Doutorado

Aluna de doutorado é premiada por apresentação de pesquisa sobre glaucoma

Concurso de divulgação científica abre 2ª edição com R$ 48 mil em prêmios e votação popular; inscrições vão até 31 de agosto

João Pedro de Lara Resende
postado em 12/08/2026 00:01
Loreena Klein Alves Machado comemora o 1º lugar na área de ciências biológicas e da saúde na final do 3MT-UFRJ, em 2025 -  (crédito: Arquivo pessoal )
Loreena Klein Alves Machado comemora o 1º lugar na área de ciências biológicas e da saúde na final do 3MT-UFRJ, em 2025 - (crédito: Arquivo pessoal )

Loreena Klein Alves Machado, 28 anos, precisava explicar para os pais o que faz no doutorado. Se eles entendessem, o caminho estaria certo. O problema: a pesquisa dela investiga como reprogramar células da retina para reverter a perda de visão causada pelo glaucoma — tema que, segundo a doutoranda, "até pessoas da própria área de biologia têm dificuldade de entender". A saída veio em forma de analogia. O olho virou cozinha. As células, chefe e ajudantes. O fator de transcrição que ela usa na pesquisa, uma receita capaz de promover ajudantes a chefes. "Vou apresentar pros meus pais. Se eles entenderem, é porque estou no caminho certo", conta.

Funcionou. Doutoranda em neurobiologia no Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Loreena venceu na área de ciências biológicas e da saúde na primeira edição do Prêmio 3 Minutos de Tese (3MT-UFRJ), em 2025. O concurso desafia pesquisadores a apresentar suas teses em vídeos de até três minutos, gravados em tomada única e sem edição, para público não especializado. A estreia recebeu 313 vídeos habilitados de 92 programas de pós-graduação. Publicados no canal do Fórum de Ciência e Cultura (FCC) no YouTube, ultrapassaram 250 mil visualizações — 120 mil nos dois primeiros dias — e alcançaram quase 2 milhões de impressões. "As pesquisas produzidas na UFRJ despertam o interesse e a curiosidade da população quando são apresentadas de forma clara e acessível", afirma Christine Ruta, coordenadora do FCC.

Premiação triplicou

A segunda edição está com inscrições abertas até 31 de agosto. Podem participar doutorandos da UFRJ e recém-doutores com defesa a partir de 26 de junho de 2025. Os vídeos devem ser gravados na horizontal, em tomada única e sem edição; o único recurso visual permitido é um slide estático opcional.

Em cada uma das três grandes áreas do conhecimento, o primeiro colocado recebe R$ 8 mil; o segundo, R$ 5 mil; e o terceiro, R$ 2 mil. A novidade é a votação popular — o vídeo mais curtido no YouTube em cada área garante R$ 1 mil ao autor. São 12 premiações, que totalizam R$ 48 mil. Na estreia, o valor distribuído foi de R$ 25,5 mil. "Na verdade, a premiação praticamente triplicou", destaca Christine. A ampliação foi viabilizada com apoio da Fundação Universitária José Bonifácio (FUJB). "A votação popular surgiu de uma vontade manifestada pelo próprio público e pelos participantes da primeira edição", acrescenta.

Um júri seleciona 21 finalistas — sete por área — para a etapa presencial, marcada para 5 de novembro, no Rio de Janeiro. O prêmio é realizado pelo FCC e pela Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa (PR-2), com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), da FUJB e da Prefeitura Universitária. Nesta edição, soma-se a parceria da Política de Sustentabilidade e Educação Regenerativa (Política SER/UFRJ). O concurso é inspirado no Three Minute Thesis (3MT®), criado pela Universidade de Queensland, na Austrália, em 2008, e presente em mais de 900 universidades pelo mundo.

Dez gravações e um palco lotado

Para chegar ao palco, Loreena gravou o vídeo cerca de 10 vezes. A dificuldade era comprimir em três minutos o que normalmente se defende em 40. Termos como células ganglionares da retina, glia de Müller e fator de transcrição KLF4 deram lugar à cozinha e aos seus personagens. "Se eu continuasse insistindo no perfeccionismo, nunca ia mandar", reconhece.

Na final, que lotou o Auditório Horta Barbosa, no Centro de Tecnologia da UFRJ, a sensação era de "nervosismo muito gostoso". Depois da premiação, pessoas da plateia a paravam para contar que tinham familiares com glaucoma. "É muito legal quando o nosso trabalho chega nas pessoas. Às vezes, a gente trabalha tanto e não recebe esses estímulos positivos no dia a dia", diz. O prêmio mudou a forma como ela se vê. "Foi muito bom para minha autoestima como pesquisadora e como comunicadora."

Christine quer tornar o concurso permanente e, no futuro, abrir participação para mestrandos. Na segunda edição, candidatos estrangeiros gravaram vídeos em português sem dominar o idioma, e participantes do ano passado voltaram para concorrer de novo. "Comunicar a ciência produzida em uma universidade pública é também um compromisso democrático", define a coordenadora.

Loreena concorda — e tem um conselho para quem pensa em se inscrever. "O principal não é falar rápido em três minutos. O importante é conseguir, de maneira tranquila e simples, falar sobre o que você faz no seu doutorado."

Anote

Estagiário sob a supervisão de Ana Sá

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