Por Martin Oyanguren
A inteligência artificial já virou prática social antes de se consolidar como política educacional. A discussão deixou de ser sobre liberar ou restringir aos alunos essa tecnologia. O desafio agora é organizar, qualificar e orientar uma aprendizagem que já começou dentro e fora da escola.
Nos Estados Unidos, quatro em cada cinco estudantes do ensino médio e superior já usam inteligência artificial em atividades escolares. Ao mesmo tempo, apenas metade das escolas tem políticas sobre o tema. Apenas 6% dos professores consideram essas diretrizes claras. O dado revela uma transição institucional. A tecnologia avançou em ritmo muito superior à atualização curricular, à formação docente e à construção de regras pedagógicas consistentes.
Esse descompasso exige método e maturação. O aluno já consulta, resume, traduz, compara e pesquisa com apoio algorítmico, muitas vezes sem orientação clara sobre autoria, verificação, raciocínio e limites de uso. O ponto central deixou de ser o acesso à ferramenta e passou a ser a capacidade institucional de transformar uso difuso em formação qualificada.
Quando a prática chega antes da arquitetura de ensino, a aprendizagem tende a migrar para a experimentação individual. Alguns estudantes desenvolvem repertório e capacidade analítica; outros permanecem em um uso superficial e automático. Nesse contexto, a escola ganha importância ainda maior. Cabe à instituição transformar um hábito fragmentado em percurso formativo e ao professor converter a IA um objeto de leitura crítica, produção de conhecimento e cidadania digital.
Esse movimento já extrapolou a sala de aula. O relatório da Stanford University sobre o tema mostra que Emirados Árabes Unidos, Chile e África do Sul estão entre os países com maior crescimento em competências de engenharia em IA desde 2022. O dado indica que a formação em inteligência artificial já acontece no trabalho, na pós-graduação, em cursos livres e na prática cotidiana de profissionais de diferentes áreas. A sociedade começou a aprender IA por múltiplos caminhos. A educação formal precisa reconhecer isso para assumir protagonismo neste processo.
A oportunidade das escolas é estratégica. Mais do que tratar a IA como ferramenta externa, é preciso incorporá-la como parte da cultura contemporânea. Isso implica revisar planos de ensino, investir em letramento docente, criar critérios de uso por faixa etária e estabelecer parcerias de apoio técnico e pedagógico. A presença da tecnologia já está consolidada. Falta dar a ela densidade educacional.
A formação docente, aliás, está no centro do debate internacional. A UNESCO aponta que poucos países definiram competências em artificializa para professores ou criaram programas nacionais consistentes de capacitação. O mesmo marco propõe 15 competências em cinco dimensões, com foco ético, pedagógico, humanista e profissional. A qualidade da resposta educacional dependerá menos do fascínio tecnológico e mais da preparação de quem ensina.
Há ainda um aspecto econômico impossível de ignorar. O Fórum Econômico Mundial estima que 39% das competências atuais sofrerão transformação ou perderão valor até 2030. Em uma força de trabalho hipotética de 100 pessoas, 59 precisarão de treinamento. O relatório também aponta inteligência artificial e análise de dados entre as competências de crescimento mais acelerado. Formar para a era da IA já entrou na agenda de empregabilidade e produtividade.
A inteligência artificial já entrou na educação pela porta da rotina. Agora, é hora de fazê-la entrar pela porta do projeto pedagógico. Esse é o passo que separa uso episódico de formação consistente. Quando a escola assume esse papel, fortalece sua missão mais importante: formar pessoas capazes de compreender o próprio tempo, pensar criticamente e atuar com responsabilidade em uma sociedade cada vez mais orientada por dados e algoritmos.