Mas, afinal, o que é um chatbot? "É, de forma simples, um sistema que conversa com o usuário por mensagem, como se fosse um contato comum no WhatsApp", explica Pedro Henrique Ferreira Silva, um dos criadores. A diferença é que do outro lado da tela não há uma pessoa, e sim um programa de inteligência artificial. No caso do "Tá certo isso aí?", funciona como um checador automático de fatos: o usuário encaminha um conteúdo suspeito e recebe uma análise de volta.
Pedro divide a autoria com Cauê Paiva Lira e Luiz Felipe Diniz Costa. Os três venceram a competição interna da USP. Depois, o projeto ficou em primeiro lugar no programa AI4Good, da Brazil Conference. A premiação levou o trio para apresentar o trabalho em Harvard e no MIT (Massachusetts Institute of Technology), em Cambridge (EUA), no fim de março.
A ideia é simples na ponta. O usuário adiciona o número 35 98424-8271 aos contatos do WhatsApp e encaminha qualquer conteúdo suspeito: texto, áudio, vídeo, imagem, link, até figurinha. Em segundos, o bot devolve uma análise. "O sistema identifica o tipo de conteúdo, faz o pré-processamento, transcreve o áudio, analisa o vídeo, separa as principais afirmações e busca evidências em fontes confiáveis", detalha Pedro.
A diferença em relação a outras soluções está na curadoria. O bot não pesquisa em qualquer canto da internet. Bebe apenas em veículos jornalísticos consolidados, agências profissionais de checagem e fontes oficiais. "O critério não é alinhamento ideológico. É reputação, rastreabilidade da informação e qualidade do processo editorial", afirma Cauê.
Luiz Felipe lembra que erros aconteceram no começo. O sistema chegou a validar uma informação a partir de um perfil não verificado do Instagram. A correção foi imediata. Hoje, em vez de classificar uma mensagem inteira como verdadeira ou falsa, o bot quebra o texto e avalia cada afirmação separadamente. "A resposta fica muito mais precisa e estruturada", conta.
Política lidera o ranking dos temas mais checados. Vem depois golpes e boatos cotidianos. Para os alunos, a surpresa foi notar que assuntos banais e de entretenimento também aparecem com força. "A desinformação não se limita ao debate institucional. Faz parte do fluxo de conteúdo que circula entre amigos, famílias e comunidades", diz Pedro.
Em busca de patrocinadores
A operação é bancada pelo próprio time, com créditos gratuitos da Google Cloud. Cada mil mensagens custam, em média, R$ 50. Para crescer, o trio precisa de aporte. "Hoje, o projeto está saindo do nosso bolso, e para escalar precisamos de ajuda", afirma Luiz Felipe, responsável pelas conversas com possíveis patrocinadores. Empresas, instituições e parceiros interessados em apoiar a iniciativa devem entrar em contato diretamente com ele.
Com as eleições de 2026 no horizonte, os três trabalham em três frentes ao mesmo tempo: reforçar a infraestrutura para o salto de volume, ampliar parcerias com veículos de imprensa e universidades e investir em detecção de deepfakes.
Privacidade é regra. Os números de telefone dos usuários não ficam armazenados, e os dados passam por anonimização antes de qualquer análise. "O papel da plataforma é entender padrões de desinformação, não mapear pessoas", garante Cauê.
O sucesso, para o trio, não está no troféu. "Daqui a cinco anos, vamos considerar que o projeto deu certo se virar infraestrutura confiável, usada em escala real por cidadãos, jornalistas e instituições", conclui Luiz Felipe.
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