Dalgiza Andrade Oliveira*
Em 12 de março, celebramos o Dia do Bibliotecário. Mais do que uma data comemorativa, trata-se de um momento de reflexão sobre o papel estratégico da profissão na construção de uma sociedade mais informada, mais justa e mais democrática. Falar de Biblioteconomia no Brasil é falar de inclusão, de acesso ao conhecimento e de compromisso social.
Os bibliotecários estão presentes nas mais diversas unidades de informação, em todo o território nacional, atuando na promoção da leitura, na organização do conhecimento e no uso qualificado da informação. Nossa profissão está intrinsecamente ligada ao processo emancipatório da sociedade brasileira. Assumimos, ao escolher essa carreira, o compromisso de contribuir para a superação das desigualdades culturais, educacionais e científicas que ainda marcam o país.
Os dados recentes reforçam a dimensão desse desafio. Em 2024, o InstitutoBrasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou que 9,1 milhões de brasileiros com 15 anos ou mais ainda são analfabetos, o que corresponde a 5,3% da população nessa faixa etária. Embora a taxa tenha recuado de 6,7% em 2016 para 5,3% em 2024, os avanços não eliminam as profundas desigualdades regionais. Mais da metade dos analfabetos reside na Região Nordeste (IBGE, 2024), evidenciando a urgência de políticas consistentes deampliação do acesso à educação e à cultura.
Nesse contexto, as bibliotecas públicas ocupam papel central. O Brasil conta com15.279 bibliotecas públicas registradas. Ainda assim, a distribuição desigual desses equipamentos compromete sua efetividade: a maioria está concentrada nos grandes centros urbanos, enquanto mais de 60% da população rural permanece sem acesso adequado a bibliotecas de qualidade. Essa assimetria amplia as distâncias sociais e culturais e impõe desafios estruturais que precisam ser enfrentados.
É justamente diante desse cenário que, em 2026, a Biblioteca Pública foi definida como tema prioritário da atual gestão do Conselho Federal de Biblioteconomia. A Biblioteca Pública é reconhecida internacionalmente, inclusive pelo Manifesto da Federação Internacional de Associações de Bibliotecários (IFLA), como um portal do conhecimento.
Mais do que um espaço de guarda de acervos, esse equipamento é um ambiente de acolhimento, de formação cidadã, de valorização da identidade cultural e de acesso democrático à informação.
Entre os muitos desafios, depara-se com realidades muito díspares. Nesse aspecto, destaca-se a Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, que revelou que apenas 47% da população leu ao menos um livro em 2024, sendo que os índices são significativamente menores nas classes C, D e E e em áreas periféricas e rurais. Esse dado demonstra que o acesso ao livro e à leitura ainda é um desafio social e não apenas educacional.
As bibliotecas públicas, portanto, são estruturas essenciais para garantir acesso à leitura, à informação de qualidade, à inclusão digital e à formação continuada das comunidades. São espaços de mediação cultural e de fortalecimento da cidadania.
O Conselho Federal de Biblioteconomia, como órgão de orientação e fiscalização da profissão, atua na defesa da sociedade. Assim, busca o fortalecimento e a valorização da biblioteca pública como política estruturante de desenvolvimento cultural e social. Nosso compromisso institucional é fortalecer o debate, incentivar a participação da categoria e contribuir para que esse equipamento seja reconhecido como estratégico para o fortalecimento da soberania cultural do país. Neste Dia do Bibliotecário, celebramos a dedicação dos profissionais que, cotidianamente transformam informação em oportunidade e sobretudo, reafirmamos o compromisso permanente da categoria com a democratização do acesso ao conhecimento.
A construção de um Brasil mais igualitário, portanto, passa indissociavelmente pelo acesso à informação, pelo fortalecimento das bibliotecas públicas e pela valorização do compromisso profissional e social do bibliotecário. Esse é o desafio que nos move e o legado que buscamos consolidar para gerações futuras.
Dalgiza Andrade Oliveira é presidente do Conselho Federal de Biblioteconomia (CFB)*