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Ciência sem previsibilidade: o Brasil que produz talento, mas desperdiça estrutura

Estado de São Paulo oferece bons mecanismos de pesquisa, mas ainda falta aplicar esse modelo em outros estados do país

EuEstudante
postado em 08/04/2026 20:27 / atualizado em 08/04/2026 20:28
. -  (crédito: Arquivo Pessoal)
. - (crédito: Arquivo Pessoal)

Por Francisco Borges

A fragilidade científica das universidades brasileiras não decorre da falta de mérito acadêmico. Ao contrário, o país forma bons pesquisadores, produz conhecimento relevante e mantém ilhas de excelência reconhecidas internacionalmente. O problema é que se trata de uma arquitetura institucional marcada por incertezas, descontinuidades e ausência de visão de longo prazo.

Há, no entanto, uma exceção que merece destaque e, mais do que isso, replicação: o Estado de São Paulo. Ali, a ciência deixou de ser tratada como política circunstancial e passou a ocupar o lugar de política de Estado.

O modelo paulista se sustenta em uma estrutura mais bem articulada, baseada em financiamento estável, automático e protegido. As universidades estaduais operam com previsibilidade orçamentária e autonomia de gestão, o que permite planejamento estratégico consistente e continuidade de projetos científicos.

Esse arranjo produz efeitos estruturais claros e mensuráveis: previsibilidade real de recursos, não sujeita a contingenciamentos discricionários; autonomia administrativa que viabiliza decisões de longo prazo; e capacidade contínua de investimento em pesquisa, infraestrutura e formação de talentos.

O mesmo princípio se aplica à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), cujo orçamento está vinculado a um percentual constitucional da receita estadual. O resultado é um fluxo de financiamento estável e blindado, que sustenta a produção científica com consistência e qualidade.

Em termos simples, São Paulo resolveu um dos maiores dilemas da ciência brasileira e transformou o financiamento em política permanente. Não por acaso, lidera com folga os rankings acadêmicos nacionais, concentrando instituições como USP, UNICAMP e UNESP entre as melhores do país.

Enquanto isso, o restante do Brasil opera sob uma lógica oposta e estruturalmente frágil. Universidades e centros de pesquisa convivem com orçamentos sujeitos a cortes recorrentes, dependem de decisões anuais do Executivo e enfrentam baixa previsibilidade para planejamento. A consequência imediata se reflete em projetos interrompidos, equipes desmobilizadas e perda de capacidade competitiva.

O resultado não poderia ser diferente. O país apresenta excelência pontual, mas não sistêmica. Há bons pesquisadores, bons grupos e boas iniciativas, mas falta um projeto nacional de ciência e ensino superior. Falta financiamento estável, metas claras de desempenho, governança orientada a resultados e, sobretudo, integração efetiva com o desenvolvimento econômico.

Esse último ponto é particularmente crítico. Em um mundo cada vez mais orientado por tecnologia, dados e inteligência artificial, a desconexão entre universidade e setor produtivo representa não apenas uma ineficiência, mas uma perda estratégica de futuro.

O Brasil não precisa reinventar soluções, pois elas já existem dentro de casa. O desafio está em transformar casos de sucesso em modelo replicável. Isso passa, inevitavelmente, por algumas decisões estruturais.

É preciso instituir mecanismos de financiamento vinculados à receita, garantindo previsibilidade real e estabilidade institucional. É necessário expandir e fortalecer as Fundações de Amparo à Pesquisa em todos os estados, assegurando fluxo contínuo de recursos. Também é fundamental criar polos regionais de excelência, com escala e continuidade, capazes de competir globalmente.

Além disso, a avaliação do sistema precisa evoluir. É indispensável adotar métricas rigorosas, baseadas em dados, desempenho e impacto e não apenas em critérios formais. E, sobretudo, é urgente integrar universidades ao desenvolvimento econômico e tecnológico, com foco claro em inovação, produtividade e novas fronteiras como a inteligência artificial.

O diagnóstico, portanto, é conhecido. O Brasil não carece de talentos. Não carece de universidades. E tampouco carece de exemplos bem-sucedidos. O que falta é decisão política para transformar exceções em regra, descontinuidade em estratégia e potencial em resultado.

Sem isso, continuaremos presos a um paradoxo incômodo, o de ser país capaz de produzir conhecimento relevante, mas incapaz de sustentar, ampliar e transformar esse conhecimento em desenvolvimento consistente.

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