já é uma realidade no Brasil. A tecnologia se tornou uma força concreta que molda economias, redefine relações de trabalho e desafia estruturas institucionais em todo o mundo. E esse movimento exige mais do que entusiasmo tecnológico: requer responsabilidade pública, visão estratégica e compromisso com um desenvolvimento que seja, ao mesmo tempo, inovador e inclusivo.
Um dos pontos mais sensíveis é o uso da IA na educação. Seja no uso de plataformas adaptativas, na automação de tarefas ou no apoio ao aprendizado personalizado, a tecnologia vem transformando a maneira como ensinamos e aprendemos. Diante desse cenário, o Brasil precisa encarar com seriedade o desafio de integrar a IA à educação de forma estratégica, ética e inclusiva.
Como presidente da Comissão Especial sobre Inteligência Artificial (PL 2338/23) da Câmara dos Deputados, tenho acompanhado de perto o avanço dessas ferramentas e seus impactos diretos na formação das novas gerações. Na minha opinião, a educação é, talvez, o campo mais promissor — e também um dos mais sensíveis — para a aplicação da inteligência artificial.
Por um lado, a IA oferece oportunidades concretas para melhorar a qualidade do ensino. E já temos experiências internacionais com resultados concretos. Nos Estados Unidos, por exemplo, houve aumento significativo na retenção de conteúdo e melhoria no desempenho em matemática e leitura, especialmente em escolas públicas de regiões vulneráveis. Na China, o uso de sistema de aprendizagem personalizada elevou indicadores de desempenhos em disciplinas STEM (integração educacional de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática); na Finlândia, o país tem investido na formação docente para uso pedagógico de IA, com prioridade ao pensamento crítico e ética digital.
Os exemplos mundo afora são inúmeros e bons métodos podem - e devem - ser adaptados à realidade brasileira. Sistemas inteligentes podem identificar dificuldades específicas dos estudantes, sugerir trilhas de aprendizagem personalizadas e apoiar professores na elaboração de conteúdos mais eficazes. Em um país com profundas desigualdades educacionais, essas soluções têm potencial para reduzir lacunas históricas e ampliar o acesso ao conhecimento.
Por outro lado, é preciso cautela. A introdução acelerada dessas tecnologias, sem diretrizes claras, pode aprofundar desigualdades, especialmente entre redes de ensino com diferentes níveis de infraestrutura. Além disso, surgem preocupações legítimas sobre privacidade de dados, uso ético das informações e o papel do professor em um ambiente cada vez mais mediado por algoritmos.
E quero reforçar que não se trata de substituir educadores, mas de fortalecê-los. A inteligência artificial deve ser vista como uma ferramenta de apoio, capaz de liberar tempo para que professores se dediquem ao que nenhuma tecnologia pode replicar: o vínculo humano, o estímulo ao pensamento crítico e a formação cidadã.
Nesse contexto, o papel do poder público é decisivo. Precisamos de políticas que incentivem a adoção responsável da IA nas escolas, com investimento em infraestrutura digital, capacitação de professores e desenvolvimento de soluções alinhadas à realidade brasileira. Ao mesmo tempo, é fundamental estabelecer parâmetros regulatórios que garantam transparência, segurança e respeito aos direitos dos estudantes.
Outro ponto central é a formação dos próprios alunos para esse novo mundo. Mais do que usuários de tecnologia, precisamos formar cidadãos capazes de compreender, questionar e utilizar a inteligência artificial de maneira crítica e consciente. Isso passa pela inclusão de competências digitais nos currículos e pelo fortalecimento do pensamento científico.
O Brasil tem a oportunidade de construir um modelo de uso da inteligência artificial na educação que seja referência internacional: inovador, mas comprometido com a equidade; tecnológico, mas profundamente humano. Esse equilíbrio é o que deve orientar nossas decisões.
Ao longo dos debates na Comissão Especial, ouvimos educadores, especialistas, empresas e sociedade civil para construir caminhos que façam sentido para todo o país. A educação sempre foi o principal instrumento de transformação social — e, com o apoio da inteligência artificial, pode se tornar ainda mais potente.
Mas essa transformação não acontecerá de forma automática. Ela exige planejamento, responsabilidade e, acima de tudo, compromisso com o futuro das nossas crianças e jovens. É esse futuro que está em jogo — e é por ele que precisamos agir agora.
*Luísa Canziani, deputada federal (União Brasil - PR), presidente da Comissão Especial sobre IA e integrante da Frente Parlamentar Mista da Educação.