Por Denis Caldeira
Durante anos, o sucesso das big techs criou a ilusão de que existe uma fórmula universal para crescer rápido, inovar constantemente e dominar mercados. Google, Meta e outras gigantes do Vale do Silíciose tornaram-se referências globais, e muitas empresas brasileiras passaram a tentar replicar seus modelos quase como um manual. O problema é que crescimento não acontece no vácuo. Ele é profundamente influenciado pelo ambiente em que a empresa está inserida.
No Brasil, a realidade impõe desafios que simplesmente não existem no ecossistema que deu origem às big techs. Instabilidade regulatória, carga tributária complexa, burocracia elevada e acesso restrito a capital mudam completamente a equação do crescimento. Dados do Banco Mundial mostram que empresas brasileiras gastam mais de 1.500 horas por ano apenas para cumprir obrigações fiscais, um custo invisível que afeta margem, velocidade e capacidade de inovação. Ignorar esse contexto ao importar modelos de gestão é um erro estratégico recorrente.
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Outro equívoco comum está na romantização do crescimento acelerado a qualquer custo. No Vale do Silício, operar no prejuízo por anos é parte do jogo, sustentado por abundância de capital e alta tolerância ao risco. No Brasil, poucas empresas sobrevivem a longos períodos de caixa negativo. A busca por escala precisa caminhar junto com eficiência operacional, previsibilidade financeira e geração de valor desde cedo.
A maturidade organizacional também é um fator decisivo. Estruturas horizontais, squads autônomos e metas agressivas funcionam em ambientes com processos bem definidos, cultura forte e alto nível de digitalização. Estudos indicam que a maioria das empresas brasileiras ainda está em fases iniciais dessa jornada. Implementar esses modelos sem a base necessária costuma gerar ruído interno, perda de foco e queda de produtividade, exatamente o oposto do que se espera ao “copiar” o Vale.
Isso não significa que as empresas brasileiras devam ignorar as lições das big techs. Há aprendizados extremamente relevantes que podem ser adaptados com sucesso. Um deles é a disciplina orientada por dados. Tomar decisões baseadas em experimentação, métricas claras e ciclos curtos de aprendizado reduz desperdícios e aumenta a assertividade estratégica. Outro ponto essencial é o foco obsessivo na experiência do cliente, especialmente em um mercado no qual consumidores abandonam marcas rapidamente diante de experiências negativas.
A forma de liderar também precisa evoluir. Pesquisas amplamente conhecidas mostram que equipes de alta performance dependem mais de confiança, clareza e segurança psicológica do que de talentos individuais isolados. Em um país marcado por desigualdades e diversidade cultural, lideranças que combinam empatia com direção estratégica consistente tendem a construir times mais resilientes e engajados.
Por fim, o crescimento sustentável no Brasil passa necessariamente por governança. Empresas que estruturam bem seus processos, definem papéis com clareza e mantêm disciplina estratégica aumentam significativamente suas chances de escalar sem perder controle. Mais do que adotar modismos tecnológicos, o diferencial está em alinhar cultura, gestão e execução à realidade do mercado.
O Brasil pode aprender muito com o Vale do Silício, mas não precisa tentar ser o Vale do Silício. Crescer aqui exige menos encantamento com fórmulas prontas e mais pragmatismo para adaptar bons princípios a um ambiente complexo, desafiador e, ao mesmo tempo, cheio de oportunidades.
