Aprovação

Jovem quilombola passa em 1º lugar em direito pela UFPA

Natural de Baião (PA), Olívia Natalino alcançou posição de destaque no vestibular indígena e quilombola da UFPA. Fã de literatura, a jovem é engajada politicamente e busca lutar por melhorias na sua comunidade

Correio Braziliense
postado em 30/01/2026 19:19
Olívia Natalina, 18, comemora aprovação em direito pela UFPA -  (crédito: Arquivo pessoal)
Olívia Natalina, 18, comemora aprovação em direito pela UFPA - (crédito: Arquivo pessoal)

 

Por Victor Rogério

Liderança quilombola e filha de trabalhadores rurais, Olívia Natalino, 18, passou em 1º lugar no curso de direito da Universidade Federal do Pará (UFPA), por meio do Processo Seletivo Especial (PSE) Indígena e Quilombola. Apesar da pouca idade, a jovem é engajada em lutas sociais e exerce papel ativo na Comunidade Quilombola do Engenho Arquenio, da qual faz parte. Segundo Olívia, seu objetivo na área de direito é se especializar cada vez para ajudar sua comunidade com políticas públicas.

Lutas sociais

“Escolhi direito porque não temos acesso a políticas sociais. Quando precisamos de um advogado, não tem quem nos atenda. Desde criança eu via essas injustiças e pensava: por que não me formar em direito para, um dia, poder ajudar meu povo?”, lembra.

Natural de Baião (PA), o gosto pela política é tradição na família. Seus pais, Ovax Mendes Ferreira, 57, e Laudemira Roldão, 52, são ligados a movimentos sociais, incluindo o Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STTR). “Desde pequena meus pais me levavam para as reuniões. Eles contribuíram muito para que eu escolhesse direito tanto como um sonho quanto como oportunidade de mudar nossa vida”, conta.

Sacrifícios

A aprovação veio à custo de muito sacrifício e resistência. Em 2025, na 3ª série do ensino médio, Olívia acordava às 4h da manhã para ir à escola Francisca Nogueira da Costa Ramos E.E.E.M e retornava às 14h.

Sua rotina de estudos para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) envolvia revisões constantes e a produção de duas redações por semana. As aulas, que frequentava em um cursinho popular na cidade, começavam às 18h e terminavam às 21h30. Mesmo com a dificuldade de locomoção, o pai sempre a buscava na escola."Minha filha enfrentou um desafio grande pelo fato de morarmos na roça, além de não termos uma renda tão alta”, disse Ovax.

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“Várias vezes, a estudante pegava chuva no caminho da escola devido à falta de transporte. Morar na roça é uma dificuldade muito grande. Na escola em que ela estudava, sempre faltou merenda, sempre faltou transporte”, lembra.

Literatura

Fã de literatura, Olívia atribuiu o bom desempenho na prova à leitura constante de livros, prática incentivada pelo pai. Em entrevista, a jovem mencionou A hora da estrela, de Clarice Lispector, como uma de suas obras favoritas.

"Sempre gostei de leitura, acredito que essa aprovação foi graças à leitura. Meu pai sempre me motivou à leitura. Ele falava: ‘Quem lê muito, não erra. Quem lê muito não escreve errado’. Eu faço muitas anotações. No meu quarto, tem um monte de papéis que eu colocava na parede de lembretes de conteúdos para não esquecer. Então, tudo isso foi graças à leitura”, diz.

Aprovação

Olívia lembra, com emoção, o momento em que soube da aprovação na última segunda-feira (19/1), enquanto assistia à live da UFPA com a divulgação do resultado. “Quando ouvi meu nome, dei um grito aqui em casa e todo mundo ficou me olhando. Minha mãe perguntou o que tinha acontecido. Foi uma mistura de emoção que a gente não sabe explicar. Foi uma emoção muito grande porque a gente sabe a luta que enfrenta", enfatiza.

“Nunca deixei as dificuldades me pararem. Eu sempre pensei: ‘Eu consigo. Se ela pode, eu posso também’. É muito muito gratificante para mim ver meus pais orgulhosos por mim”, diz.

Ovax também recorda com carinho da hora em que recebeu a notícia da aprovação da filha. “Eu estava trabalhando quando alguém me chamou e disse que minha filha queria falar comigo. Fui ao encontro dela e, quando me contou que foi aprovada em 1º lugar, a emoção tomou conta. Eu senti que valeu a pena todo o esforço que fizemos ", lembra.

Mensagem para a juventude

Símbolo de resistência e resiliência, Olívia encerrou a entrevista com uma mensagem de motivação aos jovens. “Que não deixem ninguém dizer que esse sonho não é para vocês. Que possamos ocupar espaços que, por décadas, foram negados a nós. Que a gente chegue e ocupe, sim”, declara.

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