Luto

Demógrafa Elza Berquó, pioneira dos estudos populacionais no Brasil, morre aos 100 anos

Matemática mineira fundou o Nepo-Unicamp e o Cebrap, presidiu a Comissão Nacional de População e Desenvolvimento e formou gerações de pesquisadores no país

João Pedro de Lara Resende
postado em 17/07/2026 15:16 / atualizado em 17/07/2026 15:16
Elzá Berquó -  (crédito: Reprodução)
Elzá Berquó - (crédito: Reprodução)

A demógrafa Elza Salvatori Berquó, referência internacional em estudos populacionais, morreu nesta quinta-feira (16), em São Paulo, aos 100 anos. Nascida em Guaxupé (MG), matemática de formação, ela dedicou sete décadas à análise de dados demográficos e censitários do país e à formulação de políticas públicas baseadas em evidências. O velório será na capital paulista, segundo o Núcleo de Estudos de População da Unicamp (Nepo-Unicamp), centro de pesquisa que Berquó fundou em 1982 e leva seu nome desde 2014.

Berquó formou-se em matemática pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) em 1947, concluiu o mestrado em estatística pela Universidade de São Paulo (USP) em 1949 e o doutorado pela Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, em 1959. Foi professora titular da Faculdade de Saúde Pública da USP e ajudou a criar três das principais instituições brasileiras dedicadas ao estudo da população: o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), fundado em 1969 ao lado de Fernando Henrique Cardoso, Octávio Ianni e José Arthur Giannotti; a Associação Brasileira de Estudos Populacionais (Abep), em 1977; e o Nepo, dedicado à pesquisa em demografia, políticas públicas e questões populacionais.

Políticas públicas e direitos reprodutivos

Berquó presidiu a Comissão Nacional de População e Desenvolvimento (CNPD) desde a criação do órgão, em 1994, até 2003. À frente da comissão, defendeu o acesso a métodos contraceptivos, ao aborto e aos direitos reprodutivos como agenda de política pública, além de estudar a mortalidade infantil. Pioneira nos estudos de fecundidade, transição demográfica, gênero, raça e saúde reprodutiva, foi uma das primeiras pesquisadoras a identificar a queda da fecundidade e o processo de envelhecimento da população brasileira. Integrou a Academia Brasileira de Ciências e as comissões consultivas dos censos demográficos de 1991, 2000 e 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2021, tornou-se a primeira mulher a receber o título de doutora honoris causa da Unicamp.

Ex-alunos e colegas lamentam falecimento

O falecimento movimentou as redes sociais e reuniu dezenas de mensagens de pesar de ex-alunos e colegas no perfil do Nepo-Unicamp, que evocaram a passagem pela sala de aula da pesquisadora e o peso de suas obras na formação em estatística e demografia no país. Para a atual coordenadora do núcleo, a antropóloga e demógrafa Gláucia Marcondes, Berquó foi "uma mulher fantástica, uma cientista inspiradora". Eduardo Rios Neto, membro da Academia Brasileira de Ciências e ex-presidente da Abep, chamou-a de "a mãe da demografia brasileira". Até ao fim de 2026, a CNPD vai lançar o Prémio Elza para reconhecer ações de impacto nos direitos sociais.

*Estagiário sob a supervisão de Ana Sá

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