Por Daniel Grynberg e Alan Dantas**
Em Democracia e educação, publicado em 1916, o filósofo John Dewey defendeu que o professor deve criar situações em que os alunos formulem e testem suas próprias ideias e que, ao participar dessa investigação, também aprende com eles. Mais de um século depois, a inteligência artificial transformou esse princípio em necessidade. A tecnologia muda rápido demais para que qualquer docente a acompanhe sozinho, e quem se recusa a aprender com a turma corre o risco de ensinar para um mundo que já não existe.
Há quem veja nisso uma ameaça, e o receio é compreensível. Se o aluno domina uma ferramenta que o professor desconhece, a autoridade em sala parece abalada. E se a IA escreve, resume e resolve exercícios em segundos, a tentação de terceirizar o aprendizado é real. Mas a resposta a esses riscos não é fechar a sala de aula para a tecnologia. A autoridade do professor nunca dependeu de saber tudo, e sim de saber fazer as perguntas certas.
Os próprios docentes já percebem a mudança. Segundo levantamento publicado em abril de 2026 pela European School Education Platform, com 1.130 respostas de mais de 50 países, majoritariamente de professores, 87% dos participantes afirmam que a IA exigirá atualização de competências e formação contínua. Defendemos que parte dessa formação aconteça na própria sala de aula, quando os estudantes apresentam usos da tecnologia que o professor ainda não explorou.
O uso da IA pelos estudantes mostrou a necessidade de rever o exercício. Nas aulas de apresentações profissionais, pedir que os alunos escrevam ou melhorem um texto deixou de ser suficiente, porque a ferramenta consegue cumprir essa tarefa rapidamente. O trabalho passou a explorar as experiências que cada pessoa viveu, as competências presentes em sua história e o que ela queria comunicar. A tecnologia pode, então, ajudar a testar versões e simular um entrevistador. O aprendizado com os alunos levou à revisão da prática docente.
É aqui que o papel do professor se torna mais importante, e não menos. Uma entrega bem escrita pode esconder pouco domínio do assunto. Cabe a quem ensina discutir como a ferramenta funciona, questionar suas respostas, reconhecer seus limites e, sobretudo, pedir que o estudante explique as próprias escolhas. Aprender com a turma não significa abrir mão do rigor. Significa usar a descoberta compartilhada para criar atividades em que a IA não pense pelo aluno, mas o obrigue a pensar melhor.
Ampliar o acesso à tecnologia e à formação é condição para que essa troca com a IA alcance mais estudantes e professores. No Rede Amazônia +Conectada, o Grupo +Unidos reúne conectividade, equipamentos e formação digital em comunidades rurais da Amazônia, com a EBAC como parceira educacional na oferta de bolsas de cursos. Iniciativas como essa ajudam a criar condições para que os estudantes ampliem seu repertório e compartilhem descobertas nos espaços em que aprendem.
Também é preciso que as redes de ensino reconheçam esse aprendizado como parte do trabalho docente, com espaço na rotina, tempo para experimentar e apoio para rever práticas. Valorizar quem ensina inclui garantir condições para que continue aprendendo com os estudantes. Na era da inteligência artificial, a sala de aula precisa ser também um lugar de formação para o professor.