Por JoséAugusto Minarelli
Por onde passamos ouvimos a mesma preocupação. As empresas afirmam que está cada vez mais difícil encontrar profissionais preparados. Falam da falta de mão de obra qualificada, da dificuldade para contratar, da escassez de jovens com experiência e, muitas vezes, da falta de pessoas dispostas a trabalhar.
Essa preocupação é legítima. Mas ela nos leva a uma reflexão igualmente importante. Como haverá profissionais preparados para trabalhar se não investirmos, de forma contínua, na preparação de novos profissionais? É justamente aqui que está uma das respostas para um dos maiores desafios do mercado de trabalho brasileiro.
O país já dispõe de um instrumento capaz de aproximar jovens, escolas e empresas: o Programa Aprendiz. Entretanto, em muitas organizações ele ainda é visto principalmente como uma obrigação legal, uma cota a ser cumprida ou um encargo administrativo. Minha proposta é direta e objetiva: que cada empresa transforme a aprendizagem de uma obrigação legal em uma estratégia para formar os profissionais de que necessitará amanhã.
Quem precisa de profissionais não pode limitar-se a esperar que eles apareçam prontos no mercado. Precisa participar da sua formação. Nenhuma organização garante o abastecimento de seus produtos sem cuidar da cadeia de suprimentos. Da mesma forma, nenhuma organização deveria esperar encontrar continuamente bons profissionais sem contribuir para formar a próxima geração de trabalhadores.
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A aprendizagem representa exatamente essa oportunidade. Ela permite que a empresa conheça jovens, acompanhe seu desenvolvimento, transmita sua cultura, desenvolva competências técnicas e comportamentais e identifique aqueles que poderão integrar seu quadro de colaboradores. Em vez de apenas cumprir uma obrigação legal, a organização passa a construir um verdadeiro celeiro de talentos.
Ao longo de décadas, os Ciees Autônomos acompanharam milhares de histórias que comprovam essa realidade. Muitos profissionais iniciaram suas carreiras como aprendizes. Foram efetivados. Cresceram. Tornaram-se especialistas, gestores, executivos e líderes. Tudo começou porque uma empresa lhes ofereceu a primeira oportunidade.
Essa talvez seja a maior riqueza da aprendizagem. Ela abre a porta de entrada para jovens que desejam trabalhar e construir uma carreira. Grande parte deles pertence a famílias que nunca tiveram acesso às mesmas oportunidades de formação profissional. Para esses jovens, o Programa Aprendiz representa muito mais do que um contrato de trabalho. Representa a oportunidade de mudar o rumo de suas vidas.
Quando recebem essa oportunidade, costumam valorizá-la intensamente. Sabem que aquele pode ser o primeiro passo de uma carreira inteira. Empenham-se, aprendem, amadurecem e surpreendem. Entre esses jovens existem talentos extraordinários. São pedras preciosas que ainda precisam ser lapidadas.
E quem melhor para ajudar nessa lapidação do que as próprias empresas que, amanhã, precisarão desses profissionais? Vivemos ainda uma realidade demográfica que torna essa reflexão ainda mais urgente. O Brasil envelhece. A taxa de natalidade diminui.
O número de jovens ingressando no mercado de trabalho tende a crescer em ritmo menor, justamente quando as empresas demandam profissionais cada vez mais qualificados e preparados para um ambiente de rápidas transformações tecnológicas.
Nesse cenário, formar pessoas deixa de ser apenas uma ação de responsabilidade social. Passa a ser uma necessidade estratégica para a sustentabilidade e a competitividade das organizações. Por isso proponho uma mudança de perspectiva.
Que deixemos de perguntar apenas: “Como cumprir a cota de aprendizagem?”, e passemos a perguntar: “Como utilizar a aprendizagem para formar os profissionais de que minha empresa precisará nos próximos anos?”. Essa mudança de pergunta muda completamente a resposta. A aprendizagem deixa de ser vista como custo. Passa a ser investimento. Deixa de ser obrigação. Passa a ser estratégia. Deixa de olhar apenas para o presente. Passa a construir o futuro.
O Brasil já possui um sistema estruturado de aprendizagem. Tem empresas, entidades formadoras, escolas e uma legislação que oferece as bases para preparar a nova geração de profissionais. Talvez esteja faltando apenas uma mudança de olhar. A aprendizagem não deve ser vista apenas como uma exigência legal. Ela deve ser reconhecida como uma estratégia de formação de talentos, capaz de beneficiar simultaneamente os jovens, as empresas e o desenvolvimento do Brasil.
O Brasil vencerá a escassez de mão de obra formando talentos. A aprendizagem é uma das estratégias para reduzir essa escassez, pois aproxima empresas de jovens que desejam trabalhar, aprender e crescer. Ao cuidar desses jovens como futuros colaboradores, as empresas participam da formação da mão de obra de que necessitarão amanhã.
José Augusto Minarelli é presidente do Sistema Nacional do Centro de Integração Empresa-Escola - Ciee e presidente do Conselho de Administração do Ciee/SP
