*Por Ana Bispo Calisto
Há mais de 10 anos, a Escola da Árvore desenvolve uma proposta educacional em meio ao Cerrado, com atividades que estimulam a convivência com plantas, animais, terra e outros elementos do ambiente. A experiência ganhou um novo contexto com a Lei nº 15.512, de 22 de setembro de 2026, conhecida como ECA Ambiental, que reconhece o direito de crianças e adolescentes à natureza.
A legislação estabelece, entre outras medidas, o acesso a ambientes naturais saudáveis, o brincar livre em áreas verdes e azuis e a educação baseada na natureza. A escola, porém, entende que essa relação não começou com a nova norma.
Para a diretora e fundadora, Letícia Araújo, o desafio vai além de preservar as árvores que já existem. A proposta é formar crianças capazes de compreender a importância da natureza para a própria sobrevivência e desenvolver uma relação menos predatória com os recursos naturais.
Antes de virar lei
Na escola, a natureza não é apenas cenário para as atividades pedagógicas. Ela está presente na rotina e na forma como os estudantes observam e interagem com o ambiente.
As crianças também são convidadas a permanecer nos espaços externos. A estrutura da escola aproveita a área verde do Cerrado, que influencia inclusive a temperatura do ambiente. Em vez de restringir a aprendizagem às salas tradicionais, a instituição aposta no movimento e na exploração do território.
A proposta parte da ideia de que os alunos não estão separados da natureza. “As crianças são naturezas”, explica Letícia.
A relação com o meio ambiente também aparece na discussão sobre acontecimentos que ultrapassam os limites da própria escola. Notícias sobre eventos climáticos e situações ambientais são levadas para as atividades e relacionadas ao território onde os estudantes vivem. A intenção é que as crianças não apenas conheçam a natureza, mas desenvolvam uma visão crítica sobre as relações entre sociedade, território e meio ambiente.
Um direito reconhecido
A experiência da Escola da Árvore antecede a aprovação do chamado ECA Ambiental. A nova legislação altera o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a Política Nacional do Meio Ambiente e a Política Nacional sobre Mudança do Clima.
Com a mudança, o direito à natureza passa a integrar expressamente os direitos que devem ser assegurados a crianças e adolescentes. A norma também estabelece diretrizes para que escolas valorizem áreas verdes, vegetação nativa, espaços de sombra, hortas e estratégias de educação ambiental e climática.
Para Letícia, a discussão não deveria se limitar à criação de espaços verdes. A questão é que tipo de relação com o ambiente será construída nesses lugares e quais experiências serão oferecidas às crianças. A pergunta, portanto, passa a ser “Quais são as escolas que oferecem horizontes para seus alunos?”, reflete Letícia.
Uma escola para além das crianças
A proposta de transformação da Escola da Árvore não se restringe à relação dos estudantes com o ambiente. A comunidade escolar também decidiu discutir as condições de trabalho dos adultos que fazem parte da rotina da instituição.
Em uma assembleia consultiva com as famílias, a escola apresentou a proposta de acabar com a escala 6x1 a partir de 2027. A mudança foi planejada independentemente de uma eventual obrigação legal.
Para viabilizar a nova organização, foi criado um grupo de trabalho financeiro com participação das famílias. A escola abriu as contas para apresentar os custos e discutir coletivamente como a mudança poderia ser financiada. A previsão é de que a nova escala exija a contratação de seis ou sete profissionais para suprir a demanda de trabalho. Como parte do financiamento, a mensalidade terá um aumento de cerca de R$ 180.
A proposta foi recebida pelas famílias, segundo a escola, de maneira positiva. A instituição, porém, reconhece que nem todas terão as mesmas condições para absorver o reajuste. Atualmente, cerca de 45% das crianças atendidas pela escola recebem bolsas. Por isso, a instituição também leva em conta como garantir a permanência das famílias que precisarem de maior apoio financeiro.
A mudança, segundo a proposta apresentada pela escola, não é apenas uma alteração na jornada dos funcionários. Está relacionada à ideia de que uma escola de qualidade deve considerar também as pessoas responsáveis por fazê-la funcionar. “Uma escola de qualidade para todo mundo, não só para as crianças”, afirma Letícia.
Outro modelo de escola
A decisão de rever a jornada de trabalho faz parte de uma discussão maior sobre o modelo de sociedade que a escola pretende construir. A instituição se define como uma escola sem fins lucrativos e busca envolver as famílias nas decisões que afetam a comunidade. A assembleia sobre a escala 6x1 é um exemplo dessa tentativa de construir as mudanças de forma coletiva.
Agora, mais de uma década depois do início da experiência, uma lei nacional passa a reconhecer que crianças e adolescentes têm direito à natureza. A escola, que já vinha experimentando essa ideia, se prepara para outra mudança: reorganizar o próprio trabalho para que a proposta de cuidado alcance também os adultos.
No projeto da Escola da Árvore, Letícia afirma: “Escolher uma escola também significa escolher os valores que se deseja levar para a sociedade”.
*Estagiária sob a supervisão de Ana Sá