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Lúcia Toller: a bailarina pioneira que colocou Brasília no mapa nacional

Pioneira do balé em Brasília, Lúcia Toller dá aulas desde 1962, quando começou a ensinar filhos de funcionários em acampamento. A academia que leva seu nome é símbolo da dança na cidade

A bailarina Lúcia Toller tornou-se referência do balé clássico em Brasília. Pioneiríssima, começou a dar aulas ainda em acampamentos construídos para abrigar os primeiros moradores da recém-inaugurada capital e transformou a "única coisa que sabia fazer" em um ofício bem-sucedido e estelar. Hoje, a academia que leva o seu nome está no currículo de centenas de bailarinos pelo país e traz em sua grade também o ritmo e a brasilidade de outras danças.

Carioca, Lúcia chegou a Brasília em 1962, aos 17 anos. Mãe solo de um bebê de 2 anos, ela acompanhava os pais, que vinham se tornar pioneiros da nova capital. O pai era servidor do Banco do Brasil e recebeu a missão de integrar o grupo dos primeiros funcionários da instituição financeira estatal em Brasília.

O primeiro endereço da família foi um acampamento na 303 Sul. Os prédios da capital ainda se erguiam. Lúcia começou a trajetória na educação ali mesmo, dando aulas de balé para as filhas dos funcionários. 

"Havia um teatro pequeno para passar filmes para os funcionários à noite. Brasília não tinha nada, era mato mesmo. E esse acampamento era muito divertido, tinha um cassino onde a gente se encontrava toda noite e esse teatro para passar filmes e também para pequenas apresentações ou encontros", relembra, descrevendo o local que foi sua primeira sala de aula.

No Rio de Janeiro, Lúcia havia começado os estudos de balé clássico aos 10 anos, na Escola de Ballet Clássico do Teatro Municipal, sob o comando da bailarina russa Tatiana Leskova e da ucraniana Eugenia Feodorova, pioneiras do balé no Brasil. "Me colocaram no piano, mas não deu certo. Eu queria balé. Queria movimento, queria agitação", revela, sobre a decisão tomada já aos 5 anos. Duas professoras marcaram essa formação inicial: uma brasileira, Euphany Peçanha, e a austríaca Juliana Yanakieva. "Ela foi muito importante na minha formação, porque me ensinou a técnica, o balé de repertório", detalha. Eram oito a nove horas diárias de treino.

Minervino Júnior/CB/D.A.Press -
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Primeiros anos

Após a mudança para o apartamento, na 308 Sul, as aulas também ganharam novo endereço, um grande salão nos fundos do Bancrévea. "Só balé clássico. Era a única coisa que eu sabia fazer direito. E tinha vontade, me aperfeiçoava", atesta. Antes de seguir para um local definitivo, a academia ainda se abrigou no Clube Unidade de Vizinhança nº 1.

Lúcia virou até estrela da TV Brasília, onde se apresentou em um quadro chamado Clubes na TV, que destacava as opções de lazer e de atividades artísticas na cidade quase deserta. "Cachoeira tinha bastante", brinca. Em 1968, a Secretaria de Educação e Cultura concedeu-lhe o registro de professora.

Em 1970, Lúcia se deparou com uma oportunidade única. A Escola de Dança Dalal Achcar abriu a oportunidade para que professores brasileiros trouxessem o balé da Royal Academy of Dance para o Brasil. A organização do Reino Unido é uma das principais do mundo, com mais de 100 anos de história e 400 mil estudantes e bailarinos de todas as idades habilitados em mais de 80 países. 

"(A Dalal Achcar) trouxe grupos de professores para ensinar o método inglês da Royal Academy. É super interessante, porque ele concede diploma que é válido pelo mundo todo. É reconhecido, assinado pela rainha (ou rei). Há toda uma tradição", orgulha-se a pioneira.

O último exame para passar a integrar oficialmente a Royal Academy, Lúcia fez aos 35 anos, já mãe de Alexandre, Felipe e Sérgio. "Você tinha que reconhecer toda a técnica, como dar aula, como atuar em sala de aula, como preparar um aluno para ser bailarino", detalha, explicando a disciplina e a dedicação necessárias para alcançar o nível de excelência exigido. Ela recebeu, então, o registro de professora da instituição.

Também fez curso no Ballet de Cuba, com Alícia Alonso, e frequentou cursos de inverno no American Ballet Theater, onde assistiu a ensaios de Mikhail Baryshnicov, Natalia Makarova, entre outros.

"Foi nessa época que a escola começou a crescer muito e eu passei a trazer bailarinos e pessoas capacitadas da Bahia. Era o lugar mais próximo de onde eu podia trazer", afirma.

