Entendendo o sofrimento mental

Arquivo pessoal



Celso Lopes de Souza é médico psiquiatra, educador e fundador do Programa Semente (www.programasemente.com.br), que é executado em escolas brasileiras com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento socioemocional de alunos e professoras. Confira entrevista com ele:

- Caso de suicídio entre estudantes (da educação básica e do ensino superior) têm chamado cada vez mais atenção. Quais poderiam ser as principais causas por trás dessas mortes?

O suicídio é um fenômeno complexo, que está associado a uma sequência de processamentos distorcidos da realidade, que culminam na ação. Suas causas são multifatoriais. Estudos mostram que, em 90% dos casos, a pessoa que se suicida tinha algum transtorno psiquiátrico. Alguns dados mostram que o suicídio tem aumentado em todas as faixas etárias, mas com mais intensidade entre os jovens. É difícil apontar apenas uma causa para um fenômeno tão complexo.

- Como o sofrimento psíquico e o autoextermínio estão relacionados?

A pessoa que se suicida não quer deixar de viver. Ela quer parar de sofrer. Por trás dos pensamentos suicidas, é comum estar presente uma tríade cognitiva conhecida como três "Is": o sofrimento se torna insuportável, impossível de ser superado e interminável. O sofrimento é insuportável porque a pessoa tende a enxergar os problemas de sua vida maiores do que eles são. O impossível está ligado ao fato de a pessoa subdimensionar suas capacidades de enfrentar as dificuldades. E o insuportável se manifesta porque a pessoa tem a sensação de que o sofrimento nunca vai acabar. Essa é a pior das distorções, pois o indivíduo não consegue enxergar uma das grandes certezas que temos: tudo passa. Quem comete suicídio não quer morrer, mas sim renascer, escapando da situação vivida sob os três "Is". Uma tentativa de suicídio é, por isso, um pedido de ajuda.

- Os casos de problemas de saúde mental têm aumentado na população? Ou na verdade aumentou a procura por ajuda e as discussões em torno do assunto?

É difícil afirmar isso, uma vez que os dados que tínhamos à disposição até há alguns anos eram bastante escassos. O que se pode dizer, com certa segurança, é que estamos falando mais sobre o tema, o que é bom, pois as doenças psiquiátricas, durante muito tempo, foram bastante estigmatizadas.

- Como escolas, universidades e outras instituições de ensino podem identificar e agir em situações de risco?

As escolas e as universidades precisam estabelecer uma relação de confianças com os estudantes para que eles se sintam à vontade para procurar ajuda. Por isso, para prevenir o suicídio, é necessário não esconder a sua existência, mas, sim falar sobre ele, criando um ambiente de acolhimento.

- Qual o papel das famílias e dos amigos na missão de evitar ocorrências do tipo?

Em poucas palavras: os pais devem estar cada vez mais próximos de seus filhos e mostrar que os apoiam incondicionalmente. Assim, uma forma de enfrentar o problema do suicídio, tanto para os jovens que o cogitam, quanto para os que perderam amigos assim, é falar sobre o tema. O jovem se sente acolhido quando percebe que tem espaço para falar o que sente. Muitas vezes, ele tem dificuldade de exprimir as próprias emoções em situações tão extremas, o que pode se dar por medo ou vergonha, mas pais, demais familiares e educadores devem deixar claro que o canal de comunicação está sempre aberto.

- Qual a importância das competências socioemocionais para evitar problemas de saúde mental?

Uma forma de prevenção é ensinar as crianças e os adolescentes a enfrentarem os pensamentos distorcidos que estruturam os pensamentos suicidas. Isso permite encontrar formas alternativas, mais realistas, de avaliar o que estamos vivendo. Essa capacidade faz parte de uma grande competência que chamamos de flexibilização cognitiva e é um dos pilares dos programas de aprendizagem socioemocional, como o Programa Semente, concebido para ser desenvolvido nas escolas de educação básica.

- O fato de o suicídio ser um tema tabu pode inibir jovens a conversarem e buscarem ajuda sobre isso?

Sim. Por isso, é preciso fazer com esse tema deixe de ser um tabu.

- Que orientações e que tipo de serviço um jovem que está numa situação de sofrimento pode buscar?

Esse jovem precisa de acolhimento: da família, dos amigos, da escola. E, sobretudo, precisa de ajuda de um profissional habilitado para cuidar da saúde mental.