Pelo segundo ano consecutivo, mulheres que completarem 18 anos em 2026 poderão se alistar nas Forças Armadas. As inscrições são obrigatórias para homens, mas voluntárias para as candidatas do sexo feminino. Apesar de reconhecer que o serviço não é um processo compulsório para ingresso na carreira militar, Sarah Soares alistou-se no ano passado, por entender que que o Serviço Militar Inicial Feminino (Smif ) voluntário representa um avanço para as mulheres e para a sociedade, além de uma oportunidade para conhecer melhor a carreira.
Para ela, o Smif voluntário é mais uma chance de garantir que mulheres ocupem espaço em diversas áreas. Por sua vez, Evellyn Vitória Gomes, 18, recentemente designada para servir no Exército Brasileiro, considera a importância do alistamento para mulheres de todo país que iniciarem a carreira profissional. Ela destaca que o serviço militar possibilita às mulheres mostrarem força, resistência, coragem e determinação.
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Também selecionada para serviço temporário no Exército, Sarah conta que sempre se interessou pela carreira militar, o que a levou a se tornar uma concurseira. Hoje, ela estuda para entrar como oficial de carreira por meio de editais específicos. Enquanto a nomeação não ocorre, ela pretende estender o período de serviço — o qual pode ser prorrogado, a cada um ano, até um prazo máximo de oito anos.
A família na decisão
A opção de Sarah pelo alistamento foi bem recebida pelos familiares. Eles a apoiaram em todo o processo até que a designação fosse realizada. Ex-jogadora profissional de futsal durante anos, ela admite que a trajetória não será fácil. Mas acredita que os anos como atleta a preparam para todo o rigor, a disciplina e a necessidade de trabalho em grupo, que acredita serem necessários no período em que estiver em serviço.
Evellyn afirmou que, inicialmente, a decisão causou receio na família, composta majoritariamente por mulheres — segundo ela, havia uma espécie de preconceito quanto à carreira militar. Mas a jovem destaca que, com explicações a respeito do próprio interesse em fazer parte da área e com esclarecimentos sobre o funcionamento do serviço voluntário, o apoio familiar surgiu aos poucos.
Impactos sociais
Para Sarah e Evellyn, o período de serviço representa muitas possibilidades para quem gosta do universo militar, além de um meio de demonstrar a força e capacidade das mulheres brasileiras. Elas afirmam que o interesse em se alistar pode surgir a partir de objetivos distintos. Evellyn, por exemplo, lembrou que desde pequena tem interesse por todas as forças e pela carreira militar. Aos 17 anos, ao ler no jornal uma reportagem informando que mulheres passariam a ter a possibilidade de servir temporariamento por meio do alistamento, inspirou-se na carreira do tio, um ex-coronel, e decidiu tentar uma vaga. Ela destaca que o soldo que receberá durante o período de serviço (R$ 1.177,00) será útil em seus projetos e objetivos.
Em alguns casos, a oportunidade representa a inserção profissional, sobretudo para aqueles cuja renda familiar depende do salário recebido durante o período de serviço. Esse é o caso de Allan Matos Almeida, 19, que entrou para o Exército por meio do alistamento obrigatório em 2024. Para ele, as motivações iniciais foram a família e o soldo, que serve como complemento da renda mensal da família.
Prazo e vagas
Neste ano, as candidatas e os candidatos interessados terão até 30 de junho para se apresentar às Juntas Militares (confira o endereço das Juntas neste site alistamento.eb.mil.br/serviço/jsm ) ou por meio do endereço eletrônico https://alistamento.eb.mil.br/ e inscrever-se para compor o corpo militar. Em 2026, o serviço militar feminino oferta 1.467 vagas — 1.010 destinadas ao Exército, 300 à Aeronáutica e 157 à Marinha. No ano anterior, 33.721 mulheres se alistaram para servir no ano atual, 96,7% a menos que os 1.029.323 homens que também se alistaram no mesmo período.
Segundo o Ministério da Defesa, a discrepância pode ser justificada devido à obrigatoriedade para homens, enquanto que, para mulheres, o serviço permanece voluntário. A expectativa do órgão é de ampliação do número nos próximos anos. Para isso, desde a aprovação do decreto, há investimento em campanhas de alistamento, que ocorrem anualmente.
As vagas para jovens do sexo feminino estão distribuídas em 145 municípios de 21 estados, além do Distrito Federal. Para o Ministério da Defesa, a iniciativa proporciona, durante o período de serviço, oportunidade de atuação em diferentes áreas, favorecendo a aquisição de experiência profissional relevante.
O serviço militar
Para os homens, o alistamento militar no Brasil surgiu em 1964, com a promulgação da Lei do Serviço Militar, que tornou obrigatório o serviço para todos os cidadãos do sexo masculino ao completarem 18 anos. Desde então, o cumprimento dessa obrigação cívica passou a ser um dever legal, mantido até os dias atuais. A legislação prevê consequências administrativas para aqueles que não regularizarem sua situação militar dentro do prazo estabelecido.
Entre as restrições impostas aos homens em débito com o Serviço Militar, estão a impossibilidade de emitir passaporte, matricular-se em instituições de ensino superior, assumir cargos públicos, inscrever-se em concursos e realizar atos da vida civil. Tanto para homens quanto para mulheres, o processo de alistamento exige a apresentação de documentos, como certidão de nascimento ou casamento, RG ou passaporte, CPF e comprovante de residência, no ato da inscrição.
Após a etapa inicial, os candidatos passam por avaliações físicas, exames de saúde e entrevistas, com o objetivo de verificar se estão aptos para a incorporação às Forças Armadas. Uma vez designado, o candidato passa a cumprir o Serviço Militar Inicial pelo período de 12 meses, podendo ser prorrogado conforme a legislação vigente. Durante esse tempo, o militar é submetido a treinamentos físicos e operacionais, como o Teste de Aptidão Física (TAF), além de atividades administrativas ou operacionais.
*Estagiária sob a supervisão de Ana Sá