Nova inauguração

A sede definitiva da Academia Lúcia Toller — onde está instalada até hoje — começou a ser construída em meados da década de 1970, quando a família comprou o terreno na quadra modelo 308 Sul, ao lado do Clube Vizinhança, em uma área destinada no projeto original de Lucio Costa a edificações voltadas para a educação. A inauguração oficial do prédio com salas amplas — que permanecem irretocáveis até hoje — ocorreu em 1974. "Até as barras foram tão bem feitas que são ainda as mesmas desde 1974", exalta.

A memória das apresentações na Sala Martins Pena do Teatro Nacional está entre aquelas que Lúcia guarda com mais carinho. Em 1965, quando a sala de aula do teatro foi inaugurada, o balé de Lúcia Toller fez uma exibição especial. Um de seus sonhos, agora que o Teatro Nacional foi reaberto, é levar de novo para lá o tradicional espetáculo de fim de ano da academia.

Além das grandes apresentações de seus bailarinos, Lúcia dançava em embaixadas e também se apresentou no Itamaraty. Em 21 de abril de 1965, fez uma de suas performances mais emblemáticas: dançou para Juscelino Kubitschek, em cerimônia que celebrava a volta do político do exílio.

Fotos: Arquivo Pessoal -
Arquivo pessoal -
Arquivo pessoal -
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Aperfeiçoamento

Nessa época, Lúcia trouxe para Brasília, pela primeira vez, uma professora russa, Sulamith Messerer, primeira bailarina do Ballet Bolshoi por 25 anos, que deixou um legado de energia e fluidez para o balé da academia. Uma dança sem pausas e com mais energia desabrochou. "Trazer essa bailarina foi maravilhoso, porque ela deu um suporte muito grande, principalmente na parte técnica. Ensinou muita coisa por antecipação", afirma.

"Isso fica registrado no corpo. O balé é interessante, porque o teu corpo, a musculatura, é memória. Você está em contato com a música, com a criação e há um desprendimento muito grande. Então, a facilidade de execução é muito maior. Essa capacidade de ser dançante eu aprendi muito com ela."

Aos poucos, a academia começou a ganhar a própria cara, com mais gingado. O balé clássico puro, mais erudito, repetitivo e de tradição europeia ganhou a companhia de ritmos diversos, para atrair novos públicos e atender à demanda de uma cidade que começava a fazer as próprias escolhas culturais. "Tudo que americano lançava era o máximo, não é? Então, todo mundo queria imitar, fazer igual. Eu percebi isso de cara. As pessoas desejavam uma coisa a mais", diz Lúcia, bem humorada, lembrando, como exemplo, da chegada do jazz. 

"E essa coisa a mais foi o que eu fui achar na Bahia. Percebi que o ritmo era muito forte. O molejo é mais fácil de fazer, não exige tanta costura, tanta rigidez muscular e tanto aperfeiçoamento. Isso é muito mais para europeu do que para brasileiro", destaca. "E na Bahia eles têm facilidade com tudo quanto é ritmo, pegam muito rápido, não têm dificuldade nenhuma, porque são dançantes. E ser dançante é o principal da arte de dançar. O balé prima pela qualidade, o passo a passo. Mas a primeira coisa é isso: é ser dançante", ensina.

É nisso que as aulas da própria pioneira, que segue lecionando para algumas turmas da academia, se baseiam. "Às vezes, você tem de largar um pouco a técnica e deixar o pessoal sentir a música. Se sente a música, sente o ritmo, e vai conseguir dançar muita coisa. E precisa ter vontade", resume. Colocar energia na dança e se deixar sentir o movimento e a própria respiração são as principais orientações da bailarina. "Se você não respirar direito, você não dança."

Novas gerações

"Cada aula que você dá é um aprendizado. Você ensina, mas também aprende, porque cada geração é diferente uma da outra", garante. Mas o conselho para quem pretende seguir os passos de tantos bailarinos, bailarinas, dançarinos e dançarinas que alcançaram o sucesso depois de passar pela academia permanece: "Você tem de se doar cada dia um pouquinho. Não pode doar tudo de uma vez. É uma constância, o trabalho de todo dia. Não precisa ser muito, mas tem de ser todo dia. Tem de ser persistente, adquirir disciplina, paciência e humildade."

Todos os anos, a academia promove dois espetáculos, no primeiro e no segundo semestre, para colocar em destaque o trabalho de seus pupilos e professores. A tarefa não é fácil, como ressalta Lúcia. "O governo nunca deu suporte, então sempre toquei o barco para a frente, com luta, investindo; e fui fazendo."

Aos 83 anos, avó de quatro netas e com uma bisneta, Lúcia transformou a academia em um negócio familiar. Dois dos três filhos a ajudam na administração e na expansão do negócio, que hoje conta com uma área para musculação e pilates, atendendo a públicos de todas as idades.

Apesar de fazer viagens frequentes ao Rio, onde respira a brisa do mar e admira a rebentação, não pensa em deixar Brasília, mas almeja que a cidade se transforme em metrópole real e que não se mantenha no "esqueleto", como descreve. "Ela ainda não é uma cidade completa."